O Filho de Xangô

"É possível que Alá faça surgir amizade entre ti e aqueles dentre eles que tu consideras como inimigos. E Alá é Poderoso; e Alá é Perdoador, Misericordioso" (surata 60:7, MMP, Alcorão)

"Não deves odiar teus familiares em teu coração. Censura teu parente, mas não incorra em culpa por causa dele. Não deves vingar-te nem abrigar rancor contra teu compatriota. Ama a teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor (Jeová)" (Levítico 19:17, 18, Ta)- Antiga lei judaica

"Mas, eu digo a vós, os que estais escutando: continuai a amar os vossos inimigos, a fazer o bem aos que vos odeiam,... e a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é benigno para com os ingratos e os iníquos" (Lucas 6:27, 35)

Enquanto o frio intenso da madrugada úmida caía, Alberto deixava o terreiro de umbanda. Mais um dia de trabalho se acabava; trabalho físico, serviço mental; encargos da alma. Agora, ele só estava interessado em repousar. O cansaço estonteante da semana o tinha deixado pálido, sem forças. Entretanto, a consciência lhe amenizava o sofrimento. Afinal, tinha cumprido sua obrigação como bom funcionário que era, a semana inteira e, acima disso, estava quite com Xangô, seu pai.

A realização de um dos maiores sonhos do rapaz se desenhava em formas reais: estava trabalhando como médium, uma missão que lhe perseguia desde menino. Olhando a guia colorida pelos tons das sete linhas, Alberto sentia um sensação que convergia emoção e carinho, fazendo lágrimas fartas brotarem de seus olhos.

Pela primeira vez, sentia-se útil, porque a sua vida inteira suportou a frustração de enxergar as ações erradas dos homens sem poder se manifestar. Aquela era a forma e o momento de mostrar seu real valor, de ajudar no que podia. Seus dias sem sentido na Terra tinham terminado.

Idéias e mais idéias lhe vinham à mente, criando inúmeras reflexões. A cerimônia de sua iniciação na religião tinha sido marcante. As muitas horas em que passou deitado para o santo, haviam lhe servido para purificação.

A fome consumia Alberto, enquanto ainda não chegava a sua casa. Então, ele recordou-se das oferendas aos orixás, dos trabalhos na mata e sentiu uma vontade incrível de comer canjica...

Pensou no emprego, relembrou as dificuldades de sua vida; resolveu esquecer. O que lhe vinha no pensamento, naquele momento era a figura de sua cama humilde e o desejo de um chocolate quente; descansar o cérebro um pouco; pensar na vida, esquecer o mundo... um mundo muito menor do que ele imaginava.

Seu sono naquela noite foi mais tranqüilo e leve, porque estava satisfeito consigo mesmo. Supunha-se que os orixás também. Mas a alegria da nova descoberta que perdurou pelo final de semana inteiro, cessou na segunda-feira. Ao iniciar mais um dia de trabalho, Alberto se deparou como uma surpresa em cima de sua mesa: era uma carta de demissão.

Um calafrio o prendeu à cadeira. Momentos de agonia e tristeza arrebataram o jovem rapaz, consumindo toda a sua jovialidade. Depois de tanto tempo e de tanta dedicação por aquela empresa, como poderia ser demitido ? E, ainda mais daquela maneira, sem nenhum tipo de justificativa. Como orientar sua vida agora ? Era sozinho, dependia daquele emprego para sobreviver.

Totalmente confuso, Alberto procurou entender o motivo de sua dispensa. Quase não faltava, era um funcionário produtivo... e, além disso, a empresa prosperava financeiramente.

Depois de ser confortado e de se acalmar um pouco, decidiu conversar diretamente com o diretor da firma. Afinal, julgava-se no direito de ouvir algum tipo de explicação. Dirigiu-se até a sala do Sr. Abimael. Após alguns instantes, a secretária mandou que entrasse na sala do diretor.

De costas para a porta, o imponente empresário estava sentado em sua cadeira, que mais parecia um trono real. Ali, parecia estar à espera do rapaz, que entrou cautelosamente nos domínios do homem.

O diretor girou a cadeira, ficando de frente para Alberto. Em seguida mirou-lhe nos olhos, demonstrando indiferença.

- Sente-se! - pronunciou de forma seca.

Alberto estranhou o comportamento, já que sempre fora um dos funcionários prediletos do Sr. Abimael e nunca dera motivos para despertar sua ira. Passados alguns instantes no mais completo silêncio, Abimael retomou o curso da conversa:

- Sei porque está aqui. Acho que a nossa convivência me induz a antecipar algumas de suas atitudes, mas não todas elas. Evidentemente deve estar querendo saber o porquê da demissão, não é ?

O rapaz acenou afirmativamente com a cabeça, já supondo o que estaria por vir.

- Bem, em consideração à sua pessoa, eu vou ser bem sincero no que tenho a dizer. Você conhece a Zona Norte, não conhece ?

Novamente o rapaz respondeu que sim.

- Pois é; eu e minha esposa passávamos por lá, no sábado. Estávamos indo a um teatro E, quando passamos por uma daquelas ruazinhas perdida, avistamos o senhor, saindo de um desses templos das trevas, onde se cultua o demônio. Garanto para você que eu fiquei decepcionado, porque...

O homem mal terminou de expor suas idéias, quando Alberto explodiu de ódio:

- O quê ? Quem você pensa que é para investigar a sua vida ? Quem é você para julgar a religião que eu sigo, seu canalha ? Olha, era melhor que você nem se justificasse... não sabe que esse tipo de discriminação é crime ?

A discussão começou a ganhar tensão:

- Escute aqui, Alberto, quem diz quem trabalha ou não nessa instituição sou eu e mais ninguém. E eu digo que eu não quero gente da sua laia aqui dentro, entendeu ? Se quiser me processar, faça. Eu só estou lhe dando satisfação em consideração a você. - berrou o diretor, alterado.

- Bela consideração a sua. Mas eu lhe digo uma coisa. Pela justiça de Xangô, você entenderá, de uma vez por todas, o quanto está errado. Eu nunca tive um pai e enxerguei no senhor o modelo para mim. Mas você é igual a todos os outros. Igual a todos os outros...

Alberto esmurrou a porta e saiu da sala para a rua repetindo aquelas palavras:

- Igual aos outros, igual a todos os outros...

Abimael saiu correndo atrás do moço rua a fora, com remorso. Atrás de Alberto, que andava a passos largos, ele tentava explicar o que não havia explicação. Empenhado nessa tarefa, o Dr. Abimael esqueceu-se de um detalhe: os carros que cruzavam as ruas. Ao tentar alcançar o jovem, o diretor foi surpreendido por um carro que cortava uma das ruas das redondezas e foi arremessado a vários metros de distância.

Depois de minutos inconsciente, abriu os olhos, debilmente, tomado pela dor e pela fraqueza. Conseguia, no entanto, compreender que estava dentro de um carro. Podia também ouvir uma voz familiar, que lhe falava docilmente. Era a voz de Alberto:

- Calma, seu Abimael. A gente já chega lá.

Dentro do velho Fiat, o filho de Xangô acelerava para chegar ao hospital em tempo. Então, Abimael balbuciou algumas palavras a Alberto, sussurrando:

- Como estou ?

- Bem, foi só um choque...

- ...

- Não, eu não vou mentir. O senhor está mal, sangrando muito. Eu não sou médico, não entendo nada disso, mas acho que o senhor está com hemorragia. Mas, logo a gente chega no hospital. - reiterou Alberto.

O senhor Abimael voltou seu olhar para cima do porta-luvas do carro e enxergou uma figura. Segurou em suas mãos o papel e distinguiu um homem acorrentado a um tronco. Indagou:

- Esse é Xangô ?

- Não, não, é Oxóssi.

O empresário devolveu a figura, agora manchada de sangue, ao seu lugar. Depois disso, seus olhos recomeçaram a se fechar vagarosamente, enquanto o rapaz, desesperado, acelerava ao máximo seu carro rumo ao hospital, enquanto ainda havia esperanças.

 


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