Fronteiras

Com o dedo no gatilho, com bombas e outras "maravilhas" bélicas, um ditador ameaçava um colega de trabalho. Mas que falta de ética, pensei, deliciando-me em venenosa ironia. Então, logo pus de lado os artigos jornalísticos e recai na minha vertiginosa introspeção.

Quantas vidas ocultavam-se nos bastidores daquelas folhas de papel desmanteladas por mãos preocupadas ? Quanta sujeira se levantava por intermédio das pequenas palavras em negrito que noticiavam o fato ?

Se a atividade armada é um empreendimento realmente lucrativo, conclui-se que, para certos homens, a morte é um bom negócio! Quem induz à guerra: o vicejante e carismático ditador ou as sombras que espreitam nas suas vigílias ? Será o fanatismo e o preconceito os caminhos do "lucrativo negócio" ?

Na ortografia de minha vida, os sinais de interrogação só se substituem aos pontos de reticências...

A Internet é uma boa saída nessas horas em que companhias não são bem-vindas. Novas informações ocupam o cérebro e elevam a alma.

Mal começo a navegação e recebo a chamada de um marujo. Chamava-se Jodon e residia na Malaísia. Ora, quem quer falar com alguém da Malaísia a uma hora dessas ? Na verdade, não queria me comunicar com ninguém. Meu desgosto o impedia.

Iniciei uma conversa reflexiva sobre os males que me aterrorizavam e inconscientemente, abri meu coração ao inusitado amigo. Aquela situação surpreendeu-me: uma pessoa do outro lado do mundo dava-me consolo em uma hora triste. O calor humano arde de forma igual pelos arredores do planeta e constitui a base de seu equilíbrio. No nosso inglês precário, os sentimentos eram transmitidos paulatinamente e minhas mágoas cessavam-se.

Terminei a conversa, cordialmente, e despedi-me da recente amizade, ainda espantado com tudo o que ocorreu. Tomei o curso da rua e comecei a caminhar no mesmo passo em que refletia.

Nunca soube e ainda tenho dúvidas se o tal Jodon tenha existido realmente. Quantos mistérios estão escondidos por trás das conexões do universo, a verdadeira e grande rede que interliga as nossa vidas!? Qual o endereço da página de nossa verdadeira felicidade ?

Para alguns, as vidas humanas não passam de meros arquivos temporários, facilmente eliminados com o pressionar do DELETE; para outros, pensa-se que finalizar os nossos maiores medos é uma tarefa tão simples quanto digitar ESCAPE. A tecnologia evolui mas as mentes acomodam-se no tempo. Atualmente, é possível quebrar as fronteiras de qualquer parte do planeta, mas ainda não existe no mundo ciência capaz de romper as fronteiras dos nossos corações.

Encontrava-me só na estrada de concreto. A noite estava gelada e do outro lado da rua existia um bar. De dentro dele era emanada uma luz vermelha, que mais confundia os olhos do que iluminava. O barulho também era em grande quantidade: sons de garrafas e vozes humanas se uniam ao heavy metal tocado em altíssimo volume. Senti que algo estranho estava ocorrendo, mas preferi negligenciar o sinal.

O frio e a escuridão não me deixaram outra escolha senão me juntar àquele ambiente. Logo, coloquei meus pés para dentro do recinto e para minha felicidade, tratava-se apenas de mais um desses bares da cidade, onde homens e mulheres comparecem amiudadas vezes para descansar seus nervos, após um dia corrido.

Familiarizado com o estabelecimento, dirigi-me ao balcão e pedi um copo de vinho tinto. Foi quando ao meu lado, sentou-se um sujeito alto e discreto. Não podia ver seus olhos, nem tampouco os contornos da face, cobertos pelas longas madeixas de cabelo.

O desconhecido tirou um papel do bolso de sua camisa e passou-me, cuidando para que ninguém se apercebesse. A pequena folha branca fora manchada com números e equações matemáticas que eu não podia compreender.

Exatamente no momento em que recebi esse papel, acordei. Fiquei tentando me recordar da fórmula, mas era impossível fazê-lo. O certo é que eu nunca me esqueci daquele sonho.

Um ano mais tarde, reencontrei o caminho daquele bar. Nessa segunda fez, entrei no local com a felicidade de um velho saudosista, que retorna ao parque de diversões aonde brincou por toda sua infância.

Sentando ao balcão, esperei o amigo desconhecido. Ele surgiu repentinamente e de seu jeito silencioso, passou-me outro papel, agora com mais números. Então, toquei seu ombro e lhe falei:

- Homem, explique o que isso significa!

Ele virou-se de frente para mim, e quando o fez, percebi que sua face era a mesma que a minha; seus olhos eram os meus; seu nariz, sua boca, seu jeito de falar eram próprios de minha pessoa. Disse ele:

- Muitos falam, poucos ouvem. Mas aquele que deseja praticar o bem, de verdade, não perderá a fé e falará. Os números são a forma que eu falo. Procure a sua também: sonhe, estude, fale, escreva. E não tenha receio daquilo que lhe pertence.

Quando acordei, pensei a respeito do que tinha escutado, mas me perdi entre teorias e probabilidades diversas. De qualquer modo, achei que o mais conveniente seria não me desobedecer.

 


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