O ônibus do além Nos dias mais quentes de verão, o tempo se repete, praticamente idêntico, por toda a estação. No fim de tarde, a tempestade surge, amainando o calor abrasador do dia. É exatamente nessa hora, quando a chuva atinge seu ponto máximo, que os trabalhadores saem de seus empregos e o trânsito engrossa de volume. Nesse período, a palavra caos é a mais apropriada para os grandes centros urbanos, que ficam submersos na água suja, uma mistura de água de chuva, rios transbordantes e lixo, muito lixo. Rapidamente, um fenômeno climático transforma-se em uma tragédia de gigantescas dimensões. Nos apartamentos altos e luxuriantes dos bairros centrais não se pode sentir a dor daqueles que vêem sua vida arrasada. O ciclo das enchentes iguala-se, paradoxalmente, ao ciclo das secas nordestinas: a sua chegada constante destrói as pessoas, que durante um ano lutam para reaver o que perderam, até que outra enchente venha, numa jornada infinita e dolorosa. Entretanto, os altos índices pluviométricos são normais; a incoerência humana é que não é. Apesar da "normalidade" das chuvas, nada mais cansativo do que enfrentar ônibus lotados e longas filas de espera depois de um estafante dia de trabalho, especialmente se o paradeiro não for o aconchego de seu lar. Também pode-se ser otimista em relação a essa questão e encará-la como uma prova para sua paciência... De qualquer modo, quem nunca passou por esse tipo de aventura não pode sequer imaginar o sentido do que eu estou escrevendo. Os menos pacientes e os oportunistas são os primeiros a se manifestar: uns, arrumam desculpas para se esquivar dos compromissos e outros tratam logo de arrumar uma carona, um atalho ou um jeito alternativo de fugir de toda essa balbúrdia. Os oportunistas têm ao lado a sua esperteza; quanto aos impacientes, estes muitas vezes podem sentir na própria pele os efeitos de seus atos equivocados. É nessa segunda categoria que encontramos Rogério. Habitualmente, apenas um bom pai de família que cumpria sua rotina diária e monótona, como burocrata em um conhecido órgão do Estado. Era uma pessoa comum do povo, igual em quase tudo à maioria dos cidadãos, exceto pela experiência incomum que os mistérios do universo lhe tinham reservado. O calendário datava 09 de março de 1998, segunda-feira; uma dia de trabalho como outro qualquer; dia de uma das mais arrasadoras chuva de verão daquele ano. No ponto de ônibus lotado, os lugares protegidos da chuva eram disputados, quase que ferozmente. O guarda-chuva dava vazão à água que caía do céu, transformando-se em um acessório inútil. Para completar, os grandes veículos que cruzavam a avenida despejavam banhos de água suja naqueles que aguardavam seus ônibus na calçada, inevitavelmente. O campo de batalha tornava-se cada vez mais hostil; aos poucos, comentários nervosos, destinados às autoridades, podiam ser ouvidos. A demora se alongava e cada minuto que se passava parecia continha um número enorme de segundos. O cansaço dominava os corpos; a revolta dominava as mentes. Foi quando Rogério enxergou um vulto de cor laranja, em uma das pequenas ruas transversais à avenida. Observando melhor seus detalhes, ele notou que aquilo se tratava de um ônibus; um ônibus já de partida, misteriosamente desconhecido. No letreiro, o etinerário anunciava: "Terminal Carrão". Justamente o seu paradeiro. Um sentimento reconfortante tomou conta do espírito de Rogério que seguiu ao encontro do ônibus, completamente encharcado. Felicidade, alívio, comoção: você pode denominar como quiser a sensação que o nosso amigo sentiu naquele momento. Palavra nenhuma poderá descrever com precisão a emoção: conforto, alegria e outros sentimentos se juntavam com outras sensações: desconfiança e receio. Assim que colocou-se dentro do ônibus, o motorista deu a partida no motor e começou a seguir viagem cidade adentro. Preferiu deixar o pagamento da passagem somente na chegada ao Terminal, descansando seu corpo cansado em um dos assentos que se encontravam próximo à porta de entrada do ônibus. Depois de restabelecido, mirou para o fundo do veículo. A dúvida preencheu os pensamentos de Rogério e não poderia ser diferente: o ônibus estava, sinistramente, vazio. Nenhum passageiro de pé, nenhum passageiro sentado, ninguém. No imaculado carro, além de Rogério, apenas o obscuro cobrador e o motorista. O seu susto era perfeitamente compreensível: naquele horário, o ônibus deveria estar abarrotado de pessoas: barulho, mulheres grávidas, idosos, paradas múltiplas e, entretanto, nada disso se via. Como um ônibus desconhecido, que parte de um ponto desimportante e não conduz um bom número de passageiros pode se manter ? Tudo bem que o ônibus podia ser desconhecido, mas tinha um ponto final um tanto disputado! Rogério dirige-se ao cobrador, intrigado: - Nova essa linha, né? - perguntou, tentando em vão extrair informações preciosas - Tão nova quanto pode ser. - respondeu o homem com tom grave e pausado - Desculpe, estou meio indeciso. É que essa é a primeira vez que viajo por essa companhia, sabe ?... A resposta não veio. Nenhum músculo da face do cobrador deferiu um movimento sequer - Nossa senhora, tá um toró aí fora! Ainda bem esse ônibus estava me esperando. Pensei que eu ia derreter... O silêncio permaneceu. A viagem seguiu lenta o seu percurso inteiro e os únicos sons que podiam ser ouvidos eram as trovoadas macabras do negro céu. Mais de uma hora haviam se passado. Já não se podiam enxergar as ruas que o ônibus se embrenhava. Rogério ainda insistiu: - Ei, amigo, já vi que você não é muito chegado num papo. Só me faz um favor, tá! Responde qual é o etinerário, os caminhos dessa linha maldita! O homem então virou-se e com a face totalmente transfigurada respondeu calmamente: - Aqueles que são, enquanto são e aqueles que não são, enquanto não são. - Já chega, pára essa porcaria, pára, que eu quero descer desta espelunca! Já não chega a chuva, agora isso também!!! No entanto, os gritos selvagens de temor diversas vezes reiterados não produziram o menor efeito. O cobrador desapareceu repentinamente. Rogério, então, correu amedrontado para a cabine do motorista. Quando colocou as mãos no ombro do condutor do veículo, o mesmo virou-se de soslaio. Então, os olhos do rapaz aumentaram de tamanho e seus braços se enrijeceram de pavor, num momento de terror máximo: o motorista não possuia face. Um frio terrível percorreu a espinha do nosso Rogério e as pulsadas de seu coração aumentaram vorazmente com a adrenalina despejada em seu sangue. Depois disso, vieram as vertigens sucedidas pela perda da consciência. A memória de Rogério permaneceu íntegra e algum tempo depois, o pobre homem acordava de sua insólita viagem. Algumas horas se passaram até que ele se situasse. Pensou em regressar para sua casa, queria estar com sua família. Eles lhe pareciam tão distantes... Não conseguia entender porque se encontrava num estado tão acabado, maltrapilho. Mais parecia um mendigo. Mas, como !? Só tinha tomado um ônibus! Logo, a verdade o arrebata, sem piedade. Através de um jornal caído na rua, notou que estava em Goiânia, a muitos e muitos quilômetros de sua cidade. E o pior, a viagem não tinha terminado em alguns poucos minutos: os calendários marcavam o ano de 2099, exatamente onze a mais de quando tinha iniciado a viagem no incrível ônibus laranja.
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