Osíris Uma tosse infernal vitimava a equipe inteira e a escavação chegava ao limite insano do risco. As pedras desmoronavam e eram devoradas pela terra voraz; a poeira adormecida pelos séculos levantava-se e rumava diretamente para os pulmões dos pesquisadores, causando-lhes desespero. A aridez do Egito, a brisa morna do deserto e os rostos estafados deixavam a cena ainda mais dramática. E dentre muitos alemães, americanos e japoneses, um brasileiro se destacava, no território hostil. Sem dúvidas, o maior especialista em Arqueologia de um país que desprezava aquela ciência. Seu nome, Osíris. O nome de um Deus mitológico do antigo Egito. O Egito de um tempo mágico e épico que ele perseguia. O túmulo de um dos ministros de Ramsés II tinha sido encontrado pela expedição, após pesquisas, tropeços e tentativas em vão. Ao contrário das grandes pirâmides, o mausoléu do antigo nobre alojava-se nas entranhas da terra, e o grupo seguia com muita cautela. No caminho que conduzia ao subsolo, desabamentos rotineiros provinham das paredes judiadas pelo tempo e pelos saqueadores beduínos, interrompendo as buscas e esfriando os ânimos. Porém, os coveiros da História, persistentes, não economizaram esforços para romper a resistência que os impedia de explorar o local. Ali, muitos mistérios encontrariam uma resposta, e também muitos outros se suscitariam. A obsessão pelo desconhecido e a necessidade do homem de se conhecer melhor eram os motivos mais relevantes, que levavam aqueles homens e mulheres a uma aventura tão incomum. O obstinado Osíris era o personagem principal daquela jornada. Inspecionava todos os detalhes, e junto aos técnicos, supervisionava os trabalhos de segurança. Era sempre o líder da equipe e o primeiro a se embrenhar no túmulo. Mas, por trás da aparência forte e jovial, escondia as mais profundas mágoas, em seu peito. A tristeza e a falta de sentido na vida transformavam-lhe num ser ousado; mas o que sentia, na verdade, não era coragem ; era descaso por si mesmo. Acostumado com seu ímpeto desenfreado, Osíris não respeitava o perigo. As paredes do túmulo ainda não estavam seguras, mas a sua teimosia obrigou-o a descer pelos rudes túneis do mortuário. O silêncio sepulcral logo deu lugar aos rugidos da natureza e houve mais um desmoronamento. O silêncio regressou como mau presságio, mas Osíris, milagrosamente, não sofreu um arranhão sequer. Por sorte, as pedras não o atingiram. Elas apenas o haviam encurralado num dos salões do túmulo, fechando sua saída. O que parecia alívio, à primeira vista, transformou-se rapidamente em um desespero agonizante. Osíris estava preso, em meio a um calor de 52 graus centígrados. À sua companhia, apenas cadáveres de 4.000 anos e gatos mumificados. Um único e mísero raio de luz rompia as barragens e iluminava timidamente o salão. O odor fétido de corpos exalavam o cheiro podre da morte, causando enjôo contínuo. Osíris sabia, que seu fim era somente uma questão de tempo, e que seu corpo se solidarizaria às múmias egípcias em instantes. Quanto mais duraria ? Um minuto, uma hora, um dia ? A ousadia dava lugar ao choro e a consciência, à loucura. O ar, de tão ardente, não podia ser tragado pelos pulmões e o delírio começava a rodear a mente do professor. Como um filme, ele via todo o percurso de sua vida: cenas confusas, passagens da infância, a universidade, nada parecia possuir uma cronologia. A silhueta de sua amada Ana plasmava-se no cenário mortiço. Recordava-se de tê-la deixado chorando e ter partido. Via sua família. "Quanto tempo eu perdi longe deles ?". A memória lhe trazia fases de sua existência, que provinham de seu subconsciente. Os amigos, o parque, uma pizza, detalhes mínimos... À beira da morte ele se arrependia de tudo o que não havia feito. Ele poderia ter ido muito mais vezes ao parque, poderia ter passado mais tempo fazendo o que queria. A reflexão o condenava. Era um egípcio antigo no mundo moderno: esquecera-se de viver, deixando o melhor da vida para a posteridade. A figura de Ana lhe volta à cabeça. Ele não queria morrer sem lhe dar um beijo de despedida. A sua amada era, de fato, como a deusa Íris e chorava porque via seu Osíris morrendo aos pedaços. As múmias começavam a falar e, ironicamente, a morte plantava, com suas frígidas mãos, a semente da vida no íntimo de Osíris. Os olhos começavam a se cerrar e os últimos suspiros foram se diluindo lentamente em meio à solidão, até sua total extinção. .... Do lado de fora do túmulo, as equipes de salvamento, quebravam as últimas rochas, com suas brocas poderosas, e mãos providenciais conduziram Osíris, desfalecido, a cuidados médicos. Nem era preciso que Anubis, o deus chacal, pesasse o seu coração para que Osíris o sentisse mais leve que uma pluma. Sob a benção de Amon, recuperava-se e recebia uma segunda chance. Era julho. Época em que Ísis chora incessantemente por outro Osíris. A deusa inunda as margens do Rio Nilo com suas lágrimas fartas e doloridas, em busca de seu marido. Entretanto, o Osíris da nossa história já está salvo. No mesmo mês de julho, ele ajeita seus poucos pertences em uma mala despojada e parte para os braços de Ana, a sua deusa. E assim como Ísis, recomeça uma longa missão, em busca do tempo perdido de sua vida. ********************************************************************** Conta a antiga lenda egípcia que Osíris foi cruelmente atraiçoado pelo seu irmão Set. Cobiçando o trono de Osíris, Set tramou uma cilada atroz, embevecido pela sede de poder. Osíris foi preso em um baú de grossa espessura, vedado com chumbo derretido e morreu sufocado. Seu corpo foi atirado ao rio Nilo junto com o túmulo de madeira, e seu irmão se transformaria no rei do Egito. Mais tarde, Set concluiu seus desleais planos esquartejando o corpo de Osíris em catorze pedaços e arremessando-os em diferentes pontos do rio. Sabendo disso, Ísis inicia sua penosa travessia por todo o leito do Nilo, em busca dos restos mortais de seu marido. Enquanto, o faz, derrama lágrimas desalentadas, que de tão numerosas, engrossam as águas caudalosas e inundam as margens do extenso rio. Assim os egípcios antigos explicavam as cheias do Rio Nilo, que ocorrem todo os meses de julho, fertilizando as áreas alagadiças; criando novas vidas; servindo a muitas outras; agraciando ao velho Egito, inestimável dádiva do Nilo. Ísis conseguiu reconstituir o corpo de Osíris, que ressuscitou e, posteriormente, tornou-se o deus do reino dos mortos, por condescendência de Amon-Rá. |