Senhor de Engenho

Nem o calor forte e nem as brisas da Bahia faziam o fazendeiro Rodrigues tirar seu sobretudo, apesar das inúmeras gotas de suor que lhe vertiam pelo rosto. Aquela capa o deixava com um certo ar de nobre e poderoso. As vestes negras renderam-lhe o apelido de conde Drácula, mas talvez fosse uma ironia, porque não era somente no trajar que ele se assemelhava ao assassino da Transilvânia.

O coronel das fazendas canavieiras, que mais parecia ter saído das histórias de Jorge Amado, governava suas terras com mãos de aço. Muito moço, recebeu o comando das fazendas e desde aqueles tempos vêm transformando açúcar em dinheiro. Dinheiro roubado, em verdade.

Mas o que mais impressionava naquela região era sua total estagnação no tempo. Em 300 anos, não se via evolução. E todo o atraso não tinha perspectiva de nenhum tipo de mudança, justamente porque convinha à mediocridade de algumas mentes, dentre elas, a do nosso senhor de engenho.

Na lavoura trabalhavam muitos empregados. A maioria deles era formada por negros, filhos daqueles que um dia também já cuidaram de trazer fortuna para um e outro e que em troca só receberam o desconsolo e sofrimento. A imposição daquele ciclo perpétuo parecia estar longe de ter um final.

Sentado na cadeira de balanço, o coronel coçava a barba longa. Precisava pensar como ganhar mais; como explorar mais os pobres coitados... e investir na terra, se possível. O dinheiro era sua única verdade e era por ele deveria batalhar. Sem mover o olhar, Rodrigues solta um berro:

- Tião, venha cá!

O negro Tião era uma espécie de mucamo da casa e o braço direito do coronel. Ouvindo a rugido da fera, pôs-se a correr:

- Sinhô chamou? - perguntou esbaforido

- Chamei sim! Eu quero que você vá até a capela e me chame aquele padre dos diabos.

- Sim sinhô - obedeceu Tião

Em pouco mais de uma hora, o padre já estava dentro da fazenda de Rodrigues, para ver o que o homem queria:

- Bom dia, padre!

- Bom dia!

- Então você é o novo padre dessas paróquias aqui ?

- Sou sim. Já ouvi falarem muito a seu respeito.

- Cuidado com o que você ouve padre. Às vezes é preferível ser surdo.

- Não, não, o senhor não entendeu nada. O que eu quero dizer é que já sei que o senhor é a autoridade desses arraias e que o povo te respeita muito.

Rodrigues voltou a coçar a barba:

- Vou direto ao assunto. Hoje a tarde eu quero, quer dizer, eu gostaria que o senhor viesse dar um sermão para o povo daqui. Sabe, acredito que falta a essa gente um pouco mais de Deus. E também, a cidade fica longe, de modo que quase ninguém vai até a sua igreja. Faça esse favor para mim, eu já mando reunir o povo.

- Sermão...

O fazendeiro fitou-lhe com impaciência.

- Ah, claro, sermão! Aonde estou com a cabeça mesmo?!

Satisfeito com a submissão do clérigo, Rodrigues acrescentou:

- Mas tem um detalhe nessa conversa de sermão.

- Sim, qual é? - a curiosidade foi mais forte que o padre

- Bom, você sabe porque o outro padre não reza mais por aqui ?

- Ele foi assassinado. - concluiu

- E o que o senhor sabe disso? O homem fugiu daqui, se debandou. Você por um acaso achou o corpo dele para afirmar isso que acabou de dizer?

- Não, é que...

- Você é moço ainda, mas com o tempo aprende rápido. Gostei do seu jeito. Mas eu te dou um conselho: cuidado com o que você fala; às vezes é preferível ser mudo.

O padre olhou com medo

- Agora se vá, anda! E esteja aqui às três e meia da tarde.

Enquanto o homem saía, o fazendeiro interrompeu seu caminhar:

- Ah, e não se esqueça: eu odeio atrasos!

Às três e meia da tarde o povo estava todo reunido e o padre chegava. Rodrigues acompanhava tudo pela janela. Em alguns minutos, o sermão tinha início. Os óculos do padre, esfumaçavam-se à medida que sua voz aumentava de intensidade. E o sermão prosseguia.

O padre pregava que todos os homens tinham a vida que mereciam e tudo o que acontecia era por vontade de Deus, parte da Justiça divina. E todos que lá estavam assimilavam as palavras do padre, aceitando sem nenhuma contestação tudo o que lhes era dito.

Depois de acompanhar um pouco o sermão, o sinhozinho foi repousar. A sesta da tarde era sagrada. Adormeceu em sono profundo e sonhou.

Sonhou que andava por uma estrada de terra, e que de seus dois lados, nenhum indício de vida havia. Somente a terra fria e deserta. Padecia de fome e sede mas não se via nada para lhe saciar. Nem pessoas existiam nessa estrada, por onde passavam somente seres monstruosos, que zombavam dele e atormentavam-lhe, gritando aos céus a sua culpa.

- Assassino! Ladrão! - era impossível refletir ouvindo aquelas vozes.

Então, ele abaixou-se e levou as mãos à cabeça, berrando dos tormentos que estava exposto.

A fazenda ouviu um grito desesperado. Era Rodrigues que acordava de seu pesadelo, completamente exausto.

Algumas horas depois, o filho do fazendeiro chegava de Salvador. Arturzinho estava prestes a se formar como médico. Era o reflexo do próprio pai. Pudera: foi criado aprendendo a menosprezar as pessoas, a louvar o dinheiro e a ser arrogante. Não poderia ter saído diferente. Estranhando a ausência do pai, que jamais abandonava a fazenda, gritou:

- Tião, venha cá!

O negro Tião veio correndo. Não bastasse o pai, agora tinha que suportar o filho.

- Onde está meu pai? Ele nunca sai de casa!

- Xi, o sinhô nem sabe. No meio do sermão do padre que teve aqui, o homem acordou e escurraçou o pobre do coitado. Ocê precisava vê. Depois, disse para toda a nossa gente que aquilo era besteira, que Deus não havia de existir. Falou também de um homem que disse que a religião é o ópio do povo. É isso mesmo.

- Karl Marx !? É agora que o velho endoidou de vez!

- Como é que é?

- Deixa pra lá Tião, deixa pra lá.

No dia seguinte, o fazendeiro já tinha esquecido tudo aquilo. Sem maiores esclarecimentos, voltou para a fazenda e continuou a fazer tudo o que sempre fez. Ficou inerte na sala, sentado. A cruz de madeira deu uma leve mexida. Num pulo, o fazendeiro levantou-se de sua cadeira de guerra.

Agarrou o sobretudo e com ele, retirou a cruz de madeira da parede. Num movimento ágil, o senhor de engenho abriu a gaveta que continha seu revólver e guardou a cruz. Depois, trancou-a; vestiu o sobretudo e voltou a se sentar na velha cadeira.

- Eu sou ateu! - pensou alto.

Uma sede avassaladora tomou conta de Rodrigues. Não tardou muito, já estava a gritar pelo nome do criado negro novamente.

 


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