Sofia, a concertista

O alarido dentro daquela sala era ensurdecedor. Pessoas rindo, garçons passando com suas bandejas lotadas de comes e bebes, socialites fazendo as suas intrigas características. Trajes finos, muitos convidados, comida requintada, champanha importado da França, caviar... na opulenta mansão dos Neves tudo era motivo para festa.

O inepto Dr. Neves se deliciava em relatar ao convidados os motivos da comemoração. Com os negócios crescendo em progressão geométrica, ele se gabava do dinheiro que cada vez mais engordava a sua conta bancária na Suíça, demonstrando sua imensa fragilidade, num complexo de inferioridade infantil que, por vezes, tornava-se repulsivo. E os convidados batiam palmas, talvez esperando algum agrado do magnata. Mas todos estampavam na face o repúdio que sentiam por aquele ser intruso, o garoto pobre e sem nenhuma tradição, agora milionário .

E, no canto mais escuro daquele cômodo, em meio a tantos parasitas, um ser brilhava. Era Sofia, a concertista . Suas mãos dedilhavam habilmente as teclas do lindo piano de calda inglês e passavam para o teclado tudo o que havia em seu puro coração. Mas era uma estrela solitária. E por mais que brilhasse, nenhum dos convidados enxergava sua luz, a luz que vinha do seu interior.

Em meio ao burburinho, Sofia tocava músicas de Beethoven e passava, fielmente, todo o sentimento e rebeldia de seu criador. Mas o som morria em meio ao descaso. E ela continuava tocando. Agora, o Noturno de Chopin, com primazia e tanto sentimentalismo que podiam-se ver as lágrimas escorrendo de seus olhos. Mas ninguém ali compreendia, não havia naquela festa um único mortal que desse atenção à voz que fala mais alto: a voz do coração. E a frágil e anêmica Sofia continuava tocando, desvairadamente, noite adentro. E sua luz só refletia em si mesma.

Todas as pessoas que ali estavam mantinham-se ocupadas demais, porque era muito importante notar as falhas do vestido da filha do Dr. Neves, para posteriores comentários maldosos, ou talvez notar nos candelabros de prata que se destacavam na sala, ou ainda era mais importante que eles enchessem suas barrigas e bebessem até explodir.

Mas nada disso afetava Sofia. Algo de mágico parecia envolvê-la, como uma aura poderosa e inviolável que só protegia a concertista e seu piano. E ela tocava, dando cadência à música com seus dedos ágeis e descarnados. Nada mais a importava. Sofia era a única naquela sala a enxergar a verdadeira beleza da vida, sim, mas era realmente feliz. E enquanto isso, os convidados continuavam bebendo e envenenando-se com as intrigas e sua imensa futilidade.

 


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