Tio Ho

O velho homem punha-se a andar. Pelas estreitas vielas, logo alcançaria a praça. As sandálias de borracha arrancavam gemidos do asfalto, quebrando um pouco a morbidez da cidade semi-deserta. Um grande compromisso o esperava.

Os solitários bancos de cimento começavam a ser povoados por pequenas criaturas que esperavam rever mais uma vez a barbicha longa e esbranquiçada de um senhor de idade que mantinha-se, intrigantemente, jovem.

Muitos dos que ali estavam, buscavam um pequeno momento de felicidade em tantos de sofrimento, um feixe de luz em meio à escuridão. E todos os dias, religiosamente, as crianças do bairro se juntavam às seis horas da tarde, na praça, para lá, ouvir as poesias e contos que Tio Ho lia.

Tio Ho, carinhosamente conhecido, era um homem de grande sabedoria. Viajou pelo mundo, conheceu inúmeros povos, aprendeu vários idiomas. E com sua vasta cultura, decidiu realmente aproveitar o que ainda lhe restava de vida passando o que sabia para os mais novos. Seu conhecimento era tão intenso quanto era o seu amor.

De um jeito simples e inigualável, ele cativava qualquer pessoa, de qualquer idade. Com seus textos, ele mostrava, em um mundo dominado pelo dinheiro, que a verdadeira felicidade só é atingida no coração. E a cada dia mais, as crianças sentiam, através da literatura, seus sentimentos reprimidos despertarem e suas vidas fluírem com leveza.

Aquilo as fazia os seres mais felizes do universo. Não havia nada que proporcionasse alegria maior que aqueles instantes maravilhosos, feitos essencialmente, de poesia e humanismo. Mas um dia, a alegria deu lugar à amargura. Tio Ho partira, fora embora brandamente, como brando era ele na vida. Agora, propagaria a poesia em outros campos. As crianças lamentaram e derramaram suas lágrimas num ressentimento cruel, como quem perde um membro da família. Tio Ho nunca morreria nas suas vidas; o seu sorriso amigo, a sua barbicha longa e sua voz rouca viveriam pela eternidade.

No dia seguinte à morte do Tio Ho, todos, fantasticamente, dirigiram-se para praça, no mesmo horário de sempre. A cidade continuava deserta. As crianças, apáticas, observavam o conhecido local esperançosas, mas sabiam que Tio Ho jamais retornaria.

Foi quanto um vento forte bateu, arrancando folhas dos arvoredos antigos. Um perfume de rosas de veemente odor podia ser sentido no ar e o banco da praça era sobrevoado por borboletas de incrível beleza, e colibris, que cantavam formosamente.

Sobre banco existia um livro. Os meninos entreolharam-se, num surto de indecisão. Em alguns segundos, o mais velho deles mobilizou-se, cautelosamente, aproximando-se do banco. Ainda receoso, abriu o livro em uma página aleatória, e o que seus olhos intrépidos puderam vislumbrar foi um primoroso poema, como aqueles que só Tio Ho sabia narrar. Venturoso com aquele presente, começou a recitar a poesia em alta voz.

As crianças, logo interpretaram a suave mensagem e começaram a contemplar aquele momento, que em tempo algum se repetiria. Elas sabiam que daquele jeito, Tio Ho falava; e seu recado era que sempre os amaria.

Em sua mentes, a lição aprendida, em seus peitos, uma nova dimensão atingida e, em algum lugar, Tio Ho abria, mais uma vez, seu pródigo e afável sorriso.


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