O Julgamento


MESA – O salão do fórum estava repleto, todos aguardavam o julgamento de Gutenberg pela junta eclesiástica. Os membros do Conselho que faziam parte do corpo de jurados iam chegando e tomando lugar nas cadeiras em volta de uma mesa comprida, coberta com uma toalha branca de linho que, devido ao seu tamanho, encobria os belíssimos pés torneados da mesa de peroba.

Uma das cadeiras ainda não estava ocupada. Daí a pouco entrou no Tribunal um homem alto, segurando um livro de capa preta, cuja cor não deixava ninguém confundir pela brancura da vestimenta usada pelo muçulmano.

Um dos jurados deu início à audiência de julgamento da ação que Johann Fust movia contra Johannes Gutenberg.  O sócio queria receber a importância combinada no contrato, no valor de trezentos guildes e a dissolução da sociedade.

ASSISTENTES – Elas ouviram as autoridades competentes do ato, depois discutiram:

CHINESA – O defensor afirmou que Gutenberg havia sido o inventor da imprensa. Os jurados retrucaram:

Não, Gutenberg não é o inventor porque lá na China já existe imprensa há muitos anos.

LEÃO COM CABEÇA E ASA DE ÁGUIA  -  O Defensor falou publicamente:

No momento, é difícil poder provar que Gutenberg foi o primeiro tipógrafo: ele registrou seu invento numa cidade da França, foi registrado nos livros de uma Companhia de Inventos na cidade de Strasbourg. A proposição baseada no invento, eu digo o seguinte: - Deus é um só, mas antigamente poucas pessoas acreditavam que só existia ele, já que na mitologia grega foram criados muitos Deuses, mas igual ao nosso Pai Eterno, nenhum -  Ele é o único, portanto, na China já existe a imprensa, acredito que não seja igual ao sistema de Gutenberg.

LEÃO – Foi dada a palavra ao acusado:

Muito obrigado, Meritíssimo Senhor Juiz de Direito, de ter-me concedido essa oportunidade.

Em voz alta, Gutenberg continuou a falar:

CAUTÉRIOVou cicatrizar o meu coração, pois há tempos que eu estava impossibilitado de falar a respeito do meu invento. “As xilografias que foram gravadas na madeira por mim com essa ferramenta, dou prova que as palavras pronunciadas pelo Senhor Promotor são verdadeiras”. - Vejam os calos dos meus dedos. Vinha fazendo as peças sigilosamente. Procurava melhorar os recursos para dar maior produção à indústria tipográfica. Aqui na Terra ainda não recebi prêmio, mas no céu um Beneditino abençoou-me. - No momento em que aconteceram os festejos da comemoração da minha sociedade com Johann Fust, eu disse uma frase da Bíblia Sagrada: “Deus muitas vezes revela aos humildes aquilo que esconde dos sábios”. - Se eu for condenado, ficarei conformado porque o importante eu já fiz. Editei a palavra de Deus pela primeira vez no mundo. Só me sinto bem quando estou sentado num banco rústico da igreja, principalmente nos dias da Semana Santa.

Gutenberg terminou de falar, sentou-se novamente e colocou as peças que havia levado dentro do bolso.

O GRANDE LIVRO – A Escritura Sagrada: A Bíblia compreende duas partes: O Antigo e o Novo Testamento, escrito, em geral, em hebraico e abrange três grupos de livros (Pentateuco, Profetas, Hagiógrafos). O Novo Testamento compreende os quatro Evangelhos e foi traduzido por 72 sábios Hebreus. Esta tradução é conhecida por “Versão dos Setenta”. No Século IV, a Bíblia já estava traduzida em latim da Versão dos Setenta, foi revista por S. Jerônimo. A única admitida pela Igreja é chamada “Vulgata”.  Na Biblioteca Nacional de Lisboa, há uma bíblia do século XII e XIII e ali existe também uma Bíblia hebraica com iluminuras em estilo moçárabe que é uma preciosidade.

FAMÍLIA IMPERIAL – O Imperador Frederico III, desde 1440, já havia sido eleito e preparou o esplendor da casa imperial. Com o falecimento do irmão que era imperador, adotou o sobrinho, herdeiro da Germânia e continuou sendo Rei até o ano de 1493.

CRIANÇA -  A criança adotada por Frederico III, chamava-se Maximiliano, mais tarde casou-se com uma Imperatriz de Borgonha, filha de Carlos Temerário.

Em 1493, faleceu Frederico III e Maximiliano subiu ao trono da Germânia.

RAINHA – Estava na camarinha, quando entrou no quarto o Rei. Ela ficava sentada numa cadeira muito bem trabalhada, bordada a ouro, enquanto Frederico lhe contava sobre as ocorrências que se sucediam na Corte. O filho adotivo era criança e brincava deitado dentro do bercinho dourado.

O Rei conversava com a rainha, ajoelhado aos seus pés, quando queria falar de certos segredos da corte. Antigamente, um fio de cabelo da pessoa era como se fosse um documento.  Frederico reparou:

Majestade, no nosso segundo filho até hoje não nasceu nem um fio de cabelo. Será que ele vai ficar calvo?

A Imperatriz não respondeu nada a respeito do filho porque o Rei, logo em seguida, disse:

Alteza, Gutenberg, o alemão, inventou uma máquina de imprimir e fundiu fontes de tipos para dar maior produção à arte de impressão. Ouvi dizer que até já imprimiu 200 exemplares da famosa Bíblia, escrita em latim.

A RAINHA – Depois de ouvir as informações do Rei, perguntou:

Majestade! Um oficial da corte comentou aqui que Gutenberg ia ser julgado, hoje, por uma junta de Conselheiros, porque não cumpriu dentro do prazo previsto o pagamento de trezentos “guildes” ao sócio. Sua Alteza já sabe qual foi o veredicto do Juiz? Quem será o julgador?


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