Meus Pais e a minha Mediunidade


Meu Pai

Lembro-me dele. Chamava-se Joaquim Pereira de Andrade. No tempo em que era vivo de corpo, gostava de trabalhar. Ele era marceneiro, carpinteiro, músico e militar do 3º Batalhão da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Com seu trabalho, construiu, na área de entrada do quartel em Diamantina (que até hoje existe), uma obra de arte com a colaboração de mais dois colegas: Sargentos Porto e Athaidinho.  Trata-se de um grande cruzeiro, feito de madeira especial. Nele há todas as peças relacionadas com a Paixão e Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele possuía uma habilidade tão grande que nas horas vagas, a pedidos das famílias, confeccionava caixão funerário. Naquela época não havia as Funerárias como existem hoje.

Eu tinha oito anos de idade, era uma criança de pouco físico e estatura, tanto que na escola tinha o apelido de Pingo do “I”, sendo a terceira dos seis irmãos. Era muito querida por meu pai e gostava de ajudá-lo, principalmente quando ele me dizia:

Zenita, hoje tenho uma encomenda, venha ajudar-me. Faleceu esta noite um grande amigo meu e já comprei o material para fazer o caixão. Traga aqui o martelo, o serrote, a tesoura, pregos, metro e taxas douradas.

Ele colocava duas cadeiras distantes uma da outra e começava a serrar de acordo com a medida do defunto. Depois pegava os metros de fazenda roxa misturada com dourado, mandava que eu esticasse o pano e, em poucas horas, o trabalho estava encerrado. Eu ainda não tinha noção das coisas, mas as cores roxa, dourado e lilás ficaram gravadas em minha mente.

No ano de 1930, estourou a revolução. Na Paraíba, mataram João Pessoa. Eu vi meu pai vestir a farda apressadamente e sair de casa em direção ao Quartel, pois a corneta tocava insistentemente o toque de recolher. Daí a pouco o batalhão passou pelas ruas da cidade, marchando e cantando hinos patrióticos. Seguiu a estrada em direção a Belo Horizonte.

Foram dois anos de luta, até que certo dia tivemos a satisfação de receber um comunicado de que dentro de poucos dias, o Batalhão retornaria à sua sede.

De 1934 a 1935, houve a revolução anticomunista no Brasil. Papai, homem corajoso e patriota, enfrentou os campos de batalha, juntamente com o seu filho Athaide Pereira Andrade. No dia 10 de Junho de 1936, papai veio visitar a família, pois ele estava trabalhando num acampamento situado na beira de uma estrada de rodagem, cuja construção estava sendo feita pelos militares do 3º Batalhão.

Depois de um ano, a estrada já estava chegando ao ponto final, e de quinze em quinze dias papai tinha permissão para ir a Diamantina, onde estava residindo a família e, num certo dia, disse à minha mãe:

-  Clotildes, vou pedir ao Comandante para não voltar, pois a vida lá na estrada não é fácil. Sinto-me cansado! Mamãe escutou a exclamação e falou:

-  Pereira, você me disse que a estrada está quase pronta. É pena, depois de todos os seus esforços para ver a estrada terminada, já que o capitão Ranufo prometeu mais uma divisa para você: e, além disto, uma das pontes que você ajudou  a construir terá o seu nome. Peça ao comandante uns dias de licença. Tenho certeza  que ele não vai lhe negar.

Papai escutou os conselhos de mamãe e respondeu:

-  Mas, Clotildes, nesta vinda não vai dar tempo de fazer o pedido, pois tenho que viajar amanhã e hoje é sábado.

Eu tinha 13 anos quando, no Domingo 13 de junho de 1936, seguiu para o acampamento um grupo de soldados. O tempo estava chuvoso e o caminhão rodava pela estrada deserta. Eram quatro horas da madrugada, o veículo, quando alcançou o Morro do Paiol, perdeu a direção, bateu contra o barranco e tombou. Papai estava sentado justamente do lado em que o caminhão virou e acabou perdendo a vida. De trinta soldados, só ele foi vítima. Quando o dia clareou, com a lona do próprio veículo, os colegas fizeram uma rede e levaram o corpo para a cidade de Serro, a qual era também o torrão natal de minha mãe.

 

Minha Mãe

Em 1967, faleceu Clotildes Pereira de Andrade, minha mãe, mulher muito religiosa. Nas noites de Natal, enquanto muitos estavam comendo e bebendo para festejar o Natal, mamãe rezava duas mil Ave-Marias.

Eu assisti a todos os sofrimentos que ela teve para fazer a passagem. Não sei se era devido ao cansaço de lutar com ela nos últimos dias de vida ou se foi por causa dos sofrimentos pelos quais passou, fiquei descrente e disse para minhas duas irmãs Terezinha e Zelita:

-  Sabem de uma coisa, já não estou acreditando em mais nada sobre a vida espiritual. Só acredito em Deus. Se existir espírito, eu quero ter uma prova.

Naquele dia, minha mãe foi sepultada em Diamantina, uma pequena cidade do interior. Quando faltavam 25 dias para o Natal e pela primeira vez naquele ano, na hora do acontecimento, o rádio tocava a música “Noite Feliz” e o relógio marcava meio dia. Para mim não foi um dia feliz, mas para ela acredito que sim. Só depois de algum tempo é que compreendi que aquela música havia sido como o hino de despedida de minha genitora.

 

O Primeiro contato Espiritual

Os anos foram passando e eu só acreditava em Deus. Vim para o Rio de Janeiro,  casei minha filha na Igreja de Santa Terezinha, localizada no bairro da Tijuca. Depois disso, passei a morar sozinha num apartamento no bairro da Glória. Meu esposo residia em Minas Gerais, vivia com outra Mulher. Na vida, sempre senti dificuldade para a manutenção do meu lar. Porém, conformada com as situações difíceis.

O dia 26 de abril de 1968 jamais será esquecido por mim. Neste dia eu me sentia cansada, talvez pela profissão de impressor, tive vontade em variar de trabalho. Acordei às seis horas da manhã com esse pensamento:

-  Meu Deus, o que devo fazer para mudar de serviço? - Sou impressora e estou fatigada de ter que fazer composição, impressão e cortar papel há tantos anos.

Com as mãos na cabeça, segui até à pia do banheiro e, ao abrir a torneira, senti como se um vulto tivesse saltado para o meu lado direito. Enquanto molhava o meu rosto, no ouvido do mesmo lado, sopravam palavras e assim dialoguei:

-  Escrever. Escrever. Escrever. – Repetiu a voz!

-  Escrever...? -  Perguntei: - Escrever o quê? Só sei o curso primário! Meu Deus!

-  Escrever o que você pensa, o que você vê e o que você faz.

Imediatamente apanhei o papel e o lápis e comecei a escrever rapidamente, descobrindo assim que a partir daquele dia eu poderia escrever através das forças espirituais.

Naquele momento, lembrei-me de quando tinha treze anos e terminei o curso primário, quis continuar os estudos, mas não tive oportunidade porque perdi o meu pai justamente naquele ano. Entrei para uma tipografia como aprendiz numa oficina de um jornal pertencente à Diocese de Diamantina e...

Tornei a ouvir aquela voz, que determinou:

-  De hoje em diante você só vai escrever e mostrar ao mundo a sua capacidade.

Daquele dia em diante passei a escrever, conforme a determinação.

 

A Repentina Vocação

Minha família estava achando aquilo muito estranho porque eu nem carta gostava de escrever. Marlene, minha filha, chegou ao ponto de consultar um médico a meu respeito e lhe perguntar:

-  Doutor, será que minha mãe está doente? Ela agora pegou a mania de escrever!

O Doutor perguntou:

-  Qual é o assunto que ela escreve? As frases têm sentido? A caligrafia é bem feita?

Marlene respondeu que tudo estava certo, mas achava aquilo esquisito e concluiu:

-  Até verso mamãe faz e nunca aprendeu nada disso. Ela trabalhou dia e noite para que eu tivesse o título de professora e quem sabe ela não está esgotada?

O Médico, com um sorriso nos lábios, afirmou:

-  Marlene, não fique preocupada, deixe sua mãe escrever à vontade. Isto havia de acontecer um dia e só agora apareceu esta espontaneidade dentro dela. Zenita não está sofrendo de nenhum mal.

Minha Filha, para tranqüilizar-se, perguntou novamente:

-  Doutor, posso ficar despreocupada com a saúde da minha mãe?...

E ele confirmou:

-  Pode sim, Marlene. Digo isso e tenho certeza.

Ela, em seguida, agradeceu:

-  Até logo, Doutor Zagurí, aceite os meus agradecimentos.

Aquele Médico não era Católico, Protestante e nem Espírita. Também não era Brasileiro e sim Judeu. Na medicina, ele era um dos mais conceituados no campo em que atuava. Na religião, ainda esperava a vinda do Messias.


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