A Noiva Inesperada


PEIXES
– Ennelin era uma senhorita formosa, vestia-se muito bem. Os tons das cores dos seus vestidos combinavam perfeitamente com a cor ruiva dos seus cabelos penteados, fofos, ondulados, e bem altos. A forma do seu corpo completava e tornava ainda mais bonito o modelo.

Ela sabia adquirir com facilidade, através da brandura de sua voz, tudo o que  pretendia.   Certa vez, foi a Paris fazer compras nas botiques e viu numa das casas comerciais um impresso com os seguintes dizeres:

“Gutenberg inventou os tipos e vai editar a palavra de Deus”.

Circulava notícias na capital da França a respeito do invento de Gutenberg. As mocinhas queriam saber coisas da vida do inventor, principalmente  Ennelin, filha de uma alemão, residente em Strasbourg. Ela já não era muito jovem e estava ansiosa para se casar.  A propaganda impressionou aquela moça que, quando chegou em casa, dirigiu a palavra ao pai:

Papai! O senhor sabe algo sobre a vida de Gutenberg? - O senhor é patrício dele, deve saber alguma coisa para contar-me: - Quantos anos ele tem de idade? Aposto que ele é casado!...

O Pai, depois de ouvir o interrogatório da filha, enrolando as pontas do bigode, respondeu:

Minha filha, Gutenberg é solteiro, já tem uns trinta anos aproximadamente, é simpático e tem boa altura. Rapaz educado e de família distinta. Há tempos aconteceram conflitos políticos em Mogúncia, aliás em quase toda a Europa, conforme você sabe. Ele ficou envolvido, foi repatriado, mas até a presente data não ficou nada comprovado a respeito da sua conduta. Por isso, foi engajado novamente como oficial de cavalaria. - Ennelin, é como diz o ditado: “A verdade sempre aparece”.

A filha, depois de ter escutado as informações do pai, traçou um plano para se casar com o inventor.

Vou aplicar o golpe: Entrarei na justiça com um processo alegando que Gutenberg me enganou com promessa de casamento. Militar não pode ser mau disciplinado, mesmo fora do quartel. Tenho certeza de que tudo vai sair conforme o meu desejo e meu casamento com Gutenberg será realizado muito breve.

O cérebro da jovem funcionava sem parar, pensando como haveria de proceder para concretizar o seu sonho.

Vou pegar o peixe de qualquer maneira!

Conforme planejado, fez o requerimento e deu entrada na Justiça. Dias depois, o oficial de justiça entregava na mansão de Gutenberg uma citação. Ao recebê-la, Gutenberg exclamou surpreso:

Meu Deus! Mais uma, desta vez o que será?

Tomou conhecimento, assinou e em seguida começou a ler. Imediatamente chamou o empregado da casa:

Lorenz! Será que eu ando fazendo coisas inconsciente? Nunca bebo para ficar embriagado! Leia esta intimação.

Lorenz leu e arregalou os olhos.

Você conhece essa moça, Lorenz?

Conheço sim, patrão. Ela já veio aqui na casa do senhor. Mas o senhor não estava presente naquele momento.

Francamente, não conheço a suplicante! Deve ser alguma astuciosa. - Lorenz, Ennelin é assim do tipo de Annet? Meiga, gentil, inteligente e bonita?

Johannes Gutenberg, se for essa que veio aqui em casa, ela é bem bonita!

Se eu gostar dela, quem sabe se vou acabar me casando com Ennelin! - Vou esperar o dia da audiência. Mas se ela voltar a esta casa, diga-lhe o seguinte: “Gutenberg quer falar com você com urgência!”

O rapaz custou a suportar a curiosidade de falar com Ennelin até chegar o dia marcado da audiência. Chegando o dia, muito antes da hora marcada, Gutenberg já estava lá sentado, observando a fisionomia de cada um dos que ali entravam. Uma moça do tipo francês, elegante e atraente, chegou e caminhou para a sala onde encontrava-se o juiz e os seus auxiliares. Estava acompanhada. Ele, sentindo seu coração bater mais forte, afirmou:

Será que é esta a minha candidata?

Ennelin fingiu não escutar. Não deu tempo para fazer perguntas, entrou direto na sala do juiz, pois já se passavam alguns minutos da hora marcada.

Na sala onde estava o notificado, estucou-se uma voz:

Está presente o senhor Johannes Gensfleisch Gutenberg?

Ele respondeu que sim.

Queira entrar, por favor, na sala ao lado esquerdo.

Gutenberg, quando penetrou no recinto, ficou patético de ver a beleza da jovem ali sentada ao lado das autoridades competentes do ato.

O rapaz custou a se controlar, emocionado. O Juiz fez certos interrogatórios à moça e depois perguntou:

Gutenberg, a moça gosta de você e quer se casar. E você não vai decidir?

Com voz trêmula o rapaz respondeu:

Claro que sim, muitíssimo senhor Juiz.

O Juiz então disse:

Vocês podem marcar o dia do casamento o mais depressa possível.

O pai da moça escolheu o dia do casamento e o Juiz deu por encerrada a audiência. Gutenberg só voltou a falar com a noiva no dia do casamento.


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