Os locais, os fatos, assim como todos os Personagens envolvidos são fictícios,
sendo a semelhança com o mundo real, obra do acaso.
Maio 1998


 Norte Fluminense – 1976

O Vale

 

A julgar por seus contáveis habitantes, Vale do Verde parecia um desses esquecidos lugarejos, principalmente em relação ao anunciado progresso que continuava sendo, para a pequena população, coisa de um futuro bem distante. Talvez, por isto, o local mantinha suas características originais. O verde predominava absoluto e sem muito esforço encontravam-se ali as mais belas espécies de flores, inclusive algumas consideradas raras. Sua incomparável paisagem paradisíaca o transformava, certamente, no último recanto natural da região. As inúmeras aves que em bandos adornavam o fascinante céu, eram para muitos a perfeita orientação sobre as condições meteorológicas, enquanto para outros, apenas prelúdio da única algazarra existente num cenário capaz de invejar o mais lindo cartão postal.

Embora a energia elétrica já estivesse em expansão, poucos a tinham em suas residências; mesmo assim, com total naturalidade viviam seu dia-a-dia sem o conhecimento da praticidade das importantíssimas conquistas do homem moderno, tão comuns nas cidades principais. O fogão era a lenha e o lampião tinha seu destaque no interior das modestas casas, principalmente ao findar a tarde, onde a negritude da noite era realmente singular.

A água canalizada era um privilégio ainda não desfrutado por aquela esquecida população e o abastecimento do Vale do Verde provinha de diversas minas existentes, todas apresentando excelente qualidade em sua água, sendo a mais famosa conhecida como "A Mina do Lago".

A maioria da população trabalhava em cidades vizinhas e os poucos que se aventuravam por uma oportunidade local, constituíam uma reduzida mão-de-obra utilizada por Fazendeiros que se deleitavam em contemplar com grande vaidade a aguerrida disputa diante das escassas oportunidades de trabalho oferecidas.

O Comércio, praticamente inexistente, se restringia às conhecidas tendinhas, onde se encontravam desde querosene para os lampiões aos remédios para automedicação, amplamente anunciados pelo maior, ou melhor, pelo único veículo de comunicação da região, o Rádio.

A Política começava a engatinhar-se pelo Vale. Periodicamente, comissões formadas por Políticos, Fazendeiros, Jornalistas e outros, principalmente muito "outros", circulavam pela região, fazendo observações entre si. Anotavam, apontavam em várias direções, gesticulavam muito e pareciam ver coisas naquele ermo lugar que somente eles mesmos seriam capazes de enxergar.

Tratada com certa distância, a população via com desconfiança o desfilar daqueles homens que olhavam, olhavam e às vezes se intrometiam em suas vidas, fazendo-lhes perguntas pessoais, às quais, receosos, respondiam com a maior brevidade possível, certamente por não terem neles a necessária confiança e muito menos uma clara idéia dos seus reais objetivos.

 


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