Yarlen e seus Amigos
Ali mesmo parada, ela passou a dividir suas observações entre a suprema tranqüilidade do Lago e parte da beleza do próprio recanto com a característica movimentação festiva dos pássaros, com quem também muito se identificava. Numa dessas observações, ao olhar mais adiante, percebeu numa velha casa um Menino que também a olhara, desviando a seguir rapidamente seus olhos e, sem lhe dar a mínima importância, deu prosseguimento à sua solitária brincadeira. Sentida, Isa pensou:"Menino estranho...parece fugir do meu olhar..."
Dada a desafios, encheu suas bochechas e decidiu ir em direção ao Menino. Seguiu o primeiro atalho e ao aproximar-se da velha casa, sem que ele percebesse sua presença, esquadrinhou todo o local, achando-o muito esquisito, notando também que o Menino parecia ter sua idade, moreno, magro e sem camisa, suava, deslocando-se de um lado para outro, no pequeno espaço entre um velho tronco de árvore, uma cadeira quebrada, um saco cheio de gravetos, uma velha porta empenada e outros utensílios. Com absoluta naturalidade, chutava sua surrada bola de meia na direção dos inanimados objetos que ao tocá-los, retornava em sua direção, enquanto ele gritava:
- Isso...agora para mim.... vai Tronco...assim...
Pareceu receber a bola à frente e preparava para completar seu chute diante do improvisado gol, formado por duas metades de tijolos e diante do gol vazio gritou:
- Vou fazer...!
Quando o gol parecia inevitável, ouviu por trás uma voz:
- Ei Menino..., chuta logo!
Arrepiado pelo susto, o Menino perdeu o gol mais feito de sua vida e assustado virou-se para o velho tronco e, com a voz meio trêmula e em clima de pavor, perguntou:
- Você ....falou...???
Preparava-se para dar o maior pique de sua existência em direção ao interior da casa quando novamente a voz responsável pela perda do seu gol, afirmou:
- Ei...seu bobo, fui eu que falei...!
Virando-se, o Menino viu de perto a ousada Menina pendurada no seu portão. Indignado com a repentina intromissão, franziu a testa e em tom de desaprovação, disse:
- Quem é você ?
- Eu sou Isa... E você...?
- Yarlen. - Respondeu de forma nada amistosa.
- Yarlen Repetiu a Menina procurando assimilar. Porque fala sozinho...?
- Não falo sozinho...falo com os meus amigos... Rebateu, ainda com o ar de aborrecido.
A Menina deu uma gostosa gargalhada enquanto pensava: "Menino estranho... vê o que não existe".
Ainda mais indignado pela incompreensível gargalhada, Yarlen perguntou:
- De quê está rindo...?
- Nada... Eu só estava pensando.... Quem são os seus amigos...? - Com naturalidade, mas não muito satisfeito, ele começou sua forçada apresentação:
- Aquele é Cansado... - Apontando para uma meia cadeira escorada na parede com apenas dois pés. Aquele lá é o Bolão, indicando um enorme saco cheio de gravetos que além de jogador, acumulava a função de ser responsável pelo abastecimento do velho fogão à lenha. - E aquele ali... Orgulhoso, apontou para um velho tronco de madeira e continuou: - É o Tronco, meu favorito - disse diminuindo o tom da voz, como se não quisesse com sua afirmação magoar os demais.
A Menina, não se contendo, deu outra deliciosa risada e pensou: "Menino estranho, cria coisas do... nada!
- De que você está rindo agora...? Questionou, ainda mais indignado.
- Nada... achei gozados os seus... amigos.
Observando o lindo sorriso da pequena Isa, o Menino pensou consigo mesmo: "Menina estranha... para ela tudo é muito engraçado"
Acompanhando o tom de voz do Menino, Isa, olhando cabisbaixa para o velho tronco, perguntou-lhe baixinho:
- Por que ele é o seu favorito?
- Porque depois de mim ele é o maior artilheiro.
- Artilheiro?... O que é um artilheiro? Quis saber.
- É aquele que faz muitos gols! explicou.
- Artilheiro é o que faz muitos gols Repetiu para si, gravando a informação.
- Preciso continuar o jogo! Disse tentando se livrar da Menina e encerrar aquele assunto.
- Não quer brincar lá fora?
- O que a gente poderia fazer?
- Podemos ir ao Lago! afirmou com ênfase.
- Lago...que... Lago? Indagou.
- Aquele lá! Apontou Isa, demonstrando não ter gostado da incompreensão do Menino.
- Que graça tem olhar para um buraco com água, rodeado de plantas e pássaros? Desaprovou o Menino.
- Não é um buraco, é um Lago! E ele é meu amigo e eu cuido dele! Rebateu, indignada com o fato do Menino não saber distinguir um buraco de um Lago.
Yarlen não se conteve e riu. A menina encheu suas bochechas rosadas como fazia quando desafiada e perguntou:
- E você... do que ri...?
Ele, como se abraçando seu amigo Tronco em meios aos risos, afirmou:
- ...Você também tem amigos gozados...
A afirmação do menino a fez também sorrir, afinal, talvez não fosse tão diferente em relação ao Menino e ambos riram muito!
Após a longa sessão de gostosas gargalhadas, estavam mais cordatos e ela com seu incrível poder de persuasão, conduziu seu novo amiguinho à sua parada obrigatória, o Lago!
Sentaram-se na beira do Lago e a curiosa Menina passou a fazer-lhe uma série de perguntas, que o pequeno Yarlen, fitando o seu lindo rosto, ia respondendo automaticamente. Frenética, pôs-se de pé e desta vez, começou a fazer sua apresentação.
- Todo dia eu cuido deste Lago...! ...Tiro as folhas mortas, removo os galhos das árvores que caem nele e abro com as minhas mãos caminho para que a água o envolva todo....
Yarlen não pode deixar de fazer sua observação mental:
"Menina estranha....se preocupa com coisas simples..."
De súbito, de uma frondosa árvore lateral, uma manga madura, não suportando o peso dos pardais que diariamente a consumiam, despencou para dentro do lago, exatamente no momento em que a Menina eufórica discursava. A queda provocou um oportuno banho na dupla que, passado o susto, riu muito do acontecido. Yarlen, olhando para o lago, viu pela primeira vez uma imagem que o marcaria para sempre....o lindo rosto da pequena Isa, expressando seu envolvente sorriso, reluzente sobre a água tranqüila e cristalina do velho Lago. Nos minutos seguintes, ouviu todo o relato da pequena Isa, hipnotizado pela inesquecível imagem.
No fim daquela tarde cada um seguiu seu caminho. Yarlen, ainda do seu portão, viu quando a Menina do alto da colina estendeu sua pequenina mão, acenando-lhe e, embora a longa distância o impedisse de ver, imaginou seu sorriso como visto sobre as águas do Lago.