A Mãe Raiz


No terceiro dia, a Menina chegou pela manhã à velha casa do Menino que, desta vez sem mesmo dar uma justificativa aos seus inanimados amigos, acompanhou sua nova Amiguinha que logo lhe informou que o levaria a conhecer o outro lado do bosque. Entusiasmado, Yarlen seguia seus passos por uma pequena trilha entre os matagais, por onde cuidadosamente caminhavam devido às irregularidades do solo. Penetraram num recanto do bosque onde diversas árvores pareciam viver numa eterna conferência.

A primeira visão coroou todas as dificuldades que tiveram para chegar até aquele local. Uma linda imagem provocada pelo reflexo do sol era vista como se brotando das longínquas árvores, criando um fascinante efeito semelhante ao de uma cortina que iluminava uma grande extensão, o que contrastava com os locais mais afastados e semi-escuros . Isa, que em outras ocasiões já tivera a oportunidade de contemplar aquela dádiva do sol, fazia questão de apresentar com minúcias cada particularidade da inusitada beleza ao amiguinho, ora colocando sua mão dentro do reflexo do sol, ora mergulhando nele o próprio rosto, exibindo-o reluzente e risonho ao amigo que, fascinado, a tudo assistia. Ao término da demonstração, Yarlen observou, à esquerda, uma árvore com uma forte tonalidade cinza e que parecia pelo seu posicionamento conversar com outras três situadas ao seu lado, tendo à frente outra ainda maior e com um número de galhos enormes, raízes que ultrapassavam os limites da terra, irmanando-se as demais pela união de suas raízes.

Elas pareciam se abraçar. Isa, praticamente identificada com o ambiente, falou que gostava de tocar, abraçar e conversar com aquelas árvores e que elas pareciam escutá-la. Yarlen ouvia assombrado toda aquela demonstração de espontaneidade da Amiga que diante da árvore maior se aproximou, colocou suas mãozinhas sobre o seu tronco e a beijou como se beijasse alguém; depois, como se reverenciando-a, permaneceu alguns minutos em total silêncio observando suas raízes que, por sua incrível força, rebentara o próprio solo, prosseguindo com o seu olhar até o último galho, quase que impossível de se enxergar, rodeado de longas folhas bem verdes.

Surpreso, Yarlen, que nunca presenciara tal demonstração de sentimento, não se conteve e perguntou:

- Porque está fazendo isto...?

Virando-se para o Amiguinho, a Menina disse com voz de quem tem respeito:

- Esta é Raiz... a Mãe...

O Menino observou as outras, comparou com a grande árvore, olhou-a de ponta a ponta e após um tempo perguntou, apontando:

- ...A Mãe dessas outras...?

- Não! – Afirmou enfaticamente a Menina. - A Mãe da... Floresta! E quase que sussurrando ao ouvido do Amigo, disse:

- Certa vez eu a vi chamando a atenção dessas outras, dos pássaros e até do vento...!

- Como...??? – Perguntou o Menino abismado com tal declaração.

- Ela saiu correndo atrás deles...??? – Perguntou o Menino traído pela sua própria imaginação.

- Não seu bobo! – Rebateu Isa de forma irônica.

- Eu vou lhe contar...havia muito barulho naquele dia, ventava muito e o vento batia, arrancava as grandes folhas amareladas e atirava de propósito sobre as outras árvores...

Apontando para simular o ocorrido, a falante menina continuou:

- Parecia que os pássaros haviam sido chamados para uma grande festa ...faziam muito barulho e até os miquinhos, que às vezes aparecem por aqui, neste dia pulavam, saltavam e viravam cambalhotas para se exibir ainda mais.

Muito atento, o menino acompanhava toda a história e exclamou:

- Puxa!!!....e o que aconteceu...?

Sentadinha em uma das grandes raízes que brotavam do solo da árvore mãe, com a mãozinha no queixo como gostava de ser vista e ouvida, Isa prosseguiu:

- Aí...a Mãe Raiz resolveu acabar com toda a bagunça....balançou com muita força todos os seus longos galhos que fizeram um enorme barulho. Todos os pássaros ficaram com muito medo e logo fugiram. Os micos desordeiros se abrigaram entre as folhagens que caíram no chão e até o vento ficou calado.

- E você não ficou com medo? – Perguntou Yarlen, questionando a coragem da amiga.

- Eu... fiquei com muito medo, mas abracei a Mãe e pedi para ela parar...

- E ela?... parou...?

- Claro! Logo tudo estava normal. Só o chão é que estava coberto de pequenos galhos e muitas folhas amareladas.

- Por isso eu acho que ela é mãe da Floresta e eu, sempre que venho aqui, dou um grande abraço e um beijo carinhoso nela.

- Não é melhor a gente ir embora...? – Disse Yarlen ao constatar que sua coragem havia se esgotado diante de toda aquela estranha história e visivelmente intimidado, ante o absoluto poder da Mãe Raiz, a Mãe da Floresta, tomou logo a decisão de ser o primeiro a deixar o local na frente Amiguinha, sem a mínima intenção de sequer olhar para trás.


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