A Queda


Yarlen jogou bola com seus amigos inanimados, na parte da manhã do quarto dia e ao iniciar a tarde, interrompeu sua partida para esperar sua ilustre visitante. Sua chegada enchia de ânimo o solitário Menino. Ela também, de forma visível, demonstrava seu contentamento com a nova amizade. Cicerone, experiente por suas caminhadas diárias, desta vez levou-o a conhecer outras colinas, falava naturalmente da paisagem e o apresentava como uma amiga íntima, andavam lado a lado e nos caminhos apertados por onde  tinham que passar, desinibida, segurava sua mão, mantendo-o bem perto. 

Ambos temiam um recanto conhecido como “O Vale da Sombra”, local onde os adultos, assustadores como são, incutiam nas cabeças dos menores o mortal perigo de se encontrar por ali coisas estranhas e nada amistosas, como víboras e até, diziam os mais antigos, grotescas figuras de pesadelos. Ao cruzarem o temido local, o coraçãozinho da Menina parecia disparar. Ao pressentir o jovem, embora também temeroso, afirmou:

 -  Não tenha medo...não há nada perigoso por aqui...

A Pequena Isa, apreensiva, observando em todas as direções, esqueceu-se de olhar por onde pisava e .... tropeçou numa inoportuna pedra, caindo e gritando de dor. Desesperado, o Menino, sem saber o que fazer ao vê-la chorar,  visivelmente nervoso, ajoelhou-se ao seu lado, perguntado-lhe onde doía. Isa, chorando, apontou para o seu pé direito, vermelho pelo choque.

O coração do Menino nunca estivera tão acelerado, mas lembrou certa ocasião em que foi tratado de uma dor semelhante por um método chamado "carinho" por quem lhe aplicou. O lindo sorriso da Menina havia sido substituído pela lágrima e, mesmo de forma desajeitada, ele esfregou suas mãos sobre o pesinho da Amiga,  massageando-o e lhe aplicando ao final um carinhoso beijo no pesinho. Isa notou que nos olhos do Amigo algumas lágrimas se formavam, compreendendo a preocupação demonstrada pelo Menino por ela e não querendo magoá-lo, parou imediatamente de chorar e para surpresa do Amigo, começou a sorrir. Surpreendido pela repentina mudança de  sentimento, ele perguntou-lhe a razão do riso e ela lhe respondeu:

-  É que ....seus cabelos estão em pé... Você está parecendo um periquito....

Por um instante Yarlen analisou o que ouvira, enxugou as lágrimas com as mãos e imaginou que deveria estar mesmo gozado,  parecendo um... periquito e, também começou a rir e já um pouco aliviado por ver o cativante sorriso da Menina de volta, concluiu:

-  ...Devo estar mesmo gozado... hehehe... se a gente tivesse um espelho....?

-  Mas temos ... o Lago...! – Disse imediatamente Isa.

Esquecendo a dor e o choro, seguiram juntos para o lago, onde riram um do outro, observando as próprias imagens refletidas na água e as lágrimas de ambos cessaram por completo!

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