O Incêndio

 

Retornavam do Lago quando, repentinamente, Isa notou que várias aves pareciam estar fugindo de alguma coisa. Logo percebeu que uma certa fumaça era responsável pela desordenada fuga daqueles pássaros e ao localizar o que seria o foco, imediatamente disparou naquela direção enquanto gritava:  

-  Um incêndio...um incêndio.... Vamos...precisamos apagar...!

O Menino não teve tempo de identificar nem mesmo onde era o tal incêndio, foi logo arrastado pelas mãos da Amiga rumo à origem da fumaça. Alcançaram uma área muito usada pelos caminhantes  que ali, vindos do trabalho, paravam para descansar, antes de seguirem a pé o longo percurso que realizavam por absoluta necessidade, até suas casas.

Naquele momento, não tinha como confundir: o forte cheiro da fumaça, que em muito diferenciava do característico aroma local, provinha de algumas folhas secas que se queimavam pelo descuido de certo fumante que, sem se preocupar com o ambiente, atirara seu cigarro de palha sobre as folhagens que, com a efetiva contribuição do vento, as chamas se propagara com grande rapidez, envolvendo a esbelta manta de uma centenária árvore.

Isa, visivelmente aflita, olhou em sua volta na esperança de encontrar um meio para socorrer a amiga árvore e diante do Menino que, por mais que tentasse, não conseguia entender a razão de tanta preocupação, muito menos ver naquele esboço de fumaça um “incêndio” tão ameaçador como apresentado por sua amiga, limitou-se a observar.

Aflita, a menina gritou:

-  Temos que apagar logo este incêndio.!

Tocado, mais pela preocupação da amiga do que pela causa Ecológica, Yarlen olhou em sua volta esperando encontrar alguma coisa que servisse ao propósito e, percebendo próximas ao tronco de uma árvore algumas cuias de cascas de cocos, se antecipou:

-  Posso trazer água do ...Lago!

-  Isto! - Aprovou com ênfase a Menina.

Ele apanhou as duas cuias de cascas do coco e correu na direção do Lago que, mais uma vez, mostraria sua grande importância. Pouco depois, lá se via o Menino correndo com as duas  cumbuquinhas cheias d’água, fazendo o longo trajeto Lago-incêndio – Incêndio-Lago, sem se importar com as inúmeras voltas dadas, coordenado pela  aflita rainha ecológica mirim.

O Jovem, recém promovido, por forças das circunstâncias, a Bombeiro mirim,  despejava sobre as folhagens a água da pequena cuia e imediatamente corria ainda mais rápido de volta ao Lago para reabastecer. No centro do foco daquele suposto incêndio, a Menina com um pedaço de galho na mão misturava as cinzas molhadas com as que ardiam em chamas, enquanto incentivava seu amiguinho a trazer cada vez mais rápido, mais e mais água.

Finalmente, a coordenadora do combate ao incêndio comunicou ao assistente bombeiro que o fogo havia sido debelado e, mais aliviada, não perdeu a oportunidade de explicar ao amigo a importância daquele feito.

-  A fumaça incomoda os galhos e as folhas verdes, espantam os pássaros que são os amigos de todo o dia das árvores.

E pensativa, continuou:

-  ...E se eles não voltarem... as árvores ficarão sozinhas e sempre que alguém fica sozinho...fica também muito triste.

Yarlen entendia agora um pouco mais, faziam certo sentido aquelas palavras, embora nunca tivesse tido tempo para pensar na amizade entre árvores e pássaros.

Isa, já refeita da preocupação, observou que o Amiguinho, suado e cansado de tantas idas e vindas ao Lago transportando água, estava mais uma vez com os seus cabelos em pé como sempre ficava quando empreendia grande esforço. A comparação com o periquito foi novamente inevitável por parte da menina que começou a rir, mas o Menino também observou e lhe fez ver que ela estava com o rostinho e os cabelos ligeiramente escurecidos pela fumaça. Parecia uma pequena índia pintada para a dança da guerra, lembrou o menino que também começou a rir.

De volta ao Lago, a menina lavou o seu rosto e carinhosamente passou suas mãos molhadas no rosto suado do amiguinho, como que agradecendo-lhe pela brilhante participação no combate ao “incêndio”.

O elo entre eles parecia ficar cada vez mais forte e a ocasional amizade entre ambos fortalecia-se a cada improvisada aventura.


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