A Despedida
Após
aquela partida matutina, não se tinha dúvida, foi a pior já realizada. Yarlen
esteve mal, muito mal, perdeu vários gols considerados feitos,
não conseguia se concentrar, até o gordo Bolão estivera melhor do que
ele. Tronco, demonstrando sua grande forma, foi o artilheiro. Talvez o
pensamento do Menino não estivesse mais voltado para suas partidas e sim...
bem, sabe-se lá.... a verdade
é que ele impacientava-se pela expectativa da sua chegada.
Preparava-se
para sair quando foi abordado no portão por um casal. Um homem jovem de óculos
e terno branco era acompanhado por
uma mulher, igualmente bem vestida. Ele se dirigiu ao Menino:
-
Oi!... Chame seus pais... por favor!
Desconfiado,
Yarlen entrou e pouco depois vinha, apressada, uma Senhora, que sem esquecer a
vaidade, ajeitou rapidamente o cabelo, sem perceber que seu vestido estava
visivelmente molhado devido à grande quantidade de roupa que lavava. O Menino
encostou-se no canto do portão e pelo lado de fora passou a acompanhar aquele
estranho diálogo.
O Jovem, recém formado em Direito, puxou seu crachá de identificação e se apresentou como Sérgio, Relações Públicas da Rede Ferroviária Federal, apresentando também sua acompanhante como Dona Eliana, Assistente Social, conhecida e considerada na região pela atenção que dispensava à população carente. Nada à vontade diante da desagradável missão, o Advogado cumprimentou a Senhora, abriu sua pasta preta, folheou alguma anotações e perguntou:
- A Senhora é a Dona....? – Disse enquanto tentava encontrar uma referência nos seus papéis:
- Maria... – Disse a senhora.
-
Ah! Sim, aqui está. Dona Maria. Bem Dona Maria... como a senhora sabe...
infelizmente esta área será... desocupada e como foi comunicado, o prazo para
a desocupação .... – O Homem tentava ajeitar convenientemente as palavras
para que a exigência da lei pudesse ser suavizada diante da desagradável
realidade. A Senhora, percebendo seu embaraço, se antecipou:
-
Sim. Sabemos que o prazo encerra-se depois de amanhã e já estamos nos
preparando para a mudança.
A
Mulher que acompanhava o Homem, demostrando também preocupação com o destino dos envolvidos naquela operação,
tomou a palavra:
- A Senhora sabe que a Rede enviará o caminhão para o transporte.... Vocês já têm para onde ir? – Perguntou, demonstrando certa tristeza.
- ...Iremos, provisoriamente, para a casa de um parente em Paço Verde – afirmou a Senhora, visivelmente receosa. O jovem Doutor olhou todo o redor e com voz pausada, prosseguiu:
-
A preocupação podia ser notada no rosto e no falar de ambos, enquanto a
provisória Dona da casa, esfregando as mãos sobre o vestido molhado, mantinha
o olhar fixo num ponto imaginário, certamente pela iminente incerteza. Para
encerrar logo aquela desagradável situação, Dona Maria
afirmou:
-
Hoje mesmo já começaremos a encaixotar as... coisas...
Recolhido
ao seu canto, o jovem Yarlen não entendeu absolutamente nada daquele estranho
assunto, indo em busca da Amiga que talvez o fizesse compreender a situação.
Só que nada...nem um sinal da Amiga.
O
que teria acontecido? Ela nunca havia demorado assim! Impaciente como nunca havia estado, Yarlen andava de uma lado
para outro. Subiu e desceu inúmeras vezes aquelas colinas próximas, na esperança
de ver um sinal da grande amiga. Já estava cansado de tanto andar, subir,
descer, olhar para todos os lados, afinal, nem mesmo sabia onde a Menina morava.
Desolado, resolveu aguardar sua Amiga junto ao Lago e, quando a amargura parecia
ter-lhe dominado, eis que surgiu lá do alto da colina a Menina, descendo
vagarosamente.
Ele
era todo felicidade e logo correu ao seu encontro, mas ao se aproximar, percebeu
que algo havia acontecido....ela estava diferente. Não o recebeu com o
costumeiro sorriso que o cativara, nem havia
em sua saudação aquele tom forte e animador. Ao contrário, sua voz foi
ouvida com dificuldade e seu rosto tinha a imagem de quem já havia chorado
muito. O Menino, por instinto, colocou sua mão sobre o rosto da Menina e lhe
perguntou com voz suave:
-
O que houve...? Porque está
assim...triste...?
O
toque em seu rosto e a pergunta fizeram a Menina desabar em lágrimas que, com
dificuldade, disse:
-
...Eu vou embora amanhã.....
Houve
um silêncio por parte do Menino, como se aguardasse mais informações. Ela,
soluçando, tentou concluir:
-
...O caminhão virá nos buscar pela manhã.... Nós vamos nos mudar....
para longe, muito, muito, muito longe daqui....
O
Jovem Menino sentiu um forte calor subir por todo o seu corpo, sentiu seu coraçãozinho
apertar e sua respiração o sufocar. Experimentava pela primeira vez coisas que
somente os adultos experimentam bem mais tarde e, embora não soubesse nem
entendesse bem o que estava acontecendo com ele, sabia que tinha algo a ver com
a súbita partida da Amiga. A idéia de não poder vê-la mais era sem dúvida a
causadora daquela desagradável
sensação. Seus olhos se encheram de lágrimas e dos
pequenos olhos, grandes lágrimas rolaram. Compreendia muito cedo, daquela
forma, que as palavras podem produzir a beleza de um inesquecível sorriso, mas
também são capazes de amedrontar diante de uma incompreensível dor. Eles não
tinham mais o que falar, e um simples abraço representou todas as palavras que
no momento não encontraram. Permaneceram abraçados alguns minutos enquanto Isa
soluçava no seu pequeno ombro. Ele, tentando ser forte, reuniu suas forças,
respirou fundo para afirmar:
-
...Nós nos veremos de novo um dia ..eu sei que nos veremos e
vai ser muito legal!
Isa,
entre soluços, afirmou:
- ...Adeus....eu não posso demorar mais .... - Deu-lhe um carinhoso beijo no rosto e com a voz embargada concluiu:
-
...Cuide do Lago para mim...tá....? – E chorando, deu-lhe as costas,
partindo. Certamente não ouviu a resposta do Menino que com sua voz trêmula,
afirmou, quase que para si mesmo:
-
...Eu vou cuidar...eu prometo!!!
O
Menino permaneceu olhando com profunda dor e tristeza a Menina desaparecer sobre
a Colina que, pela primeira, vez não se virou para lhe dar o costumeiro adeus
como fazia todos as tardes. Talvez não tenha conseguido conter a emoção
daquele dia ou quem sabe não quisesse ser vista em prantos.
Yarlen
continuou ali parado, mesmo após a partida da Amiga, sem saber o que fazer.
Sentou-se no chão e começou a pensar como sua vida confinada a apenas amigos
imóveis havia se transformado numa aventura diária por recantos tão bonitos
que ele jamais sonhara. Como uma menina que não sabia dar um chute numa bola
podia ser tão interessante. E ainda lembrando as aventuras com ela, se
perguntou:
“E
quando ela tropeçar, quem irá lhe socorrer”
“Quando
quiser uma nova flor, quem irá apanhar para ela?”
“Quando
se sentir só e com medo, quem irá confortá-la?”
E
pensando um pouco em si mesmo concluiu seu pensamento:
E
quando eu... precisar dela...?
Não tinha resposta para nenhuma de suas indagações e sentado na relva, chorou um choro solitário e silencioso, depois levantou, olhou os pássaros e o próprio Lago que lhe pareceram diferentes, totalmente sem vida, e sentindo o que não sabia explicar, fez o seu solitário e mais longo caminho de volta para casa.