Salvando o Artilheiro
Desanimado,
o Menino empurrou seu portão e adentrou. Não
precisou olhar muito para perceber que
algo estava diferente. Onde
estavam seus amigos? Do outro lado do corredor, Cansado estava reduzido a dois
pedaços inúteis de madeira, Bolão, totalmente vazio, perdera finalmente toda
aquela barriga. Tronco? Céus? E o Tronco?? O Menino gelou ao pensar no seu
Amigo Tronco. Deu um grito sem precedente:
-
T r o n c o !!!!!!!
Lembrou
do Seu Simão, o velho Lenhador que fornecia, mas também quando solicitado,
retirava a lenha excedente. Desesperado, saiu correndo e por pouco não tropeçou
nas caixas dos objetos já acomodados pelo corredor para a mudança, pulou todos
os obstáculos à frente, ganhou o enorme terreno até a cerca do vizinho.
Ofegante,
puxou com força os arames farpados da cerca que dividia os quintais, alargando
a distância entre eles para que pudesse passar, abaixou a cabeça e passou com
grande dificuldade, sentindo-se preso pela camisa por uma das pontas do rebelde
arame que quase lhe fura a barriguinha e quanto pensou ter vencido o pior, foi
recebido com uma pequena mordida no calcanhar, dado por Bugre, um filhote de
vira-lata que não tinha uma relação muito amistosa com o Menino.
Yarlen nem pensou duas vezes, deu dois
tabefes na cara do pequeno animal que o abandonou correndo e gemendo sobre o
efeito dos tapas recebidos. Ele não
tinha tempo para arames nem para mordidas de filhotes, tinha sim, uma importante
missão pela frente. Passou as mãozinhas, esfregando o
local da mordida e continuou correndo em direção ao fundo do quintal do
Velho Simão. Ufa!!! Chegou a tempo! - Deparando com uma grotesca cena. De
costas, o Velho Simão erguia à cima da própria cabeça um velho e histórico
machado que chegava a brilhar com o reflexo do Sol. Embaixo, como se tremendo
diante do inevitável, Tronco estava preste a receber o fatídico golpe que o
faria encerrar a brilhante carreira de Artilheiro, transformando-o literalmente
numa simples e inútil perna de pau.
O
Menino reuniu todas as suas forças, quase que esgotadas pela tristeza da separação
da sua amiga, e colocando seu pulmão à prova, desferiu outro sonoro e
estridente grito:
-
Nããããããããããããão!!!!!!!
O
Velho Simão pareceu gelar com o susto;
não fosse sua grande experiência de vida ao longo dos seus 70 e poucos anos,
teria desabado com seu próprio machado. O Velho virou-se para o Menino, colocou
o machado no chão e sem entender nada, ouviu o mais estranho relato de sua
vida.
-
...Por favor, seu Simão não mate o meu amigo e artilheiro... – Disse
o Menino, em prantos.
O
Velho Simão, entendendo agora muito menos, coçou a cabeça embranquecida pela
idade, esticou sua barbicha russa pela serragem, olhou em volta e furioso pelo
susto que recebera, bradou com o pequeno intruso.
-
Com Mil Farpas! Escute aqui seu... Pirralho... – O Velho conteve-se para não
dizer um de seus costumeiros palavrões. ... Comece logo a explicar a razão do
susto que você me deu ...! – Disse-lhe, apontando o dedo.
O
Menino, sem perder o fôlego, emendou enquanto chorava:
-
...Por favor, seu Simão...Eu cato para o senhor um monte de galhos e
gravetos, mas... por favor, não mate o Tronco. Ele é
meu Amigo e artilheiro...
Com
toda sua experiência, o Lenhador nunca havia passado por algo parecido e tratou
logo de entender:
-
Escute! ...esse seu desespero é porque eu ia cortar este velho...
tronco....??? – Disse apontando para o tronco.
Ainda
sobre o impacto da cena, o Menino concluiu:
-
...Ele não é um tronco qualquer...ele é meu amigo e artilheiro...
O
Velho quis ter certeza do que estava ouvindo e já demonstrando mais paciência
com o Menino, perguntou:
-
...Filho...quer dizer que este tronco aqui... joga bola...???
-
Sim...! Disse o Menino com ênfase. ...Ele
é o maior artilheiro depois de mim... – Finalizou.
O
Velho Simão sentiu necessidade de sentar-se e o fez ali mesmo no chão,
enquanto alisava a barbicha russa e observava o menino que falava:
-
Por favor... Seu Simão....
-
Pare...pare...pare com isso, eu não tenho mais idade para ouvir
choramingueira de criança.... - Disse o Velho, tentando conter os nervos.
-
Pode levar esse seu tronco goleador... – Arrematou o Velho.
-
Artilheiro... – corrigiu o menino, já mais calmo.
-
Certo...leva logo ele daqui....... Eu preciso urgente
do meu medicamento! – E dando as costas, caminhou até uma árvore e
apanhou, enrolado num pano de prato, seu medicamento: uma garrafa da mais pura
aguardente da região. Colocou meia dose no copo, pensou no susto que recebera e
falou consigo mesmo:
-
Hoje... eu preciso de uma dose maior... – Completou a dosagem, enchendo
totalmente o copo, virando-o rapidamente
goela adentro. Ao virar-se viu o Menino arrastando com grande dificuldade o
amigo tronco pelo quintal. Simão não resistiu e gritou;
-
Espere filho... – O Velho Simão abaixou-se, segurou com firmeza o
tronco e como se lhe desse uma bonita cambalhota, o transportou para o ombro. O
Menino achou bonita a cena, mas não tinha motivos para sorrir.
-
Onde você quer que eu coloque esse seu amigo goleador? – Perguntou o
Velho.
-
Artilheiro...Seu Simão... – Corrigiu mais uma vez, o Menino. ...Coloque no meu quintal...por favor... – indicou.
O
Lenhador, com o tronco no ombro, seguiu quintal à dentro, seguido passo a passo
pelo Menino. Ao atingir a divisão do terreno, Bugre, o filhote, à distância,
o observou, ainda lembrando dos tabefes e o Menino, lembrando da dentada, também
o olhou apreensivo e ambos, por precaução, mantiveram a necessária distância um do outro.
Já no quintal do Menino, o Velho Simão desceu do ombro o tronco e o posicionou no centro do terreno. Preparava-se para retornar quando foi seguro pelas pernas pelo Menino que o interpelou:
-
Por favor ...Seu Simão, aí ele vai pegar sol e chuva...
O
Velho Simão coçou a cabeça, colocou novamente o tronco no ombro, carregou-o
até mais à frente e o posicionou debaixo de uma árvore. O Menino
voltou a observar:
-
Aí também não! Aí ...ele vai pegar o sereno que escorrer das folhas
das árvores...
-
Com Mil Farpas! – Resmungou o Lenhador, com o rosto todo vermelho
provocado pela combinação do peso com o Calor. Passou a mão sobre o rosto
suado e começava a se arrepender pela infeliz idéia que tivera ao se oferecer
para transportar aquele tal goleador, mas tentando manter a calma, colocou
novamente o pesado tronco no ombro e para evitar novo fracasso de
posicionamento, perguntou:
-
Diga filho: onde vamos deixar este
tronco???
-
Ali...debaixo da choupana! – Disse Yarlen, finalizando sua escolha. Aliviado, o Velho desceu mais uma vez do ombro o pesado
tronco, colocou-o debaixo da
choupana e tratou de se retirar o mais rápido possível, antes de um novo
pedido.
Ao
dobrar a curva que dividia os dois terrenos, o Velho Simão não resistiu,
parou, olhou para trás e viu o menino ao lado do tronco como se a abraçá-lo e
concluiu falando consigo mesmo:
Menino estranho, pensa mesmo que um velho pedaço de madeira joga bola, é seu amigo e ainda goleador....hehehe..... Preciso de outro medicamento...hehehe.