A Invasão
Naquela
manhã meio nublada, Yarlen foi acordado por um grande tumulto, uma movimentação
como nunca Vale do Verde havia
presenciado. Imediatamente, correu para o portão e levou um tremendo susto.
Pensou numa invasão daquelas das novelas do rádio que sua Mãe ouvia, afinal
ele nunca havia visto mais de 5 pessoas reunidas naquele local e, naquele dia,
quase uma centena de Trabalhadores, uns vestindo roupas amarelas, outros macacões
azuis, desciam de um caminhão enquanto outros descarregavam madeiras, ferros e
lonas. Já em manobra, um segundo caminhão trazia em sua carroçaira um...
“grande trator”, como pensou o Menino, já que o desengonçado veículo
tinha o que parecia ser uma grande boca, capaz de engolir tudo que tivesse à
sua frente.
Do
lado esquerdo ao seu portão, homens carregavam estranhas ferramentas e do outro
lado em frente, um homem de camisa branca, óculos e capacete segurava, com a
ajuda de outro, uma enorme folha quase que transparente cheia de riscos e
rabiscos. Apontava para um minúsculo ponto e olhava em volta do terreno. O
Jovem nem teve tempo de enrolar sua esteira como sempre fazia e nem pensou em
café, abriu a porta e, por intuito, seguiu na direção do Homem com a enorme
folha na mão:
-
Moço.. o que vocês estão fazendo...?
A
agitação era grande, assim como o barulho das vozes dos trabalhadores e das
ferramentas, pelo que a presença
do Menino não foi considerada. Os três homens continuaram trocando idéias e o
de capacete de cor diferente explicava:
-
Aqui... faremos a transferência para o Setor B – Falava e indicava um
risco no grande papel e virando-se para o local, apontou para o Lago e disse: Exatamente...
ali!
O
Menino não podia esperar mais. Estranhos tinham invadido seu local e ainda
pretendiam fazer alguma coisa no Lago. Ele segurou a perna da calça do homem de
capacete diferente, provocando-lhe um susto, enquanto gritava:
-
O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO...???
O
Homem de capacete deu um salto, olhou assustado para os outros e perguntou:
-
Céus! ...De onde veio este Menino...?
Os
outros olharam ao redor e só viram mesmo os trabalhadores e, sem entender, o
incomodado perguntou ao próprio Menino.
-
Ei filho... de onde você veio...?
O
Menino de forma seca, respondeu:
-
Do outro lado! – Disse apontando para o lado oposto ao que estava e
puxando o Homem pela perna da calça, exigiu sua resposta: ...O que vocês estão
fazendo aqui...?
Todos
olharam na direção apontada pelo menino e o Homem que tinha as pernas da calça
presas por ele percebeu que a explicação técnica aos outros estava
temporariamente suspensa e, sem alternativa, ajeitando os óculos, respondeu:
-
...Nós somos da Rede Ferroviária Federal, filho... e aqui vai passar a
Ferrovia.
-
O Trem...? – Perguntou o Menino adaptando ao seu conhecimento a
resposta recebida.
-
Sim. Nós vamos providenciar as linhas para o trem. – Afirmou julgando
ter encerrado sua explicação.
O
Menino, ainda segurando suas pernas, não deixou que ele se virasse e voltou a
indagar:
-
Aqui vai ser uma estação de trem??? – Perguntou o Menino.
O Homem riu e afirmou:
-
Quem pegaria um trem aqui, Filho? A não ser... sapos!!!
-
Os outros dois Técnicos deram uma grande gargalhada e ao final, ficaram
sem jeito ao ver a cara fechada do jovem Menino que não achara um tico de graça
em sapos que pegam trem. Diante do olhar atento do Menino, o Homem, esfregando a
testa, não teve outra alternativa a não ser lhe dar uma explicação
convincente.
-
Não...Filho...aqui não será uma Estação. A Estação será em Paço
Verde, muito antes de Vale do Verde, aqui será uma área de transferência....Como
vou lhe explicar....bem...é onde os trens são limpos e preparados para
continuar a viagem.
-
E o Lago...? – Perguntou o Menino que lembrara bem do Homem apontando
na direção do lago.
-
Olharam uns para os outros e o Homem indagou:
-
Lago...? Que Lago...Filho?
-
Aquele ali! – Indicou o Menino enfezado pela incompreensão de todos.
-
Chama aquele buraco ali... de Lago....? Hi,hi,hi – E riram novamente.
As
bochechas do Menino rosavam de fúria sobre aqueles Homens que não entendiam
nada de Lago. E interrompeu aquelas inoportunas gargalhadas com um grito capaz
de incomodar qualquer tímpano bem apurado:
-
...
O QUE VAI SER DO LAGO...???
O
Homem, sem graça, esfregando o ouvido, disse:
-
...Ali os trens farão a manobra!
O
Menino voltou a insistir, queria um resposta mais clara:
-
O que vão fazer com o Lago???
Já
meio impaciente, mas temendo um novo grito do Menino, concluiu:
-
Aquele buraco, quero dizer... aquele Lago será aterrado. – Disse,
enquanto sussurrava com um dos dois assistente: - Descubra de onde veio este...
Menino! –
-
O Lago... será enterrado??? – Perguntou o Menino, provocando mais
risadas dos Engenheiros.
-
Enterrado não Filho....A-ter-ra-do!
Explicou o Homem, ainda rindo.
-
O que é aterrar??? – Indagou o Menino.
O
Coordenador voltou a esfregar a testa e respondeu:
-
Aterrar é... jogar muita terra por cima! – Simplificou.
-
Isto é a mesma coisa que enterrar! – Afirmou com convicção o Menino,
deixando todos novamente sem graça.
O
Menino sentiu novamente um grande calor percorrer seu corpo ao pensar: ...como
podiam fazer isto...com o Lago... e continuou falando alto com os três
Engenheiros:
-
Eu não vou deixar ninguém destruir o Lago da... Menina! – Disse o
ousado Menino.
Ao
ouvir o termo Menina, o Engenheiro-Chefe se apavorou:
-
Filho ...Se além de você ainda houver uma Menina querendo mais explicações
sobre este tal Lago, eu desisto!
Disse
o Homem fazendo os outros dois rirem ainda mais.
...Veja filho, aqui vai passar um bonito trem que fará suas manobras justamente
sobre aquele buraco, quero dizer, sobre aquele Lago... - Enquanto terminava de falar, um grande automóvel preto
chegava, saltando dele um homem alto, de terno, segurando o cigarro numa
piteira preta, acompanhado de um jovem com uma máquina fotográfica no peito. O
Menino pressentiu a importância do homem de terno e correu em sua direção. O
Engenheiro colocou a mão na cabeça e preocupado, disse ao outros dois:
-
Céus!...
Ele vai na direção do Comandante! Vai
perturbá-lo com a história desse buraco.