A
Resistência
O
Menino, sem se importar nem um pouco com a patente do Homem alto, segurou as
pernas das largas calças dele e, quase deslocando o pescoço para olhar lá
para cima na direção do seu rosto ao
final dos seus quase 2 metros, foi
logo dizendo:
-
Eu não vou deixar vocês enterrarem o Lago da Menina... - E desabou a
chorar enquanto completava: ...Eu prometi a ela que iria tomar conta dele....!
Todos
pararam, até mesmo os trabalhadores braçais foram atraídos pela inusitada
cena. Um ousado Menino prendia as pernas do respeitado Comandante e ainda
questionava a maior frente de trabalho até então realizada em Vale do Verde.
O
Comandante que não conseguia dar um passo, tendo suas longas pernas presas por um pequeno Menino. Surpreendido, deu uma tragada na sua
piteira e ao ver os três Engenheiros se aproximarem, perguntou ao Chefe da
operação:
-
Quem é... esse Menino...?
O
Engenheiro chefe logo se antecipou:
-
Não sei, Comandante... Acreditamos que tenha vindo da área da desocupação....quando
percebi, já estava atracado assim também às minhas pernas, fazendo uma
verdadeira entrevista....Ele parece ter uma obstinação por aquele buraco ali e
anuncia uma tal Menina como dona do que chama de Lago...
O
Comandante, sem jeito diante da situação, passou a mão esquerda sobre a cabeça
do Menino e lhe disse:
-
Calma...calma...nós não somos inimigos...nós estamos aqui para fazer
coisas boas!
O
Homem jovem que portava a máquina fotográfica, parecendo ter mais jeito para
lidar com aquela situação, abraçou o menino e lhe disse:
-
Ei amiguinho, calma...vamos conversar...conte para mim esta história
toda...vamos! - Puxou
carinhosamente o Menino que, após liberar as pernas do Comandante, seguiu com o
Repórter e Fotógrafo sob os olhares atentos do Militar que logo determinava ao Engenheiro chefe:
-
Mande localizar a Assistente Social e mande-a que venha depois com esta
Criança à minha presença...
E
abaixando o tom da voz, disse ao Engenheiro chefe:
-
E fique de olho neste... Repórter...!
O
Repórter abraçado ao Menino conduzia-o na direção do Lago, a fim de ouvir
todo o seu estranho relato. E após ouvir atentamente toda história e antever
um grande material a ser explorado pelo seu Jornal, logo propôs ao menino:
-
Vamos tirar uma foto... aqui bem perto do... Lago!
E
sentando o Menino na borda do Lago,
afirmou:
-
Isto...assim...agora sorria...
O
Menino não esboçou o mínimo desejo de sorrir. Não tinha motivos para tal.
Percebendo sua determinação, o Fotógrafo tratou de contornar a situação,
afirmando:
-
Está bem...tive uma idéia, acho que é melhor assim mesmo... sério. E
aproveitando o ar de preocupação do Menino, tratou logo de bater sua foto.
Familiarizado
com a história do lago, o Repórter o trouxe de volta, onde já lhes aguardavam
o Comandante e Dona Eliana, a Assistente Social
que no dia anterior havia visitado a casa do Menino e que também já
estava informada pelos Engenheiros da preocupação demonstrada pelo Menino com
o tal Lago. E ao vê-lo, logo afirmou:
-
Oi...querido, você está ficando... famoso por aqui.... – Deu-lhe um
beijo, tomou-o pelas mãos e se
dirigindo ao Comandante, afirmou:
-
Ele tem uma forte determinação...
O
Comandante, embora não muito sensível, afirmou:
-
De onde ele tirou toda essa sua preocupação com aquele buraco?
-
É um Lago...Senhor! – Reagiu o Menino, enquanto a Assistente Social
apertava sua mão para que ficasse quieto.
O
Repórter, agora conhecedor na íntegra de toda a história do Menino, se
antecipou e esclareceu:
-
A Historia deste Menino é sem dúvida um farto material para nós, não
só para o Jornal como também... – olhou para os lados e ao constatar que
estavam sozinhos, deu seqüência: ...como meio promocional político para o que
pretendemos... O Comandante ouviu com atenção e como coordenador político de
grande influência, gostou do que ouviu. O Repórter continuou:
-
...Nosso Jornal não tem conhecimento de uma resistência feita por alguém
tão jovem... – O Militar franziu a testa, demonstrando
não ter gostado muito do termo “resistência”, soava como rebeldia,
abuso e desobediência ao... Regime.
Entendendo
a situação, o Repórter tratou de ajeitar:
-
... Claro que me refiro a uma “resistência” ...ecológica...
- Resistência Ecológica? Isto pode ser interessante! - Resmungou o Comandante. E virando-se para a Assistente Social, disse:
-
Aguarde-nos aqui com ele. – E se aproximando do ouvido dela, afirmou
baixinho: Cuidado!...Ele gruda como um carrapato nas pernas das pessoas!
Retirou-se,
convidando o Repórter a acompanhá-lo. Deram alguns passos e o Comandante, após
dar uma caprichada tragada em sua piteira, colocou a mão sobre o ombro do Repórter
e afirmou:
-
...Largo da Menina... – O Jovem Repórter retrucou:
-
Perdão Senhor,... Lago...Lago da Menina.
O
Militar esboçou um sorriso e finalizou:
-
Claro!....Ary, eu estava apenas projetando alto... meu pensamento! – E
seguiram até uma cobertura improvisada com uma grande lona, onde conversaram
durante um bom tempo.
A
Assistente, diante do Menino que ainda se mantinha triste sem nada compreender,
disse-lhe baixinho:
-
Querido....Você é grande e vai longe!
O
Menino só estava interessado na sua inquietação:
-
E o Lago...aquele moço muito grande vai deixar enterrar o Lago?
A
Assistente riu e respondeu:
-
Você quer dizer aterrar, não é? ....Agora temos que ter calma, filho
e... aguardar.
O
Menino, ainda com a cara fechada, concluía que era muito difícil lidar com os
adultos, eles não entendem nada, falam coisas esquisitas...andam para lá e para
cá, acham muita graça das coisas sérias e não gostam de explicar as coisas
às crianças.
Pouco depois, retornavam o Comandante e o Jovem Repórter. O respeitado Militar chamou a Assistente Social e olhando com cara de simpático para o Menino, ordenou:
-
Leve o pequeno Yarlen até a
sua casa e comunique aos seus Pais que a mudança deles para outra cidade foi
...adiada.
A
Mulher, segurando o jovem Yarlen pela mão, sentiu-se feliz e disse-lhe:
-
Vamos...precisamos avisar logo sua Mãe que a mudança foi adiada.
O
Menino, arregalando os olhos, perguntou:
-
E o Lago?... vai ficar aqui mesmo?
A
Assistente tentava demonstrar calma com a insistência do Menino com sua única
preocupação e, abaixando-se para olhá-lo
na mesma altura dos seus olhos, tentou explicar:
- Ouça filho, temos que ter calma. Você já fez o que podia fazer, agora temos que esperar. Você já conseguiu uma coisa muito importante! – E levantando-se, seguiu abraçada com ele na direção da sua casa.