A Desocupação
O
ronco dos motores dos caminhões ecoou pela manhã daquele sábado, fazendo
cumprir a anunciada retirada dos moradores com os seus pertences da área
qualificada como de desocupação.
Tudo
transcorria com absoluta passividade, apesar de todos terem à frente um futuro
mais que incerto. Os critérios das medidas de Apoio aos Moradores seriam
veementemente questionados em qualquer situação, exceto naquela época onde a
força de um regime ditava, pelo temor, os vigentes conceitos de julgamento.
Os
Proprietários, que a muito haviam confiado suas residências a um grupo
absolutamente carente para fiel guarda e moradia do seus imóveis,
transferindo-se para outras cidades, onde o futuro certamente chegaria primeiro,
seriam indenizados não pelo valor real do imóvel, mas por uma modesta tabela
do Governo, cujo valor não cobriria nem mesmo parte de um simples lote no mais
próximo manguezal.
Aos
guardiões das residências alheias restava a acolhida em casas de parentes ali
mesmo em Vale do Verde ou na ausência destes, em outra cidade. A maioria,
entretanto, seria transferida para outra área cedida pelo próprio governo, um
local próximo, cujas condições habitacionais eram ainda mais precárias
do que as que viviam. Neste grupo estava a família do jovem Yarlen,
salva de uma incerta transferência para outra cidade graças ao seu gênio
rebelde, obstinado e por ter feito a alguém... uma certa promessa.
Enfileirados
e com suas laterais abertas, os velhos e assustadores caminhões aguardavam para
ser carregados com os mais exóticos pertences, capazes de umedecer os olhos
mais sensíveis, diante da prova incontestável de absoluta necessidade
material. Coordenados por Ivan Lopes, popularmente conhecido como Ivan Gordo, um
senhor branco, rechonchudo, careca com barba por fazer, com um cigarro no canto
da boca e uma prancheta na mão, relacionava todos os objetos a serem acomodados
nos caminhões contratados pela RFFSA, que seriam levados ou para a nova área
residencial ou para o depósito montado pela Empresa, onde ficariam até que os
Moradores designassem um local definitivo.
O
Apontador, que também possuía um dos caminhões escalados para aquela tarefa,
percebeu a uma certa distância um Menino empurrando um tronco enorme que
parecia vir em sua direção. Acompanhando atentamente toda a trajetória do
Menino, Ivan exclamou consigo mesmo:
-
Minha Nossa! O que será aquilo...?
Imediatamente
gritou por seu auxiliar, Fumaça, um prestativo jovem, escuro, esguio com um boné
em posição contrária enterrado à cabeça e lhe mostrando o Menino,
disse-lhe:
-
Olha lá... Está vendo aquele moleque?
Ele está trazendo uma árvore para cá, deve estar pretendendo fazer uma
grande fogueira por aqui. Vá lá e
resolva aquilo...
Assobiando,
o rapaz auxiliar foi se aproximando do menino e tentando ser gentil, disse:
-
Deixa eu te ajudar...onde vamos
deixar esta árvore...?
Os
cabelos do menino já estavam em pé e agora suas bochechas ruborizavam-se de
raiva pelo tratamento atribuído ao seu ilustre Jogador.
-
Não é uma árvore. É um tronco e ele tem nome!. – Disse Yarlen
visivelmente irritado.
O
jovem auxiliar prendeu o riso e tentou continuar o diálogo.
-
Está bem.... Desculpe... Qual é o nome da sua... quero dizer... dele?
-
O nome dele é Tronco! – Afirmou o Menino rispidamente.
O
Auxiliar colocou novamente a mão sobre a boca para conter o riso. Não notara
nenhuma diferença entre um velho tronco de árvore e um pedaço de árvore
chamada de ...Tronco.
-
Em que lugar vai ficar o Sr. Tronco? – Questionou o risonho auxiliar.
-
Ele vai para o caminhão. – Afirmou com absoluta naturalidade o menino.
-
Espere...não pode levá-lo para o caminhão! – Disse, assustado o
auxiliar.
-
ELE VAI PARA O CAMINHÃO! – Gritou o menino enquanto voltava a empurrar
seu Artilheiro.
-
Não há espaço para....ele lá no caminhão.
-
ELE VAI NO CAMINHÃO!!! – Gritou novamente o menino e continuou
empurrando seu tronco.
O auxiliar abandonou o menino com seu tronco e correu desesperado na direção do Apontador. O Sr. Lopes estava de costas, acompanhando a colocação dos pertences no caminhão e conferia:
-
2 cestos, 3 balaios, 2 moringas, 6 esteiras....
-
Foi bruscamente interrompido pelo auxiliar que o cutucou
pelas costas e assustado lhe informou:
-
Chefe...o Menino... - Não ouve tempo de concluir. O Apontador virou-se
e, ao ver o Menino ainda mais próximo, logo gritou:
- Céus... ele está vindo para cá...! Você não fez nada...???
- Não consegui, chefe...nada faz ele mudar de idéia. Ele está trazendo aquilo para o seu caminhão....
- Que...??? – Gritou o Sr. Lopes quase engolindo o cigarro. Aquilo não vai entrar no meu caminhão! Não fui contratado para carregar árvores! Deixa eu resolver logo isto. – Empurrou a prancheta para a mão do Auxiliar e seguiu até o Menino, que parara para descansar da árdua tarefa de conduzir um grande e imóvel amigo.
O Sr. Lopes colocou sua enorme galocha na frente do
tronco e antes que Yarlen voltasse a empurrá-lo, foi logo dizendo:
-
Ei,
ei, ei....onde você pensa que vai com isto
-
Ele é meu amigo e vai comigo!. – Disse Yarlen tentando ultrapassar a
grande barreira à sua frente, formada pela volumosa barriga do Sr. Lopes
associada à sua galocha.
O
Apontador, que não tinha muita paciência com crianças, olhou para os lados e
ao sentir-se senhor da situação, apontou o dedo para o Menino e lhe disse com
firmeza:
-
Olha aqui, seu aprendiz de lenhador, você pode passear com este seu
amigo para qualquer lugar, menos para dentro do meu caminhão, ouviu? Ninguém,
ninguém vai colocar dentro dele um... - Buscou uma comparação e arrematou:
Um... espantalho!
Diante
da grave situação, onde se via ameaçado de ser separado do seu fiel amigo a
quem salvara a vida, o menino usou a única alternativa existente: Atracou-se ao
Amigo tronco e berrou enquanto chorava:
-
ELE
VAI COMIGO!!!!
Mais
uma vez o menino chamava a atenção, paralisando com seu choro toda a operação
da desocupação até então tranqüila.
A
primeira a vir foi justamente sua mãe que, logo ao se aproximar e notar seu
filho ao lado do velho tronco, exclamou com total surpresa:
-
Por Deus! O que é que este tronco ainda está fazendo aqui?
Foi
logo caminhando até a cerca do terreno próximo e gritou:
-
Sr. SIMÃO!!!
Ao
ouvir o chamado, Seu Simão colocou seu rosto para fora e ao reconhecer Dona
Maria e observar mais a diante o Menino chorando, atracado ao tronco, lembrou
imediatamente a gorjeta que recebera para que desaparecesse em definitivo com
aquele tronco e que fora imediatamente transformada em medicamentos.
Vendo-se sem alternativa, logo falou consigo mesmo:
-
Com mil farpas! Já vem mais encrencas...Eu sabia...sabia que aquele
Menino me arranjaria mais encrenca.! Meu medicamento...preciso do meu
medicamento...!
Tirando
do velho paletó seu famoso recipiente, levou-o à boca pelo próprio gargalo,
tomando o correspondente a uma caprichada dose dupla. Ia guardando o restante
quando, penosamente, não conseguiu soltar a garrafa e observou:
-
É melhor tomar outra...talvez não tenha tempo depois – E ingeriu nova
dose.
Preparava-se
para fugir pelo lado oposto da cerca quando Bugre, o filhote, o denunciou com
seus estridentes latidos.
-
Sr Simão... faça o favor.. venha aqui!!! – Disse Dona. Maria querendo
esclarecer o acontecido.
-
Sr. Simão...Nós não combinamos do Senhor destruir este tronco???
-
Eu juro que vi o Senhor levando isto nas costas para o seu terreno.
-
O que é que esta coisa... está fazendo como se fosse uma assombração
atrás do meu Filho...?
-
Porque eu não consigo me livrar deste velho pedaço de árvore?
-
Santo Deus! Explique seu Simão...explique!
O
velho respirou fundo e meio gaguejando, pôs se a esclarecer:
-
É o seguinte Dona... Eu estava preparando para partir este tronco em mil
farpas quando seu filho deu um berro que quase estoura os meus tímpanos, e o
pior é que quase degolo meu próprio pescoço com o machado pelo susto. Depois
ele abraçou este tronco esquisito que parece mesmo uma assombração, como a
Senhora disse... – E apontando para o Menino continuou sua explicação:
Assim, olha lá.... do jeito que ele está lá agora... começou a chorar e a
falar que este tronco era muito seu amigo, que jogava muito bola e fazia um gol
atrás do outro. Ele me fez
levar de volta seu amigo tronco para o seu quintal e sem saber onde iria
esconder da senhora, me fez dançar para lá e pra cá, pra cá e pra lá com
aquele maldito tronco – O Velho gingava o corpo de um lado para outro
ilustrando sua história.
Dona
Maria estava achando muito gozado o relato do Velho,
principalmente pela representação quase que circense do lenhador.
-
E a Senhora pensa que foi só...não...não...não....eu ainda tive que
ouvir um monte de histórias sobre
este estranho amigo que o seu filho arranjou.
Dona
Maria ouviu todo o relato do Sr. Simão e apreensiva, afirmou:
Deus! Por que este Menino não tem brinquedo como todos os outros garotos da sua idade; peão, bola, pipa? Mas não, tinha que ser um enorme e velho pedaço de árvore. Obrigado Sr. Simão, desculpe tê-lo incomodado.