O Rei da Encrenca


A Senhora  parecia  mais conformada com o  esclarecimento do velho lenhador, quando um grito estridente se ouviu:

-  Seu SIMÃO!!!

Bugre, o Filhote, logo levantou suas orelhinhas, conhecia como ninguém aquela voz sobre a qual não tinha boas recordações. Por isso logo se abrigou por entre as pernas do Lenhador.

O Velho esfregou o ouvido, arregalou os olhos ao identificar que a origem do sonífero chamado  vinha exatamente do jovem Yarlen!

-  Santo Deus! – Exclamou o velho. - Não é que ainda vem mais encrenca!

De pé próximo ao tronco, o Menino pedia:

-  Por favor, Seu Simão coloque meu Amigo ali no caminhão, em cima das esteiras...

O Velho coçou a barba esbranquiçada e com  autoridade, advertiu o Menino:

-  Olha aqui, seu Rei da Encrenca... decida logo onde eu devo colocar este seu amigo arbusto porque hoje não estou disposto a ficar dançando com galhos no ombro pra lá e pra cá...entendeu?

Com a voz calma e envolvente, o Menino esclareceu:

-  Não, Seu Simão, é só para colocar ele ali em cima das esteiras dentro do caminhão...

O Velho, que tinha pressa em se livrar do Menino, abraçou o tronco e o ergueu até o ombro quando Yarlen o puxou pela perna da calça e pediu:

-  Seu Simão...faz aquela ...cambalhota...

O velho voltou o tronco à sua posição inicial para começar a pedido do Menino, tudo de novo. Respirou fundo e não deixou de observar consigo mesmo:

-  Porque... tinha que ser comigo?

E abraçando novamente o tronco, ergueu-o, virando-o para posicioná-lo corretamente no ombro, dando-lhe a chamada “cambalhota”.  O Menino gostou. 

O Sr. Simão levou o artilheiro até o caminhão. No momento em que voltava, O Sr. Lopes, que correu apressado e tentando impedir sua colocação no  caminhão,  advertiu:

-  Ei...não pode colocar esta árvore aí...ainda não está decidido...

Segurando o tronco no ombro, Seu Simão de forma ríspida respondeu:

-  Moço...o que aquele Garoto, ali, quer...já está decidido.

O Sr. Lopes tentou mostrar autoridade...

-  Não...não...nada disto... – E se posicionou na frente do Lenhador.

O Velho estava muito enfezado:

-  Olha aqui, seu gorducho...alguém vai ter que levar o amigo daquele garoto e não vai ser eu que vou carregar isto nas costas... - E já suando pelo peso, concluiu: - E tem mais... este pedaço de árvore, que tem me perseguido, está escorregando do meu ombro e se o senhor não quer que ele atinja esta sua careca, é melhor se afastar.

O Apontador, com a cara fechada, achou melhor não arriscar sua proeminente careca e por pura precaução, se afastou.

O Velho logo desfez a cambalhota e o tronco foi parar em cima das esteiras que substituíam a tradicional cama na casa do pequeno Yarlen.

O Menino, que estava quase esbofeteando o gordo Apontador, agora ficara mais calmo, justamente no momento em que Dona Eliana voltava com a decisão e foi logo comunicando ao Apontador:

-  Está confirmado! O Comandante ordenou que o Senhor leve todos os pertences do Menino.

-  Mas este pertence não pertence ao Menino, pertence a floresta! – Tentou argumentar Ivan Gordo, coçando a cabeça.

-  Nada disso! Este pertence ao Menino! – Finalizou a Assistente.

Encostado junto à carroceria do caminhão, o velho Simão, que acompanhava a discussão, levou a mão ao bolso do velho paletó, retirou sua inseparável garrafinha e ao perceber que não era notado,  destampou-a e complementou aquele estranho diálogo, falando consigo mesmo:

-  He, he, he ... Meu medicamento me pertence...  He, he, he.

E ingeriu todo o seu conteúdo.

Junto ao caminhão, meio emburrado, mas tendo noção de que seus futuros contratos com a RFFSA dependiam do aval da Assistente Social, Ivan Gordo indagou folheando sua prancheta:

-  Que nome vou dar a este espantalho?.... - E reclamando da caneta que falhava, rabiscou na folha da prancheta enquanto repetia de forma irônica:

-  Uma... árvore velha.

Seu Simão, que acompanhava a decisão por cima do ombro do Apontador, olhando suas anotações, coçando a barbicha, perguntou:

-  Que o Sr. Anotou aí no seu papel? Eu não consigo enxergar sem os meus óculos...

A vaidade do Velho não o deixou admitir o analfabetismo, tentando atribuir sua dificuldade aos óculos que jamais usara.

-  Coloquei... uma árvore! – Disse o Responsável.

-  Não! - Disse em tom alto o velho.

-  Não...não....não...risque isto....Ele fica uma fera quando se dá outro nome ao amigo dele! Coloque aí no seu papel...coloque assim: “Tronco Goleador”.

-  Raios! Ainda tem essa?-  Resmungou o gorducho incomodado pelo olhar atento de Dona Eliana.

O Apontador riscou o que escrevera e na linha de baixo, colocou: Tronco goleador! Terminara de colocar a última letra quando Yarlen ouviu, veio correndo e foi logo corrigindo.

-  Não é Goleador... é Artilheiro....!

Ivan, pensando que fosse simples se livrar do Menino,  afirmou:

-  ...É tudo a mesma coisa...!

-  Não é, não!.....! - Gritou o menino enquanto puxava as pernas do gorducho.

O Sr. Simão levou a mão à boca e, encostado ao caminhão, ria enquanto dizia:

-  He, he, he...eu já passei por tudo isto.. he, he, he...

O Apontador, preocupado com a presença marcante da Dona Eliana, se deu por vencido....riscou novamente com raiva a folha, puxou uma seta e  escreveu na linha de baixo:

-  “Tronco Artilheiro”. - Somente quando terminou de soletrar a última sílaba, o Menino largou suas pernas.

O Apontador coçou mais uma vez a careca e resmungou consigo mesmo:

-  Está ficando muito difícil trabalhar por aqui!

Missão cumprida, o Sr. Simão, virando-se para o Menino, disse:

-  Bem, Filho, um abraço... é uma pena que nós não iremos nos encontrar mais, he, he, he – Afirmou com indisfarçável satisfação e ironia enquanto chamava para seguir destino Bugre, o filhote, que mantinha distância da cena.

-  VAMOS SIM! – Respondeu entusiasmado o Menino.

O Velho quase desaba com o que ouviu e virando-se para o Menino, perguntou:

-  O QUE DISSE FILHO???

- Nós também vamos ficar...

A mãe do Menino se aproximava e concluiu a afirmação:

-  É sim, Sr. Simão, nossa transferência foi cancelada...

-  SANTO DEUS! – Resmungou o Velho desta vez em tom mais que audível, enquanto tirava seu velho boné da cabeça.

-  Quer dizer que vocês ficarão por aqui também...???

-  Sim, a RFFSA nos arranjou uma casa lá no Beco da Serra...

O Velho parecia desesperado.

-  Não é preciso dizer, Dona...Já sei que foi este Menino que conseguiu isto, não foi ?

-  Foi ele mesmo! – Disse a Mãe com visível orgulho.

-  Dona, se este seu filho algum dia lhe perguntar o que deve ser quando crescer, a Senhora diga para ele ser Político. - Ele convence qualquer um de qualquer coisa! - Com licença... eu tenho que resolver um assunto urgente... muito...muito importante... – O Velho abandonou o local, indo apressado na direção da Assistente Social que acabara de liberar alguns caminhões, iniciando oficialmente a remoção dos moradores para o novo local.

-  Dona... Dona...- Disse esbaforido o Lenhador, cercando a Assistente  no caminho.

-  Preciso falar urgente com a Senhora em particular...

-  Pois não, Sr. Simão...algum problema?...o senhor parece assustado...parece que viu um fantasma...!

-  ...É pior, Dona...bem pior que um fantasma... – E afastando-se com a Assistente, esclareceu:

-  ...É aquele Menino lá...Dona. - Acabo de ser informado que ele também irá para o Beco...isto é verdade? – Indagou com os olhos esbugalhados.

-  É sim...conseguimos acomodá-los por aqui mesmo...

-  Santo Deus ! – Exclamou o velho tirando o chapéu.

-  Dona...por favor, me faça um grande favor, lá no Beco, a Senhora me coloque longe, bem longe, muito, mais muito longe daquele menino...

Dona Eliana sorriu e tentou argumentar:

-  Coitado, Sr. Simão....O Menino parece gostar muito do Senhor...

Meio sem jeito, mas levado pelo temor, o velho Simão prosseguiu:

-  Eu sei Dona...eu sei... eu até gosto deste Menino, mas Santo Deus! ...Ele só me mete em encrenca, Dona e é uma atrás da outra, ora, ora, ora! - Eu não tenho mais idade para viver sobressaltado.... - E outra coisa, Dona...sempre....sempre que encontro este Menino, meu estoque de medicamentos acaba rapidamente...

A Assistente sorriu novamente enquanto procurava em seu bloco a folha relativa ao lenhador. Ao encontrá-la, iniciou algumas anotações.

-  Deixa eu anotar, Sr. Simão, aqui está, quadra 42, lote 18, deixar afastado da família Yarlen. Motivo: Saúde. - Está bem, Sr. Simão vamos ver o que podemos fazer pelo Senhor... - Ah! A propósito...depois o Senhor me procura, talvez eu consiga lhe arranjar alguns remédios.

-  Remédios??? – Perguntou espantado o velho traído pela própria terminologia.

-  Sim...seus medicamentos !!! – Concluiu a Assistente desconhecendo o linguajar do Velho. - O Senhor os toma regularmente?

-  Como...???

-  Quero dizer...o Senhor toma seus remédios muitas vezes?

-  Ah! sim! Tomo... por exemplo, de hora em hora...tomo também sempre que lembro deles e quando acontecem coisas... sobrenaturais...

-  Coisas sobrenaturais??? – Espantou-se  a Assistente.

-  Esse Menino, por exemplo, Dona, é algo sobrenatural e me faz tomar uma dose extra....He, he, he...

A Assistente tentava entender porque alguém que precisa tomar tantos medicamentos ainda conseguia achar graça disto e despedindo-se do Velho, deu continuidade ao seu trabalho. 

O Velho, apreensivo, gritou por Bugre, o filhote que o aguardara do outro lado da estrada de barro vermelho. Temendo mais encrencas, Sr Simão preferiu nem olhar para trás.

Vendo que o Cãozinho seguia-o junto às suas pernas, puxou logo um diálogo:

-  Viu isto, Bugre? Queriam nos deixar de novo ao lado daquele Menino!

O Cãozinho freiou bruscamente e, como se entendesse a desagradável situação, empinou suas orelhinhas e deu seu costumeiro latido estridente enquanto olhava atento para velho, que prontamente respondeu:

-  Não adianta, Bugre, eu já falei com ela. Vamos embora!

O Velho temia conviver em constante encrenca sendo novamente vizinho do pequeno Yarlen e Bugre nunca esquecera o Menino que demonstrara não ter nenhuma paciência com filhotes. Ao som do ronco dos motores, diante da estrada totalmente empoeirada pela movimentação dos caminhões, seguiram em silêncio cada um com sua específica  preocupação.

Apenas o caminhão com os pertences da Família do Menino ainda restava partir. Aproveitando o momento de certa calma, a Assistente repousou o olhar sobre o menino que, sentado no chão de frente para o caminhão, mantinha a fiel guarda ao seu polêmico amigo inanimado, segurando com grande satisfação sua bola plástica azul, presente que a própria Assistente lhe dera naquela manhã e que certamente substituiria sua antiga e surrada bola de meia.

Dona Eliana fez uma rápida análise dos pertences daquela família sobre o caminhão e repousando novamente o olhar sobre o Menino, comprovava ali um grande exemplo de dedicação e apego às coisas bem simples e trazendo de volta seu olhar, ergueu-o bem alto, acomodando-o por sobre as lindas colinas locais antes que a emoção sufocasse seu peito e as lágrimas inundassem seus olhos.


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