A Solenidade


Os trabalhadores concluíram, antes do início da tarde daquele sábado, os últimos retoques do palanque estrategicamente montado próximo ao Lago para a Solenidade, anunciada durante três dias através de um velho carro com um barulhento auto-falante em cima. Estariam presentes o Superintendente da Rede Ferroviária local, o Repórter do Jornal “A Gazeta da Serra” e como não poderia faltar, o Prefeito e seus Assessores, alguns Militares, diversos Políticos e até propensos  candidatos da Região.

Uma grande faixa presa entre duas grandes árvores, centralizada sobre o Lago, saudava e agradecia, em nome da População do Vale do Verde, ao Governo pela chegada do progresso àquela Cidade. No adentrar da tarde, antes mesmo do horário estabelecido, a Banda trazida de uma cidade vizinha abriu o evento tocando o hino nacional e a seguir, conhecidas canções de uma certa dupla de compositores, conhecida pelo prestígio que tinha junto aos militares, cujas canções exaltavam de forma significativa o País.

Bem atento, o Público de aproximadamente trezentas pessoas era  formado em grande parte por amigos dos Políticos, dos candidatos, por parentes e simpatizantes dos próprios coordenadores daquele espetáculo. 

Um Homem escuro com bonita voz tomou o microfone, saudou o público e chamou o primeiro político a discursar, um Vereador, conceituado Fazendeiro da região. Falou muito, enfatizou seu orgulho de ter nascido ali, elogiou a iniciativa e a atenção do Governo com aquele lugar, representando com maestria uma incrível surpresa com o que fora feito em apenas duas semanas de obras. Gesticulando muito, olhava sem parar para os ilustres convidados posicionados na primeira fileira, onde se concentrava a nata da Autoridade local juntamente com o Menino e seus Pais.

A seguir, foi chamado o Repórter Ary Tácito, do Jornal “A Gazeta da Serra” que, rasgando seda, elogiou toda a equipe Coordenadora, principalmente a Superintendência Regional, cuja representação se fazia através do Comandante Walter Capistrano, e começou a falar sobre a Reportagem, feita por ele, sobre um Menino com uma preocupação ecológica jamais vista. Explicou que após a publicação da Reportagem, onde o garoto aparecia numa foto triste, sentado próximo a um improvisado Lago, com a legenda:

“Menino tenta impedir demolição de um velho Lago”. – O Jornal recebeu várias manifestações de apoio ao garoto, assim como inúmeros pedidos para que acompanhasse passo a passo toda aquela história. E inspirado, continuou:

-  Sensibilizados, O Governo, O Prefeito e a Superintendência da RFFSA resolveram homenagear este pequeno gigante da Ecologia, cuja coragem causa-nos inveja. – O Jovem Repórter sentiu vontade de falar muito mais, mas lembrou que apoiava indiretamente o Regime Militar e, talvez pela primeira vez em sua carreira, tenha se sentido pouco à vontade na presença dos seus representantes.

Chamado ao palco, o Superintendente da RFFSA local, o respeitado Comandante, falou pouco, disse apenas que a Rede Ferroviária Federal, proprietária da área necessária ao Projeto qualificada como “Área de Desocupação”, diante do exemplo daquele menino, havia concedido à sua Família o direito de permanecer num local bem próximo, não de forma temporária, mas definitiva! Houve aplausos e, emocionada, a Mãe do Menino chorou enquanto o abraçava forte.

A seguir foi a vez de Moacyr Bastos, o Prefeito, que chamou ao palanque o Menino que não entendia nada do que eles falavam, nem mesmo sabia porque estava sendo tão aplaudido e fotografado. Um assistente reduziu a base do segundo microfone à altura do Menino e o Prefeito, gordo, prendendo a barriga para parecer elegante,  lhe dirigiu a palavra:

-  Jovem... este seu Lago está dando o que falar...

O Menino, sem se importar com absolutamente nada, foi logo perguntando...

-          ...Aquele moço muito grande, ali, vai mesmo enterrar o Lago da Menina...?

Disse com sua característica ingenuidade, apontando seu dedinho na direção do Poderoso Comandante Capristano. Todos riram, inclusive o próprio Comandante,  diante da ousadia do Menino, tratando o sisudo militar de “moço muito grande” e pelo indevido emprego do verbo.

O Repórter riu muito mais que os outros e como se respondendo à inquietação do pequeno Yarlen, disse para si mesmo:

-  Ele ...não é maluco! – e rabiscou numa folha de papel uma  charge nunca publicada,  um sujeito muito alto, com uma enorme pá na mão, jogava terra no Lago, tendo embaixo a legenda:

“Alto Militar enterra o Lago do Menino”.

O Prefeito fez um gesto e um Assistente lhe trouxe um canudo de papel preso por uma pequena fita vermelha. Do microfone, a maior autoridade civil do Vale do Verde tentava explicar ao Menino que sobre o Lago, nada ainda estava decidido, mas que ele, como Prefeito, estava lhe entregando naquela ocasião o título de Guarda Florestal Mirim. Houve fervorosos aplausos e vários flashes de máquinas na direção do Menino, que recebia seu primeiro título. Uma Assistente trouxe uma roupinha, feita às pressas com um emblema e uma  inscrição bordada, meio torta sobre o peito, onde se lia: “Guarda Florestal Mirim”.

Finalmente alguma coisa para suavizar um pouco a tristeza do jovem Yarlen, afinal, ele sempre quisera ser guarda e talvez assim, quem sabe, pudesse vigiar melhor o Lago da sua Amiga. Ao receber sua roupa e seu título, se imaginou, vestido com aquela farda, de braços cruzados para trás, o narizinho em pé, de plantão constantemente sobre o Lago. Disposto  a impedir qualquer um que quisesse se intrometer com o Lago da Menina, mesmo que fosse o Comandante ou o Prefeito. Caso teimassem, desconsiderando sua autoridade, ele mesmo empurraria ambos dentro do Lago. E logo imaginou o Comandante ali mergulhado com suas pernas longas para o alto e o Prefeito Gordo totalmente entalado lá dentro no Lago!


< Anterior    -   Voltar a Evirt    -   Próximo >