Essas Mulheres Maravilhosas...
MULHER
"Mandou , pois o Senhor Deus um profundo sono a Adão; e, enquanto ele estava dormindo, tirou uma das suas costelas, e pôs carne no lugar dela. 22 E da costela, que tinha tirado de Adão, formou o Senhor Deus uma Mulher; e a levou a Adão. 23 - E Adão disse: Eis aqui agora o osso de meus ossos e a carne da minha carne; ela se chamará Virago, porque do varão foi tomada. 24 Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa só carne. 25 - Ora um e outro, isto é, Adão e sua mulher, estavam nus; e não se envergonhavam (porque ainda eram inocentes)."
GÊNESIS 2: 21-25.
Desde que me conheço por gente, tenho sempre escutado que mulher nasceu apenas para pilotar fogão, cuidar dos filhos e das tarefas domésticas. Essa visão machista de aceitar o verdadeiro potencial da mulher felizmente vêm mudando ao longo dos anos e muitos homens que antes defendiam essa idéia medíocre e retrógrada, mudaram de lado e estão até dividindo as tarefas domésticas com quem antes, relutavam sequer pensar em tal possibilidade. Aliás, diga-se de passagem, acho que eles estão saindo-se bem, porque souberam compreender que assim agindo, vão encontrar durante o dia e principalmente a noite, uma esposa descansada e pronta para carinhos. Já no campo profissional, está difícil não encontrar uma área ou setor em que a mulher não esteja presente e atuante. Mas nem sempre foi assim, principalmente a algumas décadas atrás.
Se hoje esse modo de pensar machista ainda persiste, imaginem no passado. Foi muito difícil para a mulher conseguir se impor e se emancipar.
Foi uma luta gradativa e corajosa que durou séculos e que merece ser revista com muito respeito.
Uma das primeiras manifestações femininas
de protesto, foi um texto escrito em 31/03/1776 por Abigail Adams, dirigido a seu marido
John Adams, constituinte norte-americano e depois 2º Presidente dos Estados Unidos, que
dizia:
"...no novo código de leis que vós estais redigindo, desejo que vos lembreis das mulheres e sejais mais generosos e favoráveis com elas do que foram vossos antepassados... Se não for dada a devida atenção às mulheres, estamos decididas a fomentar uma rebelião, e não nos sentiremos obrigadas a cumprir leis para as quais não tivemos nem voz nem representação".
A imprensa feminista teve papel importante nesse cenário e sua ação contribuiu para criar nas mulheres, o sentimento de liberdade incutindo-lhes a importância de lutarem por seus direitos.
Vem da França (Revolução Francesa), Alemanha e Itália as primeiras publicações feministas. O primeiro períodico feminista francês foi o "L Athénée des Dames", surgido logo após a Revolução e escrito por várias damas francesas. Elas, testavam o poder de opinião das suas leitoras conclamando-as a lutarem ao que elas respondiam com cartas dizendo ser a resignação, segundo elas, a melhor maneira de se resolverem os problemas femininos. O periódico foi fechado em 1809, pelo imperador.
Vem também da França, no ano de 1848, a fundação de um jornal diário por Eugénie Niboyet, Désirée Gay e Jeanne Deroin, intitulado "La Voix des Femmes. Seu lema era "Trabalho, Pátria, Família", mas suas publicações eram moralistas ao extremo. Já o jornal "La Politique des Femmes", lançado no mesmo ano, era mais radical e trazia como lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade".
Na Itália, o feminismo acompanhava os movimentos da luta pela independência e isso culminou no nascimento dos jornais "Circolo delle Donne Italiane" e "Un Comitato de Donne".
Na Alemanha, o "Neue Bahnen" que sobreviveu de 1866 até 1920, era dirigido por Augusta Schmidt e Louise Otto-Peters, lutadoras por uma estrutura estatal e jurídica de proteção e organização do trabalho feminino. É nessa época que a palavra "mulher" ganha o lugar de "senhora" e "dama" nos títulos dos jornais.
Um dos grandes nomes do jornalismo e também a primeira mulher a entrar na maçonaria, Maria Deraisme, indignada com a falta de apoio jurídico à mulher, lança em 1869, "Le Droit des Femmes", um semanário também chamado por LAvenir des Femmes" que durante 20 anos, infernizou machões do governo conseguindo a façanha de ver muitas de suas reivindicações transformadas em leis. Suas matérias pediam o restabelecimento do divórcio, a ação de investigação de paternidade, a remuneração do trabalho feminino igual à do masculino, e o direito de se tornarem médicas ou advogadas. Stuart Mill, famoso economista, era articulista desse semanário. (Dados do livro Imprensa Feminina da jornalista e professora da USP, Dulcília Schroeder Buitoni - Editora Ática e também autora do livro "Mulher de Papel".
As sufragetes também lançam o seu jornal: "La Citoyenne" em 1881, lançado por Hubertine Auclert, seguidas pela França com o "La Revue Féministe"; o socialista "LHarmonie Sociale" que mostrava as condições da mulher no trabalho; "LAbeille" informativo dos sindicatos femininos; e "Fémina", a primeira revista ilustrada que teve um início de ouro com grandes matérias e depois acabou ficando superficial e esquecida. Até a Igreja Católica, lançou na época uma revista feminista defendendo os direitos das mulheres: "Le Féminisme Chrétien". Também a Inglaterra, graças ao incansável trabalho das sufragetes Miss Fawcett e Miss Pankhurst, lançou o seu jornal "Jus Suffragii" que em 1913, se chamou "International Women Suffrage News".
O primeiro jornal composto, administrado e distribuído totalmente por mulheres, nasce pelas mãos da jovem atriz da Comédie Française, Marguerite Durand, que adorava escrever crônicas para o "Le Figaro". Feminista, ela lança em 1896, o "La Fronde" com 200 mil exemplares. O jornal até hoje é motivo de estudos por jornalistas por sua organização, formação de editorias, seções diferenciadas, matérias científicas, esportes, receitas, educação numa abrangência nova e inédita na história do Jornalismo. Ficou célebre suas opiniões em defesa do famoso caso Dreyfus. O fim do jornal ocorreu em 1905, sendo revivido de 1926 a 1928 e por ironia do destino, seria derrotado pela própria mulher que tanto defendia. Sua diretora ao perceber que o voto feminino iria ser concedido, fez uma campanha pela elegibilidade das mulheres. Isso decretou o fim do jornal.
Nos Estados Unidos, no ano de 1893, vamos encontrar o jornal "Ladys Home Journal, vendendo 700 mil exemplares. O responsável por tanto sucesso foi o diretor, Edward Bok e sua filosofia de que a mulher deveria ter idéias práticas, uma certa ambição, melhor aparência física e o gosto mais apurado.
Rompendo com o moralismo vigente, o "Lady Home" aperfeiçoou o gosto das americanas pela leitura, pela defesa de seus direitos e pela fiscalização da qualidade em produtos, principalmente oriundos do exterior. Isso ficou provado na atuante participação do jornal condenando os falsos medicamentos que acabaram resultando na lei Pure Food and Drug Act.
O jornal não aceitava veicular publicidade e ia até contra os ditames da moda de Paris. Chegou inclusive a sugerir aos seus leitores em campanha, que os banheiros fossem construídos dentro de casa. Foi também o primeiro jornal a publicar plantas de residências, introduzindo pioneiramente os espaços para a arquitetura e decoração. Em 1904, o "Ladys Home" chegou a marca de um milhão de exemplares; em 1919, tinha a maior tiragem do planeta. Bok sai no mesmo ano e o jornal começa a perder qualidade e leitores.
REFLEXOS CHEGAM AO BRASIL
Enquanto tudo isso acontecia lá fora, as brasileiras, na sua maioria analfabetas e alijadas do espaço público, passaram a lutar por educação e pelo direito ao voto.
Mas para que isso tivesse acontecido, pioneiras e pioneiros indo contra o sistema, começaram a plantar as primeiras sementes da liberdade.
O primeiro periódico feminino brasileiro, segundo o livro "Mulher de Papel", foi o "Espelho Diamantino", lançado em 1827 e que trazia o atributo "dedicado às senhoras brasileiras".
Em 1832, era editado "A Mulher do Simplício" ou a "Fluminense Exaltada", por Paula Brito, um negro, de família humilde que havia deixado o "Jornal do Comércio" para montar sua própria empresa de comunicação.
Nessa época, Recife e São Paulo eram as duas primeiras cidades a abrigar faculdade de Direito, fundadas em 1827. Como eram palco de grande atividade intelectual, surgiu então em Recife, "O Espelho das Brazileiras", talvez o segundo jornal para mulheres. , seguido pelos: "Jornal de Variedades (1835)", "Relator de Novellas (1838)" e "Espelho das Bellas (1841)". É dessa época, o lançamento do primeiro folhetim no Brasil (1838) com a tradução do francês de "O Capitão Paulo" no Jornal do Commercio.
Os cariocas também lançam o "Correio das Modas" (1839-1841), da Casa Laemmert inovando e trazendo farto material ilustrativo da Europa.
No Brasil, após 1850, surgiram as primeiras organizações de mulheres que lutavam pelo direito à instrução e ao voto. Os grandes jornais de então, abriam espaço para a mulher com a "Revista das Modas, dos Teatros, Bailes, Reuniões e outros Acontecimentos da Época".
Depois de longo silêncio, a voz feminina manifestava-se na boca e na pena de Nísia Floresta (1809-1885). Abolicionista, republicana e feminista nascida no Rio Grande do Norte, viveu muitos anos na Europa e em 1832, traduziu o livro "Direito das mulheres e injustiça dos homens", de Mary Wollstonecraft. Era anticolonialista, protestando contra a dominação estrangeira em países como Índia e Argélia. Ardorosa defensora da educação feminina, denunciou a ignorância em que eram mantidas as meninas; protestou contra a condição de dependência em relação aos homens, criada pelo desprezo com que era vista a educação das mulheres.
A baiana Violante Bivar e Velasco foi naquela época "fundamental para o melhoramento social e para a emancipação moral da mulher". O desprezo pela educação feminina abrangia todas as mulheres, senhoras e escravas, a ignorância reforçando ainda mais o isolamento e as limitações da vida feminina. Era preciso tirar a venda dos olhos.
A grande novidade dos acontecimentos europeus, ficava também estampada em nossa imprensa, como o que o jornal "A Estação (1879-1904) prometia aos seus assinantes por 1 ano de assinatura:
"cerca de 2000 gravuras de moda e delicados trabalhos de senhora, 24 lindos figurinos coloridos a aquarela, 12 folhas grandes reproduzindo 300 moldes em tamanho natural e grande número de riscos, monogramas, modelos, etc. O texto, clara e minuciosamente, explica todos esses desenhos, indicando os meios de executá-los de per si; além da parte literária, noticiosa, recreativa e útil escrita especialmente para as leitoras deste jornal".
Em 1873, a professora Francisca Senhorinha da Motta Diniz, mineira, criou em Campanha, Minas Gerais, o jornal feminista "O Sexo Feminino", que colocava assim a questão:
"Não sabemos em que grande república ou republiqueta (...)nasceu o primeiro jornal dirigido por mulheres. O Jornal das Senhoras, tinha por objetivo propagar a ilustração e cooperar com todas as suas forças para que a mulher deixe de ser escrava, e goze de direitos políticos, como o de votar e ser votada. O que é inegável é que em todo o mundo bárbaro e civilizado, a mulher é escrava, domine o governo monárquico, ou o indiferente despotismo".
Ou ainda, dizia:
"Em vez de pais de família mandarem ensinar suas filhas a coser, engomar, lavar, cozinhar, varrer a casa etc. etc., mandem-lhes ensinar a ler, escrever, contar, gramática da língua nacional perfeitamente, e depois, economia e medicina doméstica, a puericultura (...) 10.
Era uma época difícil, e Francisca Senhorinha, já se preocupava com a educação do país, principalmente da mulher, então uma população de 20.071 e entre as quais, apenas 1158 sabiam ler. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1875 e lá, tocou o jornal por dois anos tendo como assinantes nada mais, nada menos do que D. Pedro II e a Princesa Isabel.
Outra mulher que marcou sua época com fibra, foi Josephina Alvares de Azevedo, irmã do poeta Álvares de Azevedo. Ela lançou seu jornal "A Família", em São Paulo em 1888 e posteriormente, no Rio de Janeiro em 1889 cuja vida útil foi até l897. Favorável ao divórcio, Josephina achava absurdo que "no homem residirá sempre o princípio da autoridade". Realizava viagens longas por todo o país, pregando idéias e ideais em defesa da mulher.
QUEREMOS VOTAR!
Foi nos Estados Unidos que ocorreram as primeiras manifestações organizadas em prol dos direitos da mulher, no século XIX. Juntamente com a luta contra a escravidão, explodiu a luta pela libertação feminina. Na Inglaterra, esta luta começa principalmente a partir da década de 1860, quando o economista John Stuart Mill é eleito para o Parlamento e escreve "A Sujeição das Mulheres", dando início a inúmeras petições em favor do voto feminino.
As primeiras iniciativas datam de 1848 quando um grupo de mulheres que, impedidas de participar do Congresso Anti-escravagista de Londres, criaram em Seneca Falls, Nova Iorque, a Convenção dos Direitos Femininos, lançando naquela data histórica a Declaração dos Direitos da Mulher.
Em 1857, aconteceu a primeira greve feminina no mundo. Foi feita pelas operárias têxteis de Nova Iorque e por causa da morte de 159 delas em um incêndio não esclarecido no prédio onde elas se reuniam no dia 8 de março, é que essa data foi escolhida como o "Dia Internacional da Mulher".
Na luta, a França e a Suécia davam o primeiro passo permitindo em 1870, que as mulheres se matriculassem nos cursos de medicina.
A Nova Zelândia é o primeiro país do mundo a permitir o direito de voto em 1893, o que deu um grande impulso ao movimento das sufragetes na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Em 1913, na Inglaterra, a sufragista ou sufragete, Emily Wilding Davison e suas companheiras lutaram para que as mulheres tivessem direito a voto nas eleições da Grã-Bretanha. Para tal, apelaram primeiramente com protestos e argumentações e não conseguindo seus intentos, partiram para atos violentos como tentar incendiar a agência postal da rua do Parlamento e agredir o ministro Lloyd George. Por causa disso, Emily foi presa e em sua cela em Machester, iniciou greve de fome em prol de sua causa sendo quase afogada pelos jatos dágua que os guardas da prisão esguicharam pela janela tentando lavar de seu corpo e mente, tais ideais proibidos. Teimosa, Emily resolveu ir mais longe e fazer mais uma tentativa, desta vez a sua última. Foi em Epson, durante uma corrida em que o cavalo do rei da Inglaterra estava concorrendo. Ela esperou sua aproximação e se atirou sob as patas do cavalo real, sendo mortalmente ferida. Tudo isso para ser notada e ouvida em seus direitos.
Para conseguir o direito de votar, as mulheres tiveram que esperar vários anos em alguns países ditos civilizados: a Dinamarca introduziu o sufrágio feminino em 1915, sendo que nesse mesmo ano, nos Estados Unidos, o Congresso rejeitava a legislação sobre a questão. Só em 1916 vamos ver o Estado de Montana (EUA) eleger a primeira congressista dos Estados Unidos.
Enquanto isso, no Oriente explodia a Revolução Russa e a Constituição Soviética foi mister em equilibrar os direitos das mulheres, reconhecendo a materindade como função social; descriminalizando o adultério; legalizando o aborto e o divórcio e igualando os salários com os homens.
Nos Estados Unidos era eleita a primeira mulher governadora no Estado do Wyoming em 1924.
Votar mesmo, as mulheres só puderam à partir de 1920, com a 19º Emenda à Constituição. Finalmente, em 1918, a Inglaterra permitiu o direito de voto às mulheres de mais de 30 anos e dez anos depois, incluiu mulheres maiores de 21 anos.
Na França, as mulheres só puderam votar mesmo em 1945, depois da ocupação alemã; na Itália, somente em 1946 e na Bélgica em 1948.
Caberia no Brasil, a exemplo dos demais países do mundo a difícil tarefa de mulheres abnegadas e corajosas, mostrarem que elas estavam presentes e dispostas a tudo para conquistarem um lugar ao sol.
Em 1914, era fundada por Virgilina de Souza Salles, a "Revista Feminina" em São Paulo. Sua circulação aconteceu até 1936 e quem a analisou minunciosamente, foi a jornalista Sonia de Amorim Mascaro em sua dissertação de mestrado "Imagem de Mulher", ECA/USP, de 1982. A revista têve como colaboradores, Olavo Bilac, Coelho Neto, Couto de Magalhães, Menotti del Picchia e as escritoras, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia da Silva e Presciliana Duarte.
Nesta época, lia-se a "Cigarra", "A Senhorita", "A Vida Galante" e a "Revista Ilustrada".
Demorou mas a mulher passou a perder seus medos e a reivindicar à partir da década de 20, uma época em que segundo matéria da "Revista Feminina", "a maquilagem feminina no Brasil resumia-se em moças que esfregavam as faces com papel vermelho, faziam uma pintinha preta com um grampo esfumaçado em chama de vela e simulavam olheiras esfregando carvão moído em volta dos olhos".
A primeira porta-voz foi Leolinda Daltro, pioneira do feminismo no Brasil e fundadora da primeira Escola de Enfermeiras da Nação.
Em 1922, outra mulher, Berta Lutz, fundava no Rio de Janeiro a "Federação Brasileira pelo Progresso Feminino" para reivindicar entre outras coisas o direito ao voto da mulher brasileira. Berta, logo após a Primeira Grande Guerra, começou sua luta. Nascida em São Paulo-SP em 1894, zoóloga por profissão, marcou época ao concorrer em 1919 ao cargo de secretária do Museu Nacional do Rio de Janeiro, numa época em que o funcionalismo público nem sonhava com a presença de mulheres em suas fileiras. Com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, Berta Lutz conseguiu entre outras coisas, tornar oficial o Dia das Mães, o Dia das Crianças e o Dia da Paz, conseguindo também que o Externato do Colégio Pedro II, no Rio, fosse aberto ao ingresso de meninas. Realizou o primeiro Congresso Feminista do Brasil e fez constantes gestões à OIT (Organização Internacional do Trabalho) sempre buscando soluções para a causa da mulher. Publicou "A Nacionalidade da Mulher Casada" em 1933, defendendo os direitos jurídicos da mulher. Nos Estados Unidos, como presidente da União Interamericana de Mulheres, pediu garantias trabalhistas para a mulher operária e participou naquela ocasião do Congresso Pan-Americano da Mulher, realizado em Baltimore. Em 1934, ela dizia:
"Uma candidatura feminista (...) tem que lutar muito para se impor ao ambiente ainda um tanto rebelde e hostil. (...) A mulher (...) não possui (...) a experiência que advém do manejo da complicada engrenagem eleitoral".
Derrotada nas eleições, Berta foi convidada pela única mulher que conseguira se eleger, Carlota Pereira de Queirós, para, juntas, elaborarem uma mensagem para a Constituinte de 1934. Foi finalmente eleita deputada em 1936.
Na mídia, circulava a revista "A Scena Muda" que desde 1921, ao lado de a "A Cigarra", vinha empolgando as leitoras com cultura cinematográfica e resumos de filmes, percursores da foto-novela.
Em 1928, é lançado "O Cruzeiro" com grande divulgação para se tornar a maior revista ilustrada brasileira.
Mas as duas faces de Eva ainda estavam pôr vir. Nas Revoluções de 30 e 32, a mulher teve participação ativa e organizada formando comitês, auxiliando nas fábricas ou colaborando com o esforço de guerra.
Era o fim do velho e arcaico fogão a lenha e a chegada do fogão a gás, dos aparelhos domésticos como o ferro de passar e a geladeira. O tempo ganho com a chegada dessas jóias da evolução industrial, permitiram a mulher dedicar uma parte do seu tempo à leitura, ao trabalho extra em indústrias e no comércio.
O rádio também trazia informações ao "belo sexo" e todas as mudanças para uma vida moderna. Crescia o trabalho de professoras, enfermeiras, datilógrafas, funcionárias públicas e telefonistas.
Em 1931, no Recife, era formada a "Cruzada Feminista Brasileira", que buscava entre inúmeras coisas, reivindicar o direito de voto ao lado da F. B. P. F de Berta. Elas ainda engatinhavam na luta e é dessa data um artigo publicado na revista "Cigarra", que divulgava uma conferência machista proferida pelo Dr. Fernando de Magalhães em que ele afirmava que "a natureza é contrária à participação ativa da mulher na vida pública, porque a destinou para ser esposa e mãe".
O que acontecia no exterior, principalmente as conquistas femininas, encontrava grande repercussão no Brasil, fazendo com que o Governo Provisório da República Nova acatasse algumas das reivindicações feministas. O direito de voto às mulheres é concedido em 1932, mas a verdade é que o Nordeste já era pioneiro desde 1928, pois o Rio Grande do Norte, já havia permitido o direito de voto e a candidatura de mulheres, o que possibilitou que a cidade de Lajes-RN, elegesse a primeira prefeita da América do Sul: Alzira Soriano.
É à partir do ano de 1934 que a participação feminina na política se acentua. O interesse feminino ganha força junto a Constituição de 1934, com vários artigos reafirmando a regulamentação do trabalho feminino nos decretos-leis de 17 de maio de 1932. Ficava estabelecido "sem distinção de sexo, a todo o trabalho de igual valor corresponde salário igual; veda-se o trabalho feminino das 22 horas às 5 horas da manhã; é proibido o trabalho à mulher grávida durante um período de quatro semanas antes do parto e quatro semanas depois; é proibido despedir a mulher grávida pelo simples fato da gravidez".
Neste processo constituinte (1933) havia 40 deputados classistas e dentre estes figurava também uma mulher, a trabalhadora Almerinda Farias Gama, representante do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos e da Federação do Trabalho do Distrito Federal.
Em 1934, São Paulo elege a primeira deputada federal, Dra. Cartola Pereira de Queirós. Abaixo, o discurso que ela proferiu em 13 de março do mesmo ano e que faço questão de reproduzir na íntegra, tanta é minha admiração pelo trabalho dessa pioneira:
"Além de representante feminina, única nesta Assembléia, sou, como todos os que aqui se encontram, uma brasileira, integrada nos destinos do seu país e identificada para sempre com os seus problemas. (...) Acolhe-nos, sempre, um ambiente amigo. Esta é a impressão que me deixa o convívio desta Casa. Nem um só momento me senti na presença de adversários. Porque nós, mulheres, precisamos ter sempre em mente que foi por decisão dos homens que nos foi concedido o direito de voto. E, se assim nos tratam eles hoje, é porque a mulher brasileira já demonstrou o quanto vale e o que é capaz de fazer pela sua gente. Num momento como este, em que se trata de refazer o arcabouço das nossas leis, era justo, portanto, que ela também fosse chamada a colaborar. (...) Quem observar a evolução da mulher na vida, não deixará por certo de compreender esta conquista, resultante da grande evolução industrial que se operou no mundo e que já repercutiu no nosso país. Não há muitos anos, o lar era a unidade produtora da sociedade. Tudo se fabricava ali: o açúcar, o azeite, a farinha, o pão, o tecido. E, como única operária, a mulher nele imperava, empregando todas as suas atividades. Mas, as condições de vida mudaram. As máquinas, a eletricidade, substituindo o trabalho do homem, deram novo aspecto à vida. As condições financeiras da família exigiram da mulher nova adaptação. Através do funcionalismo e da indústria, ela passou a colaborar na esfera econômica. E, o resultado dessa mudança, foi a necessidade que ela sentiu de uma educação mais completa. As moças passaram a estudar nas mesmas escolas que os rapazes, para obter as mesmas oportunidades na vida. E assim foi que ingressaram nas carreiras liberais. Essa nova situação despertou-lhes o interesse pelas questões políticas e administrativas, pelas questões sociais. O lugar que ocupo neste momento nada mais significa, portanto, do que o fruto dessa evolução".
Com esse discurso, a voz feminina se fez ouvir pela primeira vez no Congresso Nacional.
Carlota Pereira de Queirós, a autora dessa façanha nasceu em São Paulo, capital em 13/02/1892. Estudou em Berlim e Paris. Era dinâmica e culta, tendo publicado inúmeros trabalhos em defesa da mulher brasileira. Na política, era uma parlamentar ativa em defesa da mulher, das crianças abandonadas, de melhorias na educação e na assistência social. Atuou com várias emendas na Constituição de 1934, destacando a institucionalização do juramento à bandeira para jovens de ambos os sexos. Ocupou a Tribuna até o golpe de 1937, quando Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional.
Em 1935 e 1936, entravam em circulação as revistas "Carioca" e "Vamos Ler", muito apreciadas pelo público feminino.
Outras mulheres se destacaram nessa época, como por exemplo, Generosa Amélia da Cruz, eleita em 1936, prefeita de Santana do Cariri, no Ceará em pleno sertão nordestino onde o machismo era e é tão presente quanto a sêca e a pobreza.
Outra que fez escola foi Maria Lacerda de Moura, mineira de Manhaçu, foi acusada de ser "Anarquista" ( movimento da época originário da Europa que tratarei mais adiante). Maria, foi uma das primeiras mulheres brasileiras à levantar a voz contra o perigo de Mussolini e Hitler. Atacou furiosamente a teoria da superioridade das raças: "Barbárie é suprimir a liberdade de pensamento; é prender, deportar pensadores e cientistas; é fabricar teorias pseudo-ciêntíficas com intuitos políticos, como a da inferioridade das raças; é queimar livros; é fechar laboratórios".
Suas palavras ecoaram fundo na consciência até dos homens mais radicais diante do perigo que estava por vir com o poder do Eixo nas mãos de homens como Hitler, Mussolini e Hiroito. O medo de Maria Lacerda tinha fundamento porque até mesmo Getúlio Vargas estava demonstrando certa simpatia para com a Alemanha, tendo enviado diversos oficiais à aquele país para acompanhar as manobras dos exércitos nazistas e ter feito um discurso favorável ao nazismo à bordo do Minas Geraes.
Nem mesmo as revistas e jornais escaparam da pena de Maria Lacerda que tinha uma revista própria chamada "Renascença" de 1923. Nela, ela dizia:
"As revistas cinematográficas
vieram concorrer mais para a deseducação e as atitudes da mulher, da brasileira pelo
menos.
Dos romancinhos franceses ou das aventuras policiais a menina passou a notícias dos
casamentos e divórcios de Carlitos, às fugas das provincianas se fazendo estrelas,
assuntos teatrais idealizados pelos empresários ávidos de dinheiro, para atrair a
atenção da imaginação rocambolesca das. mulheres em geral e dos medíocres
(Renascença, nº3)"
Maria Lacerda, era antes de tudo uma brasileira que amava a liberdade. Morreu em 1945, depois de ver o mundo mergulhado em chamas, mas em tempo de deixar para a posteridade, suas obras literárias como escritora: "Amai e não Vos Multiplicai" (1932) e Han Ryner e o Amor Plural" (1933), onde aborda novas concepções de sexo e amor "fundamentados no reconhecimento de direitos recíprocos, na arte de saber respeitar a personalidade do outro, em firme apoio mútuo". Também deixou pérolas para a Educação nos livros: "Ferrer, o Clero Romano e a Educação Laica" (l934) e "A Mulher é uma Degenerada" (l932) , onde faz um raio-x da mulher fêmea, mãe ou estéril, em alguns grupos humanos.
Para entendermos um pouquinho mais o que acontecia com as mulheres daquele tempo, basta saber que as informações chegavam pelas telas do cinema via enlatados norte-americanos, ditando moda e costumes, mudando concepções e exibindo homens e mulheres belíssimos, bem vestidos, com figurino sofisticado e gozando a vida de forma diferente, intensa e fascinante. Encantadas, as mulheres brasileiras respondiam à altura dirigindo seu próprio automóvel, fascinadas pela presença no país da piloto francesa Hellé-Nice que acabara de chegar ao Brasil para competir em uma corrida onde só os homens detinham tal privilégio. Nas praias, poucas arriscavam uma nudez mais insinuante, mas o fenômeno crescia e acompanhava o que acontecia lá fora, conforme relata Carolina Nabuco:
"Os modelitos ousados dos maiôs, mostravam apenas os ombros e as coxas".
Já na esfera das realizações, a coisa começava a caminhar, mas ainda imperava um certo medo e poucas mulheres tinham coragem em tocar em temas considerados tabus como o divórcio, por exemplo.
No esporte, a nadadora Maria Lenk, era a primeira atleta brasileira a participar das Olimpíadas. Em Berlim, em 1936, nova presença do sexo frágil com Piedade Coutinho.
Pela primeira vez, a mulher aparecia em público fumando. Agora ela freqüentava boates e cassinos, embora na família os padrões patriarcais estivessem ainda muito fortes e enraizados com os pais ainda escolhendo o dote para as filhas.
Nas artes, despontaram nomes como das poetisas, Rosalina Coelho Lisboa e Ana Amélia Queirós Carneiro de Mendonça; prosa: Gilka Machado, Eneida de Morais, Patrícia Galvão e Raquel de Queirós; pintura: Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.
Na Imprensa, abriam-se os espaços para a mulher com as seções femininas "Consultório da Mulher" e "Página de Eva", da Revista da Semana.
Um mês após o Zepelim ter vindo ao Brasil e João Pessoa ter sido assassinado, é a vez da mulher roubar a cena: Rio de Janeiro, agosto de 1930, sede do Concurso Internacional de Beleza, tudo levava a crer que a vencedora seria a representante de Portugal, mas, o mundo foi obrigado a ser curvar diante da beleza da mulher brasileira. Yolanda Pereira, gaúcha, dava ao Brasil pela primeira vez, o internacional título de Mis Universo. Um jornalista da época, assim registrou o acontecimento: "Não foi apenas, a vossa beleza que venceu, Yolanda Pereira, e que vos fez universal como Einstein e tão cheia de glórias como Lindenberg (...). O que venceu convosco, Miss Universo, foi a graça radiosa da mulher brasileira".
Estamos no ano de 1940 e o sucesso na mídia é total por parte das revistas "O Cruzeiro", "A Cigarra" e "Carioca". A nova metodologia de ilustrações com muitas fotos, estilo ágil acompanhando todos os acontecimentos semanais marcava o sucesso da primeira. Já "A Cigarra", primava pelos textos longos, muita literatura e assuntos culturais e dava menos importância ao assuntos do momento. Já a "Carioca" mostrava o seu lado forte em cinema e rádio. Todas elas, traziam na nova realidade, grandes espaços reservados aos temas femininos.
Chegamos então ao período da fotonovela que já era a coqueluche na França com o sucesso da revista "Confidences", de 1938. No Brasil, essa novidade entraria pelas páginas da revista "Grande Hotel", da Editora Vechi em 1947, primeiramente com histórias de amor e após 1951, com fotonovelas propriamente ditas.
A grande imprensa feminina se concretiza finalmente no Brasil à partir de 1952 com o lançamento da revista "Capricho" da Editora Abril, com o lema "a revista da mulher moderna". A consolidação se dá mesmo em 1958, com o lançamento da revista "Sétimo Céu", da Editora Bloch que já vinha colhendo os louros do sucesso com a "Manchete", lançada em 1952.
Em anos mais recentes, outras conquistas foram a público com o lançamento de duas importantes e fundamentais obras literárias, o livro "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir, onde ela estudava o desenvolvimento psicológico da mulher e os condicionamentos de sua socialização que a tornam alienada e treinada para ser apenas um apêndice do homem. Ficou famoso o refrão "Não se nasce mulher: torna-se mulher". O segundo, também marcante é o livro "A Mística Feminina" lançado em 1960 por Betty Friedan que marca o surgimento do movimento feminista americano de forma organizada e radical, que repensou a condição da mulher, influenciado principalmente por tudo o que aconteceu em termos de mudança no comportamento trazidas pela revolução sexual das décadas de 60 e 70; o crescimento do movimento negro americano e os protestos contra a guerra do Vietnam. As mulheres se valiam de suportes escritos de Kate Millet, Germaine Greer, Gloria Steinem, Shulamith Firestone, Juliet Mitchell, Shere Hite, Evelyn Reed, Sheila Rowbotham, Simone de Beauvoir, Annie Leclerc, Benoite Groult, Elena Belotti, Maria Antonietta Maciocchi e Sara Iribarren.
A ONU foi o grande palco onde os direitos da mulher viraram resoluções. Em 1954, aconteceu lá a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher; a Convenção sobre a Nacionalidade da Mulher em 1958; a Convenção sobre Consentimento, Idade Mínima e Registro de Casamento em 1964.
Um ano antes, enquanto tudo isso acontecia, a cosmonauta Valentina Terechkova, primeira mulher no espaço, dava 48 voltas ao redor da Terra a bordo da nave russa Vostok.
Quatro anos antes, em 1960, o Ceilão, elegia a primeira mulher a se tornar chefe de Estado, Sirimavo Bandaranaike; e seis anos depois, em 1966, a segunda mulher, Indira Gandhi (1917-1984), na India e também a terceira, Golda Meir, em Israel em 1969.
O ano de 1975 é escolhido como o "Ano Internacional da Mulher", sendo criada a Comissão da Situação da Mulher, com o objetivo de promover a igualdade entre os sexos, e assegurar a plena integração da mulher nos esforços pró-desenvolvimentistas.
No Brasil, o Ano Internacional da Mulher foi um importante marco no ressurgimento do feminismo. Debaixo de regime militar, com as liberdades democráticas cerceadas, a iniciativa da Nações Unidas propiciou às mulheres brasileiras um espaço de discussão e organização. No Rio de Janeiro, um grupo de intelectuais, estudantes universitárias e donas-de-casa articulou as comemorações que culminaram com a fundação do Centro da Mulher Brasileira (CMB), primeira organização do novo feminismo. Logo a seguir, na cidade de São Paulo, outro grupo de mulheres montou o Centro de Desenvolvimento da Mulher Brasileira (CDMB).
Também sob os auspícios das Nações Unidas, aparece o Movimento Feminino pela Anistia (MFA) unindo a luta pela democratização do país com a discriminação específica de gênero. Em função do MFA, é lançado o jornal "Brasil Mulher" , ainda em 1975. Porém, o primeiro periódico a se apresentar como feminista foi o "Nós Mulheres" , que afirmava a opressão sexual da mulher.
O período de 1975 até 1984 foi declarado como a Década Internacional da Mulher.
Em 1980, aconteceu a Convenção para a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e no mesmo ano, aconteceu em Copenhague, a II Conferência Mundial sobre a Mulher, que apontou que as mulheres constituem metade da população mundial , mas são responsáveis por 2/3 das horas trabalhadas no mundo, obtendo somente 10% da renda mundial, e possuindo apenas 1% das propriedades. Entre os analfabetos, 2/3 são mulheres e, na média mundial, os salários dos homens são de 60% a 40% superiores aos das mulheres que exercem igual função.
No bloco antes comunista, a situação não era diferente, apesar das garantias constitucionais. Na URSS, as mulheres representam 52% da força de trabalho, e são mulheres 70% dos médicos e professores; mas 70% da mão obra não qualificada são de mulheres. Na Polônia, 52% dos médicos, 85% dos farmacêuticos e 80% dos dentistas são mulheres, mas sua participação nos cargos decisórios é pequena, e no governo, insignificante.
No início dos anos 80 (fonte: Gabinete Home de Marta Suplicy), havia inúmeros grupos de mulheres espalhados pelo Brasil, num amplo leque de posições feministas, constituindo um movimento de mulheres brasileiras. Este movimento alcança as mulheres trabalhadoras, que passam por sua vez a organizar dezenas de encontros. São metalúrgicas, químicas, trabalhadoras em geral, que, despidas das diferenças, se descobrem mulheres, oprimidas, mas que se desejam autônomas na sua luta específica em relação aos partidos políticos, aos homens e ao Estado.
A premência de se atuar contra todo tipo de violência da qual é vítima a mulher emerge como idéia no Encontro Feminista de Valinhos (junho de 1980, São Paulo) com a recomendação da criação de centros de auto-defesa. Quem ama não mata. É então que o SOS-Mulher ganha fôlego, traduzindo-se na criação das Delegacias Especiais para Atendimento de Mulheres Vítimas de Violência (DEAMs). A primeira é implementada em 1985 em São Paulo e rapidamente várias outras são implantadas em outros estados brasileiros.
A lenta chegada ao estado de direito no Brasil, após a anistia em 1979, culmina no início dos anos 80 com uma maior participação política na sociedade brasileira e um grande chamamento à atuação das mulheres. O que fazer, então? Continuar nos movimentos sociais, entrar nos partidos e disputar as eleições? Em 1982, nas eleições diretas para os governos estaduais, o movimento de mulheres atua e em vários estados é elaborada uma plataforma feminista submetida aos candidatos. O nome cunhado pelo movimento feminista do Rio de Janeiro acabou ganhando o país e o Alerta Feminista virou uma tradição.
Passada a eleição, os avanços se manifestam na criação, em 1983, nos estados de São Paulo e Minas Gerais (neste estado de forma diferente do paulista), de um órgão para traçar uma política pública para as mulheres: o Conselho Estadual da Condição Feminina.
Com a Nova República (1985), essas experiências estaduais são alçadas a nível federal, com a aprovação, pela Câmara Federal, do projeto de lei nº 7.353, que estabeleceu o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM). Sua finalidade era a formulação de políticas com vistas à eliminação da discriminação contra as mulheres. O Conselho teve uma atuação marcante na campanha da Constituinte de 1988, através do chamado Lobby do Batom, na área dos direitos reprodutivos e no combate à violência contra a mulher.
Em 1989, o CNDM foi desestruturado e o Governo Collor colocou uma pá de cal no que restou ao tirar a autonomia financeira e administrativa do órgão. Todavia, no embalo do sucesso do CNDM (1985/1989), multiplicaram-se conselhos estaduais e municipais em dezenas de estados e em alguns municípios. Uns, fruto da demanda local do movimento de mulheres, outros de caráter eleitoreiro, todos, no entanto, funcionando precariamente.
Nos tempos atuais, grandes brasileiras surgiram e estão escrevendo seu nome na história da luta feminina, como Rita Camata; Marina Silva, que tive o prazer de conhecer em Curitiba, quando ali estive como enviada especial para a cobertura do III Fórum Nacional das Primeiras Damas e Administradoras Municipais e cuja luta em favor da Amazônia e de Chico Mendes, merece todo o nosso respeito; Benedita da Silva, uma mulher atuante e dinâmica e uma voz forte em prol do movimento negro e Marta Suplicy, a quem dedico um capítulo especial neste livro.