Quem cunhou a expressão estereotipada "sexo frágil", não devia ter tido nenhum conhecimento sobre a mulher e principalmente as histórias de algumas meninas que pintaram o sete por esse mundo de Deus.
Vem da China, a história da guerreira Liang Hongyu, uma concubina que entediada com a vida promiscua em que vivia, lutou disfarçada de homem contra o tártaros.
Tivemos na França, Joana DArc que lutou pela libertação da França e acabou sendo queimada numa fogueira, acusada de bruxaria.
No Brasil, Maria Quitéria que lutou bravamente pela Independência e Maria Úrsula de Abreu Lencastre que em 1700, entrou para a armada portuguesa com o nome de Baltasar. Lutou em grandes batalhas e chegou a ir a Goa e Moçambique. Casou com um capitão e mesmo tendo sua identidade descoberta, recebeu honras de D. João V. Por falar em Portugal, lá também tivemos outra heroína, Antônia, que também disfarçada sob a alcunha de Antonio Rodrigues, fugiu de casa em 1600 e lutou bravamente com as tropas masculinas sendo homenageada por Felipe II.
Essas histórias ou lendas, influenciariam o grande escritor Guimarães Rosa em sua obra imortal "Grande Sertão Veredas", onde ele eternizou a personagem Diadorim; e também o escritor Reinaldo Santos Neves no recente trabalho "Donzela que vai à guerra e a vontade de comer" onde mulheres disfarçadas em homens são o centro do tema que encanta e continua encantando gerações.
Embora a maioria tivesse se destacado por atos e ações corajosas mas resolvidas com diálogo e inteligência, também tivemos meninas levadas que resolveram abraçar causas em que se propuseram a matar ou morrer para levar adiante seu ideal, como foi o caso das mulheres guerrilheiras que lutaram na Guerrilha do Araguaia, movimento de luta armada ocorrido entre 1972 e 1975, entre as quais destaco: Maria Lucia Petit, Luzia Reis, Sonia e Enedira Rezende e tantas outras na guerrilha urbana.
Também tivemos mulheres que mancharam a nobreza da nossa causa com atos repugnantes, frios e desprovidos de qualquer sentimento ou amor pela vida humana.
Coragem e romantismo se confundem na história de Maria Bonita e Dadá, cangaceiras do sertão nordestino e tão valentes quanto um homem e capazes de enfrentar vários deles em luta.
Entre elas, nada mais justo também do que render nossa feminina homenagem às heroínas anônimas que tiveram seu ato de coragem pouco ou nada, divulgado. Como o da maior opositora ao nazismo, Sophie Scholl, uma jovem que permaneceu na Alemanha e lutou contra Hitler, durante a Segunda Grande Guerra.
Difícil de entender foi o rumo da vida de Winnie Mandela, esposa de um dos maiores estadistas africanos, Nelson Mandela. No princípio, lutou contra o apartheid e pela libertação do marido. Depois, já no poder, traiu o marido e usou de violência e seqüestro que levou à morte um estudante.
Nada contra as liberais, mas Simone de Beauvoir escandalizou o mundo ao compartilhar amantes com o marido e filósofo Jean-Paul Sartre e levar uma vida nada convencional. Seu livro "O Segundo Sexo", lançado em 1949, como já dissemos, é considerado um divisor de águas na questão da mulher.
No Brasil, um prêmio de coragem para Dora Vivacqua, nascida em Cachoeiro de Itapemirim - Espirito Santo em 21 de fevereiro de 1917. Atriz e dançarina que teve a coragem de fundar no Brasil, a Ilha do Sol, o primeiro núcleo naturista, já com o nome que ficou nacionalmente conhecida: Luz del Fuego.
Que dizer da famosa Lorena Bobbitt que ao descobrir a traição do maridão, não pensou duas vezes, pegou uma faca e decepou-lhe o penis jogando o falo na rua ao que ele conseguiu achar e reimplantar.
Outra que causou revolta no Brasil, foi Paula Thomaz, que juntamente com o marido e ex-ator, Guilherme de Pádua, matou a golpes de tesoura, a atriz Daniella Perez.
Para quem gosta de emoção, sensacional é Margarete Zelle ou Mata Hari, espiã e bailarina holandesa que conquistou a Europa com sua dança erótica no início deste século. Seu erro foi espionar a serviço dos alemães durante a Primeira Guerra; descoberta, foi fuzilada pelos franceses.
Mas tivemos também aquelas que venderam a alma ao diabo. Me refiro a maquiavélica Tonya Harding, que para garantir sua vitória sem concorrência nas Olimpíadas de Inverno de 94, deu ordens para que sua concorrente, a campeã Nancy Kerrigan fosse golpeada na perna com uma barra de metal ou a cineasta Leni Riefenstahl, que trabalhou exclusivamente para Hitler dirigindo os filmes que criaram aquela imagem de deuses aos nazistas ou pior ainda, Susan Smith, que em 94, assassinou seus dois filhos, um de 3 anos e outro de apenas 14 meses, empurrando o carro em que eles estavam para o fundo de um lago, só porque o namorado rico, não gostava de crianças.
Que dizer então da ex-primeira dama das Filipinas, Imelda Marcos que enquanto seu povo passava fome, ela comprava sapatos e roupas caríssimas. Em seus armários pessoais foram encontrados 3 mil pares de sapatos que ela deixou para trás para fugir do país com o marido deportado.
Outra tirana famosa e maquiavélica foi Elena Ceausescu, ex-primeira dama da Romênia que segundo dizem, apoiou e supervisionou a execução de milhares opositores do governo. Foi fuzilada em 1989 ao lado do marido.
Tivemos também mulheres anarquistas. Todas elas, lutaram e morreram pelo que acreditavam e é essa coragem, que quero explorar, apesar de não comungar com muitas das suas idéias devido é claro à minha formação religiosa e também por ser contra a toda e qualquer forma de violência.
Os anarquistas surgiram na Europa no início do século e sempre foram marcados pelos assassinatos que realizavam, é claro, que os mais extremados e radicais matavam com requintes de crueldade, mas muitos deles, se dedicaram com espírito de sacrifício, à causa dos pobres.
Graças a mídia da época, o anarquista foi descrito de uma forma estereotipada em função dos acontecimentos violentos, sinônimo de caos e destruição. A revista "Blackwoods Magazine", da Inglaterra declarava "O cachorro raivoso é a imagem natural mais próxima dos anarquistas", e o presidente Theodore Roosevelt, também afirmava que o "Anarquismo é um crime contra a raça humana inteira".
Na verdade, os anarquistas tinham seu lado romântico e sua doutrina se fundamentava em figuras como o livre-pensador inglês William Godwin, do socialista francês Pierre-Joseph Proudhon e do pacifista russo Leon Tolstói gigantes do século XIX. Junte-se a isso, os esquemas e proposições utópicas de Charles Fourier e Robert Owen e o individualismo revolucionário de Mikhail Bakunin para que os anarquistas tivessem os ideais de vida comum e os segredos da conspiração clandestina.
Eles reverenciavam também o príncipe Peter Kropotkin, Emma Goldman e Enrico Malatesta O primeiro tinha um apelo forte e trágico: "uma revolta permanente através da palavra falada e escrita, da espada, do rifle e da dinamite".
Como em todo movimento que se preza, a mulher é claro, tinha que estar presente e do outro lado do Atlântico, lá estava ela: Emma Goldman que durante trinta anos foi considerada o flagelo da burguesia americana. Filha de judeus russos pobres, Emma emigrou para os Estados Unidos aos dezesseis anos de idade em busca do sonho americano de liberdade mais justa. Ao chegar em terras americanas, sua surpresa foi grande ao ver o autoritarismo e a opressão impostas pela industrialização americana.
Entrou de cabeça no Anarquismo e juntamente com um grande amigo anarquista, Alexander Berkman, fundou cooperativas e começou seu trabalho de idéias e ideais.
Para vingar a morte de operários de uma fábrica em Homestead, ela participou de uma tentativa fracassada de assassinar o dono da empresa, Henry Clay Frick. Sua participação no atentado não foi comprovada porque ela não tinha dinheiro para a passagem até o local onde o fato se daria, tendo seu amigo Alexander, feito os disparos. Outro mistério que paira sobre ela é o assassinato do presidente McKinley, já que o assassino, Leon Czolgosz, era seu amigo.
Mas, comprovada foi mesmo sua atuação na luta contra a desigualdade e o preconceito. Emma trabalhou como parteira nas favelas de Nova York; lançou um jornal, "Mother Earth" (Mãe Terra); foi pioneira na defesa do controle da natalidade nos EUA.
Sua fama ganhou manchetes e a revista World, em l893, a descreveu como a "nova Joana dArc", mas sua vida sexual como adepta do amor livre, maculou sua imagem anterior descrita pela revista e sua participação ativa no anarquismo acabou por culminar com sua expulsão dos Estados Unidos em 1919, vindo à morrer na França em l940.
Outra mulher que fazia parte do movimento anarquista francês, era Louise Michel, "la bonne Louise" (a boa Luísa) que sempre dava as roupas do próprio corpo quando encontrava um mendigo pelas ruas. Sua ala no movimento pertencia a dos teóricos como Elisée Reclus e Sebastien Faure e ela não comungava com a violência dos radicais do movimento.
Do Anarquismo para o Socialismo, vamos encontrar a mais fascinante das mulheres: Rosa Luxemburgo ,chamada também de a "Rosa Vermelha".
Rosa nasceu na Polônia em 5 de março de 1870 e era filha de madeireiro judeu. Sua iniciação no socialismo aconteceu lá mesmo na Polônia e também foi uma escritora pouco lembrada pelos comunistas.
Suas obras principais foram: "A Acumulação do Capital, Reforma ou Revolução", "Ajuntamento de Massas e Partidos e Sindicatos" e "O Socialismo e as Igrejas o comunismo dos primeiros cristãos".
Ela, depois que conseguiu a cidadania alemã, participou ativamente da II Internacional e da formação do Partido Comunista Alemão. Seu resgate como tema para teóricos e práticos do comunismo voltou a baila com o recente sucesso francês de socialização.
Embora dotada de profundo senso político, economista de carteirinha e materialista ferrenha, não poupava críticas abertas perante o público aos companheiros todas as deficiências que ela via na teoria marxista, da economia ou política.
Participou ativamente da Revolução Russa em 1905 e voltou a Alemanha para lecionar na escola do Partido Social-Democrata, em Berlim. Formou juntamente com Karl Liebknecht, a Liga Espartaquista , que daria origem ao Partido Comunista alemão.
Com a proximidade da grande guerra, opôs-se violentamente, sendo presa várias vezes durante os anos de 1914-1918. No dia 15 de janeiro de 1919, ela e Liebknecht foram presos mais uma vez sob a acusação de promoverem desordens nas ruas da capital alemã. No caminho da prisão, foram atacados por agentes e assassinados.
No Brasil, o movimento anarquista não decolou como resto do mundo. Em 1906, o mais importante jornal anarquista era o "Terra Livre" e ficou famoso um artigo publicado no dia 29 de julho do mesmo ano, de três costureiras Tecla Fabri, Teresa Cari e Maria Lopes:
"(...) E vós, os que sois nossos pais, certamente nos ajudareis, porque não temos força para trabalhar, muitas vezes até às 11 horas da noite! Não deveis falar só quando estamos em casa, mas na cara dos nossos desumanos patrões, cujos negócios crescem dia a dia. Ide à noite protestar, a bengalada, se for preciso, contra esses vilíssimos ladrões! (...)"
Outras revistas anarquistas como "Renascença" e o jornal "A Reacção"; a primeira de 1920 e o segundo de 1932, não decolaram, talvez porque, segundo a jornalista Dulcília Schroeder Buitoni, "mais do que veículos específicos, as vozes feministas ganhavam espaço nos veículos da grande imprensa", tornando inúteis as tentativas dos orgãos alternativos.
Quando a gente assiste ou lê algum filme ou livro sobre a Segunda Grande Guerra Mundial, sabe que Hitler e o Nazismo tiveram muitos opositores, na maioria conhecidos como foi o caso do povo judeu que foi expulso do país antes da guerra e depois dela, brutalmente assassinado em campos de concentração. Outros opositores tiveram fim igualmente brutal no famoso expurgo conhecido como a "Noite das Longas Facas" ou foram cruelmente assassinados pela GESTAPO (Política Secreta). Mas, o que pouco se sabe é que na Alemanha, existiam movimentos clandestinos de oposição ao Nazismo ( Não me refiro aos opositores militares que tentaram por duas vezes assassiná-lo conhecidos como "Conspiradores" e que também tiveram um triste fim) formados por jovens na sua maioria de origem católica que ficaram lá mesmo, na Alemanha em plena guerra combatendo o movimento nazista.
Considerados ilegais, existiam na época o Weise Rose (Rosa Branca) que atuava no interior do país; o maior, Tropa Vermelha de Assalto e a Juventude Católica, esta última conseguiu sobreviver por mais tempo por ter formação religiosa. A Juventude Católica caiu na clandestinidade em 1934.
Em 1935, eles devidamente organizados realizaram uma peregrinação até Roma com dois mil jovens sendo recebidos pessoalmente pelo Papa Pio XI. Em 1939, passaram para a clandestinidade total sendo constantemente atacados pelos jovens da Hitler Jungend (Juventude Hitlerista) com reuniões feitas a noite, sempre às escondidas.
Quando a guerra eclodiu em 1939, os jovens ficaram entre a cruz e a espada, já que o dever falava mais alto para com a Pátria, sendo que a maioria resolveu aderir e ir para o campo de batalha. Mas o Weise Rose, preferiu atacar o mal dentro da própria Alemanha. Formado pelos jovens Hans Scholl e sua irmã, Sophie, logo encontraram camaradas como Willi Graf, Alexander Schmorell, Christoph Probst e o professor Kurte Huber.
Na manhã de 16 de fevereiro de 1943, em plena guerra, eles picharam o Arco da Vitória em Munique, com inscrições onde podia ser lido "Liberdade" e "Abaixo Hitler".
Nas caixas de correspondência dos cidadãos da cidade eram encontrados folhetos pedindo o fim do regime e encorajando o povo alemão à liberdade.
Dois dias depois, Sophie Scholl e seu irmão Hans, estavam fazendo panfletagem dentro da Universidade de Munique, foram presos e seu apartamento foi revistado e lá foram encontrados os nomes dos outros companheiros. O julgamento foi feito pelo "Tribunal do Povo" e a condenação foi a decapitação.
Sophie foi a primeira a morrer "livre, destemida e calma, com um sorriso nos lábios", disseram testemunhas durante a execução da sentença. Seu irmão e os companheiros foram mortos em seguida. Essa jovem, que poucos conhecem foi uma das poucas a ficar na Alemanha e lutar contra o poderoso Reich de Mil Anos.
No Brasil, também tivemos mulheres de sangue nos olhos, como Maria Quitéria, Enedira Rezende, Maria Lúcia Petit, Maria Bonita, Dadá, Chica da Silva, Anita Garibaldi, Olga Benário Prestes. Esta última, comunista e esposa de Luis Carlos Prestes, foi entregue pelo Governo Brasileiro a Hitler para ser morta em fevereiro de 1942, pelo gás do seus campos de concentração. Sua carta de despedida ao "Cavaleiro da Esperança", escrita um dia antes da morte, até hoje causa emoção. Ei-la na íntegra:
"Queridos:
Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês ? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte. Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes ? Conformar-me-ia, mesmo se não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorrizo. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os tres juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha ?
Querida Anita, Meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas...Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijos pela última vez.
Olga."
No caso de Enedira e Maria Lúcia Petit, suas histórias também ficaram envoltas em mistério porque o governo na época do regime militar, fez tudo o que pôde para evitar que seu movimento de guerrilha pudesse ser divulgado e chegasse pelos grandes veículos de comunicação ao povo brasileiro que assistia pela televisão a construção da Transamazônica, a Copa de 70, construção da Itaipu e ponte Rio-Niterói e também do ufanismo e do tempo do "Ame-o ou Deixe-o".
Eu, quando comecei minhas pesquisas para esse livro estive visitando as cidades de Xambioá e São Geraldo do Araguaia próximas à Serra das Andorinhas, no Pará onde tudo aconteceu em meados de 1972 a 1975 quando o PC do B Partido Comunista do Brasil com 69 guerrilheiros, entre os quais doze mulheres, enfrentaram as Forças Armadas do Brasil em tres campanhas e contra 5 mil soldados. No final, 59 guerrilheiros foram mortos juntamente com dezenove camponeses. Do lado dos militares, cerca de 20, morreram na luta. Lá, ouvi testemunhos carinhosos da população local em relação a elas e também a todos os que estiveram em luta. Embora chamadas de terroristas, elas conquistaram fortes amizades entre a população carente daquela região, principalmente entre os camponeses. Maria Lúcia Petit, paulista, 20 anos, trocou uma carreira de professora primária para lutar na guerrilha e viver no meio da mata. Morreu baleada na cabeça no dia 16 de junho de 1972, dois anos depois de chagar ao Araguaia. Lúcia, Enedira, Sonia e Luzia Reis e as demais, pagaram com a vida a defesa ferrenha de seus ideais revolucionários.
Não apenas elas, mas grande parte da juventude dos anos 60 foi sem dúvida nenhuma, a mais influenciada por tudo o que acontecia no mundo. A guerra do Vietnã, o movimento Hippie, o Rock and Roll, os grandes pensadores, a revolta dos estudantes franceses em 69 e nomes como Che Guevara, Luther King e Angela Davis, eram o estereótipo ideal da liberdade. O comunismo ganhava adeptos no mundo inteiro e no Brasil, também.
Aqui, orgãos de Imprensa ganhavam asas e começavam a divulgar o lado dos oprimidos, o que não agradava muito ao governo. Nascem nessa época os jornais alternativos mais famosos: Pasquim, Voz do Araguaia, Voz Operária (Tribuna). São dessa época dois jornais femininos alternativos, "Brasil Mulher" e "Nós Mulheres", (1976 a 1978), de São Paulo. O primeiro era editado pela Sociedade Brasil Mulher, ligado ao Movimento pela Anistia e o segundo, editado pela Associação de Mulheres.
Jovens estudantes universitários resolveram que para mudar era preciso "fazer a hora e não esperar acontecer" e como não acreditavam em poder pelo voto, partiram para a luta armada. O governo militar de então, intensificou sua ação contra eles que se organizaram em movimentos clandestinos ou declarados pelo governo como tal, como UNE, UBEs e UEEs (estudantes), Ligas Camponesas do ex-advogado Francisco Julião, ALN (Aliança Libertadora Nacional) de Carlos Marighella e Var-Palmares ou VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) do ex-capitão Carlos Lamarca e o próprio PC do B (Partido Comunista do Brasil). Este último foi quem realizou no Pará, a guerrilha do Araguaia.
A região foi escolhida devido a grande quantidade de matas da Serra das Andorinhas e a riqueza do solo em minerais. Por vários anos, jovens estudantes entre os quais doze mulheres, se adaptaram a rude vida no mato e começaram a preparar o terreno para a guerra que seria eminente. Tornaram-se queridos da população local como eu mesma pude constatar em constantes visitas ao local do conflito em Xambioá e São Geraldo do Araguaia.
Alguns guerrilheiros eram estudantes de medicina, como foi o caso do médico João Carlos Hass que morou e medicou em Porto Franco e quando a guerra de guerrilhas eclodiu, juntou-se aos companheiros de luta, sendo morto. Até hoje, a população da cidade lembra dele e de como o exército sobrevoou a cidade metralhando o rio para intimidar a população que queria enterrá-lo no cemitério local. Hass e os outros tratavam e cuidavam de todos com um carinho e técnica que começou a despertar suspeitas do governo, já que na área, começaram a aparecer entre os camponeses, grupos reivindicando melhorias de saúde e assistência. Quando o Exército chegou, a guerra de guerrilha teve início com grandes mortes para ambos os lados e durou cerca de três anos. Quem ali reside e presenciou os anos de luta, lembra que a guerra teve proporções de um grande conflito. Lúcia , Sônia e Enedira morreram na luta como tantas outras e tantos outros jovens que sonharam em dominar erroneamente o país através da luta armada. Uma pena!
Já no cangaço, também de arma na mão vamos encontrar a simplicidade e valentia de Maria Bonita que entrou no bando por amor a seu chefe maior, Lampião. Os dois se conheceram na fazenda Malhada e aterrorizaram o nordeste por cerca de dez anos. Ela e Lampião foram mortos numa emboscada em Angicos-SE, em 1938. Dadá, era mulher de Corisco, cangaceiro do bando de Lampião e continuou atuando ao lado do marido para vingar a morte de Lampião até 1940, quando também foram mortos, decretando para sempre o fim do cangaço.
Uma mulher que muita gente não gosta de lembrar, é a economista Zélia Cardoso de Mello que confiscou o dinheiro de todos os brasileiros e a Georgina de Freitas, advogada que teve a coragem de roubar verbas vultosas que seriam direcionadas para a saúde do povo brasileiro. Além delas, tivemos o vergonhoso envolvimento de Roseane Collor, então primeira dama do Brasil com desvio de verbas que deveriam ser direcionadas para entidades beneficentes de Alagoas que nunca existiram. As três, com maior ou menor gravidade deixaram uma lembrança ruim e mal exemplos que tomara Deus, nunca mais se repitam em nosso País.