JORNALISMO: PROFISSÃO DE FÉ
NOSSA SENHORA DA PENA
Tu que proteges a pena Da tua asa maternal.
Do humilde herói do jornal Fazes, Senhora, que as penas
Olha e vê, quanto ele pena, Sofridos por teu amor
Nessa luta contra o mal. E essas intrépidas penas,
Tem pena de tanta pena, Com que exalça o teu louvor,
E sobre o mártir do ideal, Sejam-lhe, enfim, leves penas
Desdobra a macia pena Para voar ao Tabor!
( D. Aquino Correia)
REGRESSÃO
Falar de si própria, de nossa intimidade é ótimo porque é da natureza do ser humano buscar o seu próprio mundo interior para conhecer a si mesmo. É quando você então começa a juntar pilhas de fotos e material para relembrar e aguça a mente para reviver momentos bons ou ruins. Você pode não dar conta, mas está realizando uma regressão, um retorno a si mesma e às vezes, muitas lembranças nos são por demais dolorosas porque exigem muito da gente; outras são boas e bem vindas; momentos em que a alegria invade nosso ser de tal forma que começamos a fazer auto-análise por conta própria e o mesmo acontece em todos os momentos com a oração que fazemos minutos antes de dormir.
Eu já havia feito uma regressão verdadeira com pessoas especializadas e graças a Deus, pude conhecer muita coisa sobre o meu passado permitindo que cada fase pudesse ser analisada como se eu estivesse em uma galeria com vários quadros na parede, cada obra, representando uma fase da minha vida. Talvez isso tenha sido um fator decisivo na vontade de escrever porque comecei a amar o que faço e a me valorizar tanto íntima como fisicamente.
Quando decidimos então dar um "testemunho é porque algo lá dentro diz que é chegado o momento de botar para fora tudo o que sentimos e conversar na língua dos anjos, aquela que é a nossa consciência, o nosso interior capaz de tudo e ao mesmo tempo com tantas dúvidas e também com muitas coisas ainda para serem vistas e vividas, é claro se Deus nos permitir ainda muitos sóis e luas.
Nossa mente é algo tão fértil e tão poderoso e infelizmente não é explorada em toda a sua plenitude. Veja o computador, por exemplo: acho que o homem o criou como imagem e semelhança de seu próprio cérebro. Em contrapartida, a máquina que hoje é indispensável, impede que ele avance no desenvolvimento da sua máquina interna. São muitas as conquistas da ciência e muito úteis por sinal, mas o preço a pagar é muito alto. As pessoas estão deixando elas ( as máquinas) fazerem tudo e num futuro bem próximo, viveremos apenas de apertar botões. Só espero que o sexo não chegue a tal ponto. O grande problema é que estamos nos esquecendo de evoluir como seres humanos e assimilar tanta tecnologia, e cegas, ou vamos fazer vista grossa como faz a maioria ou tentar se aprofundar e responder aos nossos filhos sobre questões como: se transar aos doze ou treze anos é normal ou não?
Acredito totalmente na força da mulher, mas sinto que para ela assumir uma posição de igualdade, deverá ter primeiro a humildade de amar a si própria e o outros, dividir responsabilidades, ajudar o marido e os filhos com amor, dedicação e diálogo, tendo tranqüilidade para poder pensar, decidir e agir.
Finalmente acreditando em si mesma e no ideal pretendido, terá ela ainda que aprender ainda o mais sagrado dos dons de Deus - a comunicação e com ela, entender, mesmo que parcialmente, o que acontece no mundo à sua volta.
Testada no fogo do seio da sua própria família e lar , comprovando seu valor como mulher e mãe, ela então poderá atuar lado a lado e de igual para igual com os homens sem precisar ser uma ativista radical, porque foi através da palavra que Deus criou o mundo, ele se comunicou e ordenou seus poderes através da voz e tudo se fez.
A mulher que souber voltar para dentro de si mesma e encontrar o ponto G da paz e do diálogo, não precisará nunca ser lembrada que está lutando por seus direitos. Pelo contrário, ela será conhecida por já o tê-los conquistado, natural e espontaneamente. Isso já está mais do que provado.
PÉ NA ESTRADA
O meu grande dia é o domingo onde costumo fazer da minha cozinha um laboratório, criando pratos diferentes. Os meus adoram esse dia e eu também, porque foi nele que nasci a 9 de novembro de 1958, em Itaguagé-PR, na beira do rio Paranapanema.
Da beira do rio, lembro vagamente porque ainda muito pequena, tivemos que mudar acompanhando o trabalho de meu pai, que época era um homem de terras, cavalos e peões.
Capataz, nordestino e cidadão, meu pai sempre foi um homem humilde, característica típica de todo bom nortista e trabalhava muito na lida para trazer nosso sustento numa região que começava a crescer.
Minha mãe, depois de cuidar dos afazeres domésticos, adorava ler e preparar suas aulas. Professora, lutou muito naquela época para se formar e ao mesmo tempo cuidar de casa. Lembro dela com orgulho lecionando, sendo eu inclusive uma de suas alunas e depois, tendo que aturá-la (brincadeirinha!!!) como diretora de colégio. Ela subiu rápido, graças a sua inteligência e dedicação e isso, não posso esquecer de reverenciar.
Fazer a comida, limpar a casa e ficar de olho nos pequenos, fez parte de minha infância como o ar que respiro.
Lembro-me de momentos em minha adolescência em que meu pai, obrigado pelo trabalho a ficar longe de casa por muitos meses, sem dar notícia, deixava a todos preocupados. Eram nesses momentos que minha mãe aproveitava para estudar e trabalhar. Eu, ficava ao longe, lá da cozinha, observando-a, imaginando o que ela queria, qual o seu maior sonho? Seria a nossa felicidade ou então a dela própria?
Acho que o fator de união vinha de nossos avós que mantinham tudo em ordem, com sua calma, serenidade e sabedoria. Minha avó Zefa e meu avó Isaque iriam completar "Bodas de Ouro", se meu avô não tivesse que atender ao chamado do Pai. Além de meus pais, eles tinham que cuidar dos outros filhos ( meus tios e tias) e dos netos e netas que corriam pela casa fazendo a maior bagunça.
Hoje, quem faz a função que eles faziam no passado é minha tia Terezinha. Ela sempre aconselha e está presente em todos os momentos da família, inclusive agindo com rigor se for preciso para que tudo ande nos trilhos. Acho que toda família tem alguém assim! Lembro com muito carinho quando a família se reunia. Meus pais, eu e meus irmãos Lúcia, Cícero (In Memorian) e Celso não perdíamos o grande encontro familiar por nada neste mundo. Só o caçula, rapinha do tacho, que chegou bem depois, perdeu a maior parte desses grandes momentos, foi o Sergio.
O ponto alto era o Natal e até hoje, ainda é, mas com menos presenças, já que os que não foram para o céu, residem longe, dificultando a vinda. A ceia natalina naqueles bons tempos, chegava a reunir mais de cem familiares vindos de vários lugares no Paraná, de São Paulo e do Mato Grosso, de onde acorriam todos para três ou quatro dias de muita festa.
O ponto alto era quando alguns se transformavam em atores para a encenação bíblica das "Bodas de Canaã". Eu também atuava e era uma das convidadas da festa em que Cristo realizava o milagre de transformar água em vinho à pedido de sua mãe, Maria.
Outra festa marcante para a família era a "Folia de Reis", com todos reunidos em janeiro, percorrendo os sítios de compadres, amigos e familiares cantando a folia na sua mais completa tradição e a cada parada a Bandeira do Divino era saudada com fé e fervor.
Em "São João", lá estávamos nós, mais uma vez reunidos para comer paçoca de amendoim, pé-de-moleque, bolo de milho, batata doce assada na fogueira, pipoca, quentão e dançar a "Quadrilha".
No dia de "São Pedro", era divertido ver os candidatos tentarem subir no pau de sebo onde em seu topo era colocado dinheiro. Eu confesso que tentei muitas vezes mas nunca consegui repetir a façanha de meu irmão Cícero (Im Memorian faleceu em 1996), que numa noite, depois de muitos quentões, subiu, conseguiu chegar ao topo e pegou o dinheiro, lembro que ele ficou uma semana rindo da conquista e gastando o dinheiro com doces e sorvetes.
As horas não se contavam quando a família se encontrava e todos só queriam mesmo era se divertir, rever os parentes distantes, conversar madrugada adentro. As crianças como eu aos dez anos de idade, brincavam de amarelinha, queima, passar o anel, batata quente e de Ciranda. Não podiam fazer traquinagem, senão, o marmelo corria solto nos lombos.
Lembro também que na zona rural, as chácaras e os sítios eram de grande fartura com muitas plantações e pomares, tudo completamente diferente das grandes pastagens de hoje. O homem do campo era alegre, festivo. Hoje tudo isso mudou e por onde ando no interior, só vejo abandono e grandes fazendas. Quando se plantava, não havia tanta pobreza e miséria que existe hoje.
TEMPOS DE RÉGUA E COMPASSO
O ruim era ter que acordar cedo, principalmente no inverno pois a primeira aula começava impreterivelmente às sete e quinze.
Família de classe média ( Ah! bons tempos em que existia classe média...) no Paraná, daquele tempo possuía um certo conforto que hoje os planos econômicos devoraram.
Já o sistema de ensino não se comparava aos padrões de hoje. Para vocês terem uma idéia, naquele tempo, as classes eram separadas com meninas em uma turma e os meninos em outra, e nem mesmo no recreio, podíamos conversar. A disciplina era total com direito até a palmatória.
O uniforme era um luxo: meias 3\4 brancas, sapato colegial hiper engraxado, saia azul-marinho pregueada (engomá-la era um suplício) e a tradicional blusa branca.
Os professores que me recordo com carinho porque devo a eles o que sou hoje, eram o Prof. Rivas Franquini (diretor), Ednéia de Oliveira Buchi, Natalina Furoni de Campos, Creuza Braga Franquini, ( atualmente advogada e educadora em Umuarama), Delci Mourão, Antonio Bergamaschi, Antonio Martins Neto, Irma, Maria Maris Rizzato, Adalgiza Silva Rodrigues, Antônio Gomes Pimenta, Casimiro Delanhese, Elizabeth Valderrama Jordão, Elsa Marques Póvoa, José Rodrigues, Luiz Chagas Casati, Maria de Lourdes Vismar, Maria Sônia Naves Coco, Mário Shideo Yamamoto, Mauro Moron, Natalina Furoni de Campos e Vera Lúcia Ribeiro Caetano.
Depois do Ginásio, mergulhei de cabeça no 2º grau e fui residir em Nova Esperança por tres anos na casa de minha prima Socorro.
Após este período, quis ser independente e saí de casa e fui morar com amigas em uma república de estudantes ao mesmo tempo que trabalhava para meu próprio sustento, aprendendo que com economia, eu poderia comprar minhas roupas e viajar durante as férias ( Sempre adorei viajar!).
Naquele tempo, firmei amizades com pessoas que estimo até hoje, como minhas companheiras de República: Teca, a Leninha, Olguinha, Geruísa, Augustinha e Jane. Cada uma delas seguiu seu caminho, mas sempre nos encontramos para matar saudades dos bons tempos de república, dos bares e lanchonetes onde saboreávamos muita cuba-libre, cervejinhas embaladas pelo carteado, pela música dos Beatles e Bee Gees que animavam as "brincadeiras dançantes" como eram chamados os pequenos bailes realizados em casa, costumeiros na época.
Havia também os namoros no escurinho do cinema e as serenatas que foram responsáveis por muitos amores duradouros de hoje ( Carlos e Vera, meus amigos que hoje residem em Maringá foram os reis da famosa serenata das sextas. Em sua casa, bebi muitos martinis).
Como nem tudo sempre é alegria, a juventude também me encontrou de livro na mão. Toda noite, quando eu me deitava, após a leitura, orava a Deus e pedia para ele me ajudar nos estudos.
No início deste capítulo, coloquei a "Oração do Jornalista" em destaque porque ela resume bem a vida que é informar com fidelidade ao leitor aquilo que acontece no mundo de hoje e também porque nada em minha vida, fiz sem antes ter orado.
Eu tive que ralar muito para estudar, freqüentar a Universidade lá no longínquo Maranhão e ao mesmo tempo ser mulher, esposa, mãe e dona de casa. Depois de formada, senti um prazer imenso comigo mesma por haver conseguido o feito de realizar meu sonho diante de tantas dificuldades.
Não é fácil você ter que ir tão longe em terras estranhas para estudar, trabalhar e viver.
Quando você começa o curso e já começa a mudar o sotaque, a falar como nordestina, a primeira coisa que você sente é uma saudade "arretada" dos pais, dos irmãos, dos amigos que ficaram lá longe.
Eu brincava comigo mesma olhando o mapa do Brasil e via o Maranhão tão lá no alto e o Paraná, lá embaixo e dizia - Meus Deus como estou distante...será que eu vou conseguir?
Depois que você finca raízes, já é amiga de todo mundo, que viramos uma família em vários anos de caminhada, vem a formatura e a dispersão.
O jovem formando anseia trabalhar e dar o melhor de si, colocar em prática os ensinamentos e realizar grandes reportagens, mas nota que o mercado é pequeno e o buraco bem mais embaixo.
Vemos com felicidade quando alguns colegas de classe encontram campo em grandes jornais, em assessorias ou empresas. Mas entristecemos quando muitos chegam até mesmo a desistir diante da falta de oportunidades e forte concorrência que obriga o recém formado até a migrar para cidades e estados distantes em busca do seu espaço.
Meu primeiro emprego caiu do céu e foi realmente Deus quem me abriu as portas da televisão, um veículo fascinante que começava a engatinhar em Imperatriz.
Eu, o Beto e o Rounie residíamos em São Luís, onde eu cursava a Federal (Comunicação Social) e em um final de semana, fomos a Imperatriz no interior do Estado onde o Beto ia participar de um festival, o Faber. Naquela época andei bastante acompanhando-o em diversos festivais pelo nordeste.
Sem nada para fazer, liguei a televisão do quarto do hotel e vi que a emissora estava iniciando suas atividades, ora entrando, ora saindo do ar. E veio a idéia, aquele estalo genial que aparece derrepente. Fiquei ali, na frente da telinha com lápis e papel na mão vendo toda a programação, estudando o que faltava para encaixar como um novo program. Notei que ali faltava a mulher como tema e enviei minha proposta completa, um piloto para um programa de 60 minutos sobre moda, variedades, com tomadas externas de acontecimentos sociais e entrevistas. Para nossa sorte, o projeto foi aceito e fomos obrigados a nos mudar mudar de São Luís para Imperatriz. Uma vez, instalada na nova cidade, iniciei o meu primeiro trabalho oficial como jornalista e também como professora.
Com uma pequena equipe à minha disposição, começamos a gravar quadro a quadro e finalmente fomos ao ar; o programa "Momento Mulher" que durante três anos, deu-me as bases para amar o jornalismo, tinha dado certo. Nessa época, meu esposo, o Beto, que além de trabalhar na 3M do Brasil, vivia também da música, estava se empenhando com outros músicos preparando o lançamento do seu primeiro trabalho musical. Era a época do movimento "Somos Brasil" criado por ele e pelos artistas tocantinos para o fortalecimento cultural da região e na cidade, tudo estava girando em torno das manifestações culturais, projetos para construção do teatro local, da Fundação Cultural e shows.
Além de trabalhar com a televisão, me sentia na obrigação de acompanhar o maridão pelos festivais que ele participava. Com ele, conheci o norte nordeste de ponta a ponta e não deixei brechas para que as assanhadas se aproximassem.
Acho importante deixar bem claro que não importando a profissão que a mulher exerça, ela tem que estar presente na vida do esposo, incentivando, aplaudindo seu trabalho, dando idéias, criticando e vigiando, porque, quando a mulher se ausenta, outra pode ser tornar presente. Entenderam?
No meu tempo livre, se é que me sobrava algum, resolvi reforçar minha bagagem cursando Sociologia e não me arrependi.
Aprendi a amar meu semelhante, a impor e retribuir o respeito profissional e pessoal. Essa experiência somada a minha fé em Deus, contribuiu para moldar meu modo de ser e viver.
A Sociologia é algo que permite a você analisar profundamente as pessoas e situações e transformar essa análise em metodologia de vida e trabalho.
A formação do caracter de um povo pode e deve ser medida pelas suas atitudes, seu passado, sua cultura e fica espelhada para sempre nos seus descendentes.
No Nordeste, o povo é na sua maioria humilde e é impossível para quem vai do sul para lá, não se sensibilizar com a situação que eles enfrentam, ainda mais depois das histórias que os pais da gente contavam. Apesar de tanto sofrimento, o povo nordestino é alegre, vivo, colorido e hospitaleiro.
Sou descendente de pai pernambucano e o Beto, de baianos e isso ajudou, porque aprendi a entendê-los, residindo lá, conhecendo sua terra e sua gente.
A religiosidade do povo nordestino é um dos grandes elos que o mantém vivo. Muitos condenam o apego deles em torno de crendices regionais, mas é graças a elas que você conversa com um flagelado pela seca e ele ainda encontra forças para sorrir diante da desgraça.
Enquanto a vida seguia seu curso e o meu programa engatinhava com sucesso, comecei a escrever artigos sobre comportamento e educação para os jornais locais e também para o jornal da Igreja Católica. Depois de tantos estudos, pude verdadeiramente usar tudo o que havia aprendido em vários anos de intermináveis aulas, teorias, técnicas e devaneios. Era a prática chegando com sua rude aspereza para complementar a teoria.
O convite para o radio veio como conseqüência de minha agitada vida de Imprensa e lá fui eu, conversar com o povo e deitar falação durante um ano via Radio Imperatriz. E como falei.
Falei de Deus, de Cristo, das mulheres, do casamento, dos filhos, do amor e da paz que eu estava sentindo. Eu estava feliz com tanta agitação.
O Beto havia lançado seu disco e eu andava pela rua ouvindo suas músicas tocarem nas FM's, havíamos conseguido algo importante, cada um na sua área. Com as vendas do primeiro disco, compramos uma casa, ganhei um fusquinha ( o mesmo que temos até hoje e adoramos esse bichim!) e com o que sobrou, viajamos pelo nordeste durante 30 dias. Foi uma lua de mel com direito a sol, frutos do mar e serenatas a luz da lua na areia da praia.
O disco havia atingido seu ápice, com o Beto gravando especial para a TV Mirante (Globo local) , programa "Arte Nativa" que foi retransmitido por todo o Maranhão, norte de Goiás (hoje Tocantins), Pará, Amazonas, e outros estados.
O Jornal o "Estado do Maranhão" abriu espaço em seu caderno cultural para elogiar o "Novo nome que surgia na música maranhense", dizia o crítico Benito Neiva.
Eu amo aquele trabalho primeiro principalmente porque cada música dele eu vi nascer, principalmente a "Necktar", feita em minha homenagem. O disco até hoje, continua mantendo algumas músicas sendo tocadas nas rádios de lá.
Aquele trabalho primeiro, ficou muito bom e foi totalmente diferente do que ele lançou aqui em Umuarama, marcado por tanta tragédia.
Humilde, lembro da animação do Beto em realizar esse trabalho onde rolou tantas homenagens. Depois da tragédia, ele disse, "Minha missão para com a cidade está completa" e eu entendi o que ele queria dizer: seus pais estão enterrados aqui e ele jamais poderia esquecer de homenagear o lugar onde aprendeu a tocar violão.
Foi o seu trabalho mais bairrista sobre a região onde ganhou seu primeiro festival (Icaraíma); os músicos locais que chamou para o disco; os poetas locais que ele homenageou; a capa desenhada por Mário Zaffanelli; o poema musicado da educadora Aparecida Herreira; o lançamento profissional da cantora Dayane de França; a vida e obra de Albino Turbay; a homenagem ao Grupo Gralha Azul de quem é irmão; a parceria em músicas com Valésio Villemann; e os índios Xetás, que precisavam ter sua versão histórica musicada já que o ator e produtor teatral Luís Varini havia tido o cuidado de homenageá-los no teatro e o Marco Vaz, no desenho. Beto achava que como músico e compositor, deveria fazer a sua parte.
A morte do tecladista do disco, Paulo Rodrigues, foi uma fatalidade que selou o ânimo daquele trabalho, mas não enfraqueceu o amor do Beto pela música. Ele hoje, só quer esquecer o episódio e continuar, com todo o meu apoio de sempre. Seu novo trabalho vai se chamar "Errante" e já está em fase final de arranjos. Afinal, eu sou sua fã número 1, fui homenageada com uma música que foi feita especialmente pra mim, sofri, torci e vibrei em suas vitórias nas centenas de festivais tanto no Nordeste como aqui no FEMUP, de Paranavaí e no FEMUCIC, em Maringá e sei do que ele é capaz.
RUMO À CAPITAL DA AMIZADE
Nossa mudança para Umuarama foi uma fatalidade. O Beto sempre dizia que um dia iríamos voltar para o Paraná e eu era totalmente contra.
Mas foi um problema de saúde o fator motivante de nossa vinda. Eu sentia tonturas e minhas vistas escureciam. Os médicos que me atenderam haviam diagnosticado em minha cabeça um tumor grave e recomendavam que eu deveria realizar o tratamento em Goiânia, Brasília ou em São Luís. Ora, eu sabia o que tinha sofrido para dar a luz ao Rounie longe de tudo e de todos. Resolvemos então vender um de nossos carros ( o fusquinha fez denguinho e conseguiu escapar da devassa), duas linhas telefônicas e algumas peças da mobília e vir para o Paraná, para perto dos meus parentes sendo a cidade escolhida, Umuarama, por motivos que eu já me referi.
Com muita tristeza, despedi-me dos colegas profissionais, das amigas, da comunidade que tinha aprendido a amar e que havia me acolhido com tanto carinho e do nordeste querido fizemos o circuito inverso, voltamos tal qual nossos antepassados haviam feito, novamente para recomeçar.
Chegando aqui, o Beto começou a trabalhar no DETRAN e de lá, foi para a Tribuna do Povo onde atuou como repórter e publicitário. O jornal estava precisando de uma colunista social e o Beto sugeriu meu nome, tendo em 92 iniciando meus trabalhos naquele jornal como vocês puderam acompanhar.
Minha equipe desta vez, era eu e o Beto que tinha que se multiplicar em dois para vender, correr atrás das notícias, escrever seus artigos, dirigir o fusquinha e ainda ter que me acompanhar fotografando eventos. A questão do volante para mim ainda é problemática apesar dos esforços dele (Beto) e da Cacilda, da Auto Escola Umuarama, em tentar me fazer voltar a dirigir. Eu vou dirigir sim, mas quando tivermos um carro mais leve (novo, é claro!) como os que eu dirigi na auto escola (risos!).
Uma das minhas grandes surpresas foi encontrar aqui, alguns profissionais da área com uma visão diferente de atuação. Veja bem, não discrimino quem não pôde cursar uma Universidade, mas a desunião é um reflexo disso.
O espírito de camaradagem começa no Campus onde todos juntos e unidos correm atrás do mesmo objetivo que é chegar ao final do curso e se formar. Lá, ao longo dos anos, vamos virando uma família e saímos considerando a profissão de jornalista com dignidade e ética.
A concorrência sadia precisa existir, mas nunca deve se deixar chegar ao ponto de baixaria, de humilhação que denigra o nome do outro profissional, da classe e da cidade. Desde que aqui cheguei, levei para o rádio o programa "Momento Mulher" e lá, alertava que a Mídia e não só ela, mas como todas as classes sociais deveriam se unir, porque o que estava em jogo era o sucesso da cidade.
O profissional dos meios de comunicação precisa ler e praticar a "Lei de Imprensa", o "Código de Ética do Jornalista" e tudo o que reza a "Constituição do Brasil" e o "Código Penal", referente ao trabalho que ele exerce. É inadmissível que colegas esqueçam o objetivo de informar e vivam a se digladiar em picuinhas pessoais. Isso é coisa de bárbaros e a nova realidade, não permite mais esses excessos de falta de profissionalismo.
O jornalista do futuro é aquele que investe em aprimoramento profissional, que escreve com paixão pelo faz.
Hoje, os contatos que tenho mantido com colegas, principalmente nos congressos e cursos que tenho participado, mostram uma grande preocupação em desestimular e coibir tais métodos, seja nas redações, seja nas empresas de comunicação. É ridículo um jornalista digladiando-se com outro colega da mesma empresa ou fora dela e ainda por cima usando o próprio veículo para tal.
O que o profissional deve fazer é trabalhar em sintonia com sua empresa e com os leitores. Sou totalmente contra o vandalismo e os ataques anti-éticos e acho que o colega ofendido deve procurar o direito de resposta; comunicar o diretor geral da empresa em que trabalha ou da empresa do agressor e exigir providências fazendo valer o seus direitos como profissional e; dependendo da gravidade das acusações, levar o assunto para o Sindicato da classe e finalmente, para os Tribunais, se nada mais for possível ser feito. Antigamente, era comum no interior, você ver profissionais da mídia ameaçarem pessoas físicas ou jurídicas em troca de favores, forçando a veiculação de matérias ou publicidade à custa de ameaças e isso é crime e precisa ser denunciado.
A Lei de Imprensa não inclui em nenhum dos seus parágrafos, condições para que o profissional de Imprensa possa manipular informações a seu bel prazer e nem ameaçar com segundas intenções . Sua missão é informar, buscar a notícia onde ela estiver e mesmo se tiver que vender publicidade para sobreviver como é comum no interior, que o faça com responsabilidade, respeitando o direito de todos.
Todo meio de comunicação existe porque o povo lhe deu credenciais para tal (assinaturas e compra em banca) e é o próprio povo que pode e deve vigiar e combater os abusos que desvirtuam o bom exercício de noticiar e informar do órgão informativo que escolheram para assinar.
O jornalista não é uma ilha. Ele é um ser humano que também precisa se relacionar, levar uma vida normal como qualquer cidadão. Desde que ele não misture seus problemas pessoais com a profissão, tudo bem!
Eu, dou minha vida por uma grande amizade e como vocês puderam ver no capítulo anterior, fiz muitas em Umuarama. Não é porque eu estou trabalhando que não devo compartilhar com meu semelhante, momentos de troca de informações e isso não quer dizer que eu por ser amiga de uma pessoa, seja obrigada a divulgá-la sempre na minha coluna. Se o fizer, sei que ela deve ter méritos para ser noticiada.
No jornalismo social é fundamental ter carisma, conhecer os trâmites de um evento e sua importância; ser sociável, conhecer protocolos e o código de etiqueta e boas maneiras; participar, respeitar e evitar qualquer forma de discriminação contra o que ou quem quer que seja.
Quantos colegas me confidenciam que por atuarem em grandes centros, não têm tempo para fazer amigos, achando que todos só se aproximam para aparecer na coluna e muitas vezes se isolam, vivendo em um claustro. Chamo isso de "ser engolida pela profissão". Vira trauma e persegue o profissional a vida inteira.
Nada disso! Você pode e deve estar no meio do povo porque é lá que os fatos e as notícias acontecem e suas amizades, independente do seu trabalho, existem e precisam ser cultuadas.
O bom profissional também não deve misturar o lazer com o trabalho, principalmente aqueles que gostam de beber. Ora, colega, beba socialmente e se não puder...beba em casa e melhor ainda, pare de beber! Quantos não vivem denegrindo a classe com atitudes deselegantes e mau comportamento.
A mulher jornalista é muito visada e precisa saber manter sua postura e respeito, para não ser confundida com vulgaridades. Tenho sabido de mulheres em ação que chegam a oferecer o corpo por uma boa reportagem. Estão é claro, na profissão errada. Uma boa profissional impõe respeito à sua volta e recebe em troca o mesmo respeito na medida exata. Isso é suficiente para ela e para todos que a cercam, seja trabalhando ou não. Se uma mulher vulgar causa mau estar, imagine uma jornalista vulgar...
Eu, trabalhei em diversas empresas cercada de homens de todos os lados e sempre me coloquei no meu lugar de profissional. Quando algum engraçadinho tentava alguma gracinha, eu descia do salto e fazia valer o respeito mandando ele procurar a esposinha querida ou a mamãe.
Sempre, a mulher foi alvo de cantadas em todos os segmentos profissionais e de certa forma, depende muito dela, o rumo que esse tipo de assédio pode tomar. Se ela for uma mulher digna e profissional, vai saber se desvencilhar mesmo correndo riscos. Sem contar que esses abusos estão gerando processos e mais processos e devem futuramente ficar apenas na alçada de safados e safadas que gostam dessas coisas. O importante é que a mulher saiba se colocar no seu lugar e respeitar para ser respeitada.
MEU PRÓPRIO NEGÓCIO
Eu amo Umuarama porque ela foi uma cidade que me acolheu de braços abertos permitindo que através do meu trabalho e dedicação, eu pudesse hoje ter minha própria empresa.
Existe um ditado que diz: "para que você seja um bom patrão, é antes de tudo, fundamental que você tenha sido um bom empregado". Essa máxima condiz com minha política de trabalho e foi através dela que pude moldar os planos para montar meu próprio negócio.
Trabalhar para Tribuna do Povo, foi sem dúvida, uma lição de vida profissional que guardo com muito carinho. Lá, aprendi a viver em equipe, a vestir a camisa da empresa, a lutar por ela e defendê-la em princípios e ética sem ser pedante e precisar utilizar atitudes puxa-saquistas.
Muitas pessoas chegaram a comentar que eu ao deixar a empresa estaria acabada como jornalista na cidade e que desapareceria. Quem apostou nisso, perdeu! Se esqueceu que antes de tudo, eu sou uma profissional que dependia sim, da empresa e dos companheiros de trabalho, isso, todo mundo e não apenas eu, depende. Mas se esqueceu sim, do principal: que o bom profissional conquista amigos e não clientes e que o resultado de um trabalho bem feito, honesto e profissional, jamais é esquecido.
Minha saída, veio em um momento em que eu realmente precisa criar algo meu ou seja: minha própria empresa. Fui feliz e capaz e lancei meu próprio negócio: minha revista e esse livro e, com muita humildade, quero ainda criar e fazer muitas coisas mais.
A maior prova disso é a revista Atualissima, e os amigos sinceros que permaneceram ao meu lado, sem a coluna e que acreditaram e investiram em mim. Sabem porque? Porque não me viam apenas como colunista social., mas como profissional, também.
É da minha natureza agradecer e é claro sempre divido o meu sucesso ou fracasso com Deus, com minha família e com minha empresa.
Meu sucesso como colunista social em Umuarama se deveu também a grande empresa que é "a Tribuna do Povo". Sem a ajuda da equipe de retaguarda e daqueles grandes profissionais, é claro que eu não conseguiria chegar aonde cheguei, que foi conquistar o carinho de todos e levar a imagem do jornal por onde eu ia. Eram eles que montavam minha página, que me aconselhavam quando alguma coisa precisava ser mudada e são eles, que fazem parte do todo que faz um jornalista ter sucesso ou não.
"Equipe, sempre uma equipe" - esse é o lema do jornalismo moderno e eficaz. Todos lembram que ao sair, lancei do nada, a minha empresa, a Necktar Produções e a Revista Atualíssima. Até hoje, não tem sido fácil conduzi-la mas como não sou de correr dos desafios que a vida me impõe, luto e aviso para os que diziam que ela não iria passar do segundo número, que estamos "graças a Deus" na nona edição. Fácil não é, mas dá um prazer danado montar uma página, escrever no que é seu, correr atrás das matérias, convidar pessoas para escreverem e ter um time de anunciantes de alto nível, e isso, eu consegui. Isso foi um sucesso? Foi sim!
Não tive problemas com aquele projeto e por certo, não os terei com o projeto desse livro. Sabem porque, porque eu sou isso mesmo: transparente, amiga, humilde, capaz, vacinada, filha de Deus como vocês e nasci para brilhar igualmente como vocês e vou vencer nem que seja quando eu estiver bem velhinha, sentada diante do computador com um montão de netos correndo ao redor e querendo colo.