NO NORDESTE, A FRANÇA EQUINOCIAL
Uma de minhas grandes paixões é viajar. Sempre gostei de conhecer lugares novos, fazer novas amizades, cair na estrada. Minhas férias eram sagradas e nada me impedia de participar de uma excursão ou ir eu mesma, a cidades como Blumenau, Curitiba, Gramado, Camboriú, Rio de Janeiro ou Joinville. Esse era o meu relax.
Seja na praia, na cidade ou no campo, lá estava eu marcando presença e buscando novos ares e horizontes. Naquele tempo, quando as férias chegavam, as malas já estavam prontas e o lema era ficar bem longe de um livro, do trabalho e do stress.
Eu adorava tanto viajar que foi numa dessas viagens, e pasmem! nada de grandes metrópoles...nada de capitais e sim, em Icaraíma há apenas uma horinha daqui, que conheci finalmente o homem da minha vida.
Interessante como as coisas destino são mesmo, muito estranhas. Eu que adorava viajar só poderia mesmo viver com alguém que também gostasse de viajar. Encontrei um hippie e ninguém melhor do ele, para entender de viagens, lugares e estradas.
Maluquinho como só ele era, nos apaixonamos a primeira vista. Lembro quando o vi chegando com o cabelo quase na cintura, pulseira de couro no braço direito e um cordão com medalhão artesanal no pescoço. Vestia uma calça jeans lee surrada, com um dragão colorido desenhando em uma das pernas; nos pés, um chinelão feito de pneu que guardo até hoje e camisão branco pra fora da calça; jaqueta dobrada e presa no mochilão verde e o violão em uma das mãos.
"Vem de terras baianas onde passou um ano andando livre como um pássaro", disse minha tia Maria, vendo minha curiosidade... olhei para ela e perguntei, "tia quem é esse rapaz? Ela foi logo me alertando: "minha filha, é bom você nem mexer com ele...é filho do meu cunhado Lindolfo e é doido. Esse menino só vive pelo mundo e só tem essa roupa que você está vendo nele. O cunhado tenta botar ele na linha mas ele só quer saber de viajar, tocar esse violão e curtir essas músicas doidas que trouxe de Santos, onde eles moravam."
Que doido que nada, quem havia endoidado era eu por aquele espécime raro. Ele cumprimentou os parentes e foi até o bar do hotel. Lá pediu uma cerveja e bebeu quase toda de um gole. Eu me aproximei e disse um olá e ele, olhou fundo nos meus olhos e depois percorreu o meu corpo com o olhar e disse: "E aí, mina... me amarrei em ti, tá sabendo...aceita um gole..." Minhas pernas ficaram bambas.
Começamos a namorar e eu, louquinha para saber suas histórias, viagens, experiências. Aos poucos, fui levando ele com jeitinho a gostar do lado normal da vida, sem aquela loucura toda.
Ele, parou de andar com aquelas roupas malucas e arrumou emprego, senti que sua mudança era para me conquistar e conquistou mesmo. Logo, estávamos casados.
Como eu e ele adorávamos viajar, decidimos ir para a Bolívia, rumo aos Andes onde a altitude, a neve e a paz, seriam o palco propício para nossa "Lua de Mel". Depois de casados ( a cerimônia aconteceu em Vila Rica do Ivaí, acreditem!), nossos planos tiveram que ser adiados e o nosso mapa já estava traçado por Deus.
A rota era que voltássemos sim, a terra de nossos pais - o Nordeste. Antes de empreendermos essa viagem que mudaria para sempre nossas vidas, me entreguei de corpo e alma a esse homem misterioso, que tocava violão e gostava de dizer que "juntos, seríamos invencíveis".
Recém casada, já lecionando em Icaraíma e curtindo nosso primeiro lar, fui surpreendida com a notícia trazida por ele de que precisávamos arrumar as malas (ele trabalhava na época, no Bradesco), e começar verdadeiramente a nossa vida em um lugar totalmente estranho para nós, mas que estava no nosso sangue e tradição.
Quando o conheci, ele estava chegando, como eu disse antes, da Bahia, terra natal de seus pais e falou que lá o Brasil era totalmente diferente desse Brasil que conhecíamos aqui no sul e que eu iria adorar. E lá fomos nós rumo ao desconhecido, apaixonados e dispostos a tudo.
MULHER RENDEIRA
Imaginem eu, uma mulher tipicamente paranaense, chegar de mala e cuia no Nordeste, no Maranhão.
Florestas e regiões secas se misturavam harmoniosamente e tudo o que o meu pai havia dito sobre lá era pura verdade.
O povo humilde e hospitaleiro, nos recebia de braços abertos. Acho que pelo fato de sermos filhos de nordestinos, tínhamos o status de estar voltando às nossas origens e tradições.
Mas a grande verdade era que nós precisávamos trabalhar e começar nossa vida. Fácil é ir ao Nordeste e passear... fazer turismo, eu quero ver é quem tem coragem de ir lá e viver.
Nossa primeira parada foi de três anos em São Luís, capital do Maranhão.
A cidade é pura magia com sua arquitetura colonial, praias belíssimas e paraísos ecológicos.
Situada numa ilha, São Luís é um patrimônio da humanidade com completa infra-estrutura turística e foi a única cidade brasileira fundada por portugueses mas colonizada pelos franceses que a invadiram em 1612 com o intuito de transformá-la em França Equinocial e daí o nome da capital homenagear o rei da França.
Grandes projetos como o "Reviver", iniciado em 1987, ganharam força com o total apoio do então governador e grande amigo, hoje senador, Edson Lobão (Imperatriz-Ma), do colega jornalista e então secretário de Meio Ambiente e Turismo, Fernando César Mesquita, do então prefeito Jackson Lago e do senador e ex-presidente José Sarney. Com eles, foram recuperados casarões antigos e o bairro da Praia Grande, reduto de jornalistas, intelectuais, boêmios e artistas maranhenses, tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional e onde eu o Beto tomávamos nosso tradicional chopinho nos finais de semana.
A capital é bela tanto a noite como de dia e o charme são os casarões antigos revestidos com azulejos lusitanos trazidos da Europa séculos atrás.
Existem vários pontos turísticos como as galerias subterrâneas que cortam a cidade; a Ilha de Alcântara; praias de mar aberto como Calhau e Ponta da Areia; o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses; o Palácio dos Leões, sede do governo e as manifestações culturais como o Bumba-Meu-Boi, Tambor de Mina, Orquestra do Axixá e Pindaré.
"Não existe lugar no mundo mais temperado e mais delicioso do que este...uma eterna primavera unida ao outono e ao verão", registrou o frade capuchinho Claude D' Abbeville que aqui chegou junto com os invasores franceses. O que ele disse representa a verdadeira sensação que o visitante sente ao andar em São Luís pela primeira vez. Caminhar pelas ruas, becos e escadarias do centro histórico é voltar no tempo, ao Brasil Colônia. Casarões, fachadas azulejadas, mirantes, sacadas, museus, igrejas barrocas e bizantinas enchem os olhos com sua rara beleza.
Outro ponto alto é a culinária maranhense. O arroz de cuxá é o prato número um feito a base de camarão seco, farinha de mandioca, gergelim torrado e vinagreira (vegetal de sabor acre e marcante). Também recomendo o suco da Jussara, uma fruta típica do Maranhão e que todos os anos é motivo de grandes festas onde o seu consumo é o grande atrativo.
De São Luís, como já disse antes, mudamos para Imperatriz, segunda maior cidade do Maranhão. Construída às margens da Belém-Brasília, Imperatriz não possui os encantos históricos de São Luís, sendo uma cidade um tanto desordenada que acompanha o trajeto da estrada e a beira do rio Tocantins. Mas, pelo menos na época em que lá residi, era um portal de entrada para a Amazônia, com um comércio forte e economia também próspera pela proximidade da Serra Pelada onde milhares de garimpeiros conseguiram o feito de transformar a serra que ali existia, no imenso buraco que todos por aqui devem ter assistido pela telinha.
Com fama de violenta, sendo inclusive alvo de uma picante piada feita pelo comediante Chico Anísio em um de seus programas, a Cidade passou verdadeiramente por muitos momentos de violência como o do triste assassinato do padre Jósimo (amigo pessoal), fato que repercutiu em todo o país e motivou a ida à cidade do então presidente Figueiredo, do delegado Romeu Tuma e de forte aparato de segurança. Até o SNI Serviço Nacional de Informações, possuia escritório lá. Sem dúvida, haviam muitos pistoleiros que ali residiam mas que com a chegada do desenvolvimento, foram embora.
Seu grande atrativo não é a paisagem urbana, mas sim o rio Tocantins que atrai turistas encantadas com as belezas das praias de areia branca que se formam no verão.
A beira do cais e as praias de água doce são onde grande parte da comunidade se reúne com destaque para os restaurantes flutuantes e suas peixadas divinas.
Se você minha amiga for a Imperatriz, não deixe também de saborear o tacacá, iguaria preparada com camarão e mandioca; a carne de sol (Restaurante Boi na Brasa) e a tradicional panelada.
Outra saudável arte é saborear os sucos naturais de Murici, Bacuri, Cupuaçu e Açaí, sempre muito procurados.
Fora da cidade, existe um grande pólo turístico conhecido Pedra Caída, em Carolina e também o Balneário de Tocantinópolis que valem a pena serem visitados se você for ao Maranhão.
Um dos pontos fortes e marcantes da população é a fé e a religiosidade. Transformada em Diocese, depois de pertencer a Carolina, Imperatriz é repleta de igrejas belíssimas e centenas de movimentos que realizam manifestações em que a comunidade participa ativamente. Fiz grandes amigos no clero, como o Padre Filinto, o Bispo Dom Alcimar e o ex-Padre Lourenço, pessoas muito queridas na comunidade.
Minha grande surpresa ficou por conta da mulher maranhense. Tradicionalmente submissa, ela também vai à luta e colabora no sustento da casa, mesmo contra o machismo dos homens rudes do sertão. Religiosas ao extremo, sofrem a dor das intempéries com a mesma resignação dos homens, mas mesmo assim, são mães e esposas carinhosas e afetuosas.
Vi em açudes, mulheres carregando pedras, quebrando o coco do Babaçu para preparar com a castanha o azeite e vi mulheres nordestinas no Campus da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), falando de liberdade, de fé e do amor pela terra, pelos seus e pelo criador.
Vi amigos morrerem e elas estavam lá, nas passeatas de protesto contra a violência que vitimou nomes como o Padre Jozimo, que obrigou o Governo a enviar a Imperatriz, o presidente João Batista Figueiredo, como já havia dito. Naquele dia, a cidade parou para pedir paz. Foi um momento marcante na vida de todos os que ali estavam.