JORNALISTAS MADE IN BRAZIL

Muito embora ainda não tenhamos no Brasil, jornais e revistas totalmente captaneados por mulheres, a exemplo de outros países, o mesmo não acontece com publicações femininas onde elas dão o toque feminino que faltava para o sucesso de tais veículos.

A Editora Abril é o primeiro exemplo. Lá, trabalha Micheline Gaggio Frank, francesa que começou sua carreira na mesma editora na Argentina. Quando a Abril foi fundada no Brasil em 1950, Micheline, convidada por Victor Civita, chegava para trabalhar e dar dimensão ao sucesso que hoje a empresa representa com todos os seus informativos. No príncipio, ela trabalhou com o gibi "Pato Donald", sendo depois, coordenadora da novíssima "Capricho", lançada em 1952. Em 1961, lançou a revista "Claudia" comandando a secretaria de redação, coordenadoria e produção. Por suas mãos, passaram depois: "Realidade", "Bom Apetite" entre outros lançamentos de sucesso da Abril.

Na mesma Abril, vamos encontrar outra personagem especial: Fátima Ali. Na empresa a mais de 20 anos, Fátima iniciou carreira em publicidade. Foi diretora da revistas "Manequim", "Setenta" e atualmente, dirige "Nova", desde o lançamento. São suas as palavras abaixo ( Imprensa Feminina, por Dulcília Schoroeder Buitoni) com relação à mulher:

"a imagem da mulher é resultado de um conjunto de forças que formam o contexto social; e os meios de comunicação representam uma dessas forças. O jornalismo feminino desenvolveu-se com a industrialização e com a publicidade, sendo a mulher o principal alvo consumidor: essas circunstâncias são inerentes à economia capitalista. Revista é feita para vender".

E continua:

"O jornal tem compromisso com a notícia, dá os fatos, analisa, opina. Revista não é assim; nem Veja. Revista começa do leitor. Você tem que encontrar o assunto e a linguagem que sejam do interesse do leitor, se não ele não compra. Se a revista não partir do segmento do mercado que escolheu, não sobreviverá. Começar do leitor inverte todo o processo. A postura de quem vai comprar é – o que esta revista vai me dar? Prefiro que a leitora compre a revista com a boneca pré-fabricada da capa; quando abri-la, vai ler o que eu tenho a dizer. Eu assumo isso como uma opção consciente.

Tudo é sério em Nova. Até um teste, cheio de brincadeirinhas, traz muitas verdades psicológicas. Na Nova tudo é serviço, principalmente serviço psicológico. Nas revistas americanas, moda, beleza, decoração, eram serviço, porque partem do leitor. Usamos temas emocionais a fim de despertar a racionalidade para tirar o emocional que está atrapalhando. Não damos conclusões; a leitora deve concluir por si. Existem revistas mais visuais; Nova dá mais espaço para a palavra que para a foto, porque precisamos de texto para reflexão".

Se você é leitor ou leitora do jornal "O Estado de São Paulo", já deve é claro, ter se entretido com o "Suplemento Feminino". Essa publicação é dirigida desde 67 pela jornalista Maria Lúcia Fragata Helena. Formada pela Cásper Líbero, Maria Lúcia é ferrenha defensora do "jornalismo e da segurança".

Ela diz:

"Jornalismo feminino em jornal encontra dificuldade de identificação profissional, é sempre o segundo escalão da empresa. Não dá para fazer um bom produto no improviso, com pessoas mal pagas. Além disso, a maioria dos jornalistas e mesmo as jornalistas mulheres, fazem pouco caso da imprensa feminina. As pessoas se formam e só pensam em trabalhar na editoria de política ou economia. Às vezes, tenho uma redatora que vai indo bem, mas basta surgir uma vaga qualquer no jornal, para que ela abandone o suplemento. É difícil alguém querer especializar-se em imprensa feminina. E eu acho que quem entende de jornalismo feminino tem muito campo hoje em dia".

Outra pérola do jornalismo nacional é sem dúvida, Cristina Duarte, 37 anos, jornalista e editora da revista "Claudia". Coordena uma redação formada quase que totalmente de mulheres e foi a grande responsável pela linha nacional da revista contra a internacionalização das matérias.

Suas palavras são profundas:

"As informações da Imprensa geral passam, as da imprensa feminina ficam. Eu acredito que o conversar com as pessoas passa muita informação. Não sei o que é que a frieza dos ensaios pode conferir de superioridade à informação. A grande imprensa formal e fria sairia ganhando muito se fosse mais simples, mais didática, menos interna – pois, na maioria das vezes, o jornalista escreve para um público de jornalistas. Mas não estou falando que a imprensa feminina tem a receita certa de se comunicar; ou que só o texto emocional vale. Admito todas as fórmulas, maneiras, todo tipo de escrita, a didática, a tatibitate, as mais profundas. A crítica à imprensa feminina é muito policialesca sobre o que ela deve ter. Ela deve ter tudo".

Para fechar com chave de ouro, Inês Castilho, cineasta e jornalista, dirige o jornal "Mulherio", já citado e Dulcília Schroeder Buitoni. Dulcília é professora de graduação e de pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes da USP e já militou por diversas revistas nacionais. Em 1981, brindou seus alunos e leitores de todo o país com o livro "Mulher de Papel" onde destila a história da mulher e o jornalismo feminino. É sem sombra de dúvida uma das maiores autoridades do nosso jornalismo moderno.


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