ELIS, A ESTRELA MAIOR
A mulher já foi homenageada de todas as formas e maneiras através da poesia, dos livros, do cinema e do teatro, mas é na música que os poetas foram mais fecundos.
Compositores como Dorival Caymmi, Ary Barroso, Tom Jobim, Lamartine Babo, Juca Chaves, Chico Buarque, Martinho da Vila, Pablo Milanés, Vinicius de Moraes, Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga, Noel Rosa, Paulinho Tapajós, Ivan Lins, Ataulfo Alves, Mário Lago, Lupicínio Rodrigues, Milton Nascimento entre outros compuseram obras primas direcionadas a nós. Eu mesma, tive uma música (Necktar) feita especialmente para mim no primeiro trabalho musical do meu esposo Beto Terra e só quem é homenageada por uma música, sabe o que isso significa.
Quem não conhece Lígia, Marina, Maria Betânia, Rosa Morena, Dora, Laura, Jou-Jou e Balangandãs, Luíza, Por Quem Sonha Ana Maria, Nanci, Etelvina, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Dalva, Elis, Beth Carvalho, Maria Helena, Yolanda, AnaMaria, Rosinha, Xandúsinha, Juliana, Carolina, Helena, Amélia, Maria Maria, Teresinha, Rita, Conceição, Maria Rosa, Dolores Sierra, Dama do Cabaré, Chica da Silva, Carmem Miranda, Aurora, Chiquita Bacana, Eva, Maria Escandalosa, Maria Candelária, Dolores, Odete, Madalena e Isaura, músicas elas ou homenageando uma mulher em particular ou todas as mulheres. E olha que nós merecemos!
Agora, na voz, a inimitável Elis Regina foi de todas a melhor. Hoje eu ouço as emergentes e gosto muito da Marisa Monte, Leila Pinheiro, da Zélia Duncan, da Ivete Sangallo, da Adriana Calcanhoto, mas a Elis... me marcou profundamente e todas as vezes que a ouço, sinto aquela emoção, a raça e a força da mulher.
Elis é para o Brasil o que é Amália Rodrigues para Portugal, Maria Callas para a Grécia e EUA, Billie Holiday e Ella Fitzgerald para os EUA e Edith Piaf, para a França.
Nascida em 17 de março de 1945, em Porto Alegre, signo de Peixes com ascendente em Câncer, ela começou a cantar com 11 anos no famoso Clube do Guri, programa infantil da Radio Farroupilha. Em 1961, gravou seu primeiro disco "Viva a Brotolândia" e que ela depois do sucesso, não gostava nem que tocassem no assunto.
Os produtores sentiram que aquela garotinha tinha futuro e a trouxeram para o Rio para cantar no Little Club e no Bottle's, boates famosas do também famoso Beco das Garrafas, em Copacabana onde atuaram os maiores nomes da MPB e Bossa Nova.
Usando para tal uma certidão de nascimento falsa, a danadinha chegava até ao ponto de correr para o banheiro para se esconder das constantes batidas policiais.
Seu grande momento veio no Festival da Record em 1965, quando ela defendeu a música "Arrastão" de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Sua interpretação é até hoje considerada a melhor no gênero e mesmo hoje, quando são reprisadas imagens daquele festival, sua performance causa impacto.
Da música para a telinha ao lado de Jair Rodrigues na apresentação do programa "O Fino da Bossa", Elis ganhou o país. E depois vieram outros como o mensal "Elis Especial".
Foi à Europa e cantou ao lado de Sacha Distel. Na Suécia, gravou um LP com o gaitista Toots Thielemans, só com músicas de bossa -nova.
Entrou para o time dos grandes e ajudou os que vinham iniciando suas carreiras, gravando pela primeira vez, Milton Nascimento, um ano antes do mineiro explodir com Travessia. Milton sempre a reverenciou como a maior e chegou ao ponto de cruzar com ela e devido a sua marcante timidez, não lhe dirigiu a palavra. Ela, com raiva correu ao seu encontro e foi direta e franca. "Como é, negão, ficou metido", indagou.
Gravou além de Milton, feras como Tom Jobim, Belchior e Guilherme Arantes e é a madrinha de João Bosco, descoberto por ela em 1970.
Era solidária e até mesmo Rita Lee conheceu o calor humano da "Estrela" quando foi presa por porte de maconha, Elis foi à delegacia prestar solidariedade a roqueira e acabaram virando grandes amigas. Rita compôs para Elis, "Doce Pimenta", recebendo em troca a gravação de "Alô Alô Marciano".
Uma de suas mais controvertidas atitudes foi quando ela, em plena ditadura, cantou o Hino Nacional para os militares durante as Olimpíadas do Exército. Foi malhada por Henfil (aquele da música), irmão do Betinho nas páginas do tablóide alternativo O Pasquim. Fula da vida, ela deu uma entrevista esculhambando o cartunista e foi mais uma vez, malhada. Os dois resolveram então fazer as pazes e Elis, fez a linda homenagem ao Betinho que estava exilado, cantando em "O Bêbado e a Equilibrista" o famoso trecho "meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil". Antes de morrer, Henfil confessou haver se arrependido pelos ataques que havia feito a Elis.
Não é atoa que seu apelido era pimentinha, que foi dado por Vinicius de Moraes. Elis não mandava recado e chegou ao ponto de brigar feio com Caetano Veloso e Gilberto Gil por interferências em suas músicas. Tudo aconteceu por que ela cantou errado um verso de "Oriente", música de Gil e o compositor ficou magoado. Com Caetano, a briga se deu no show Transversal do Tempo ao aparecer com uma placa Beba Gente com a logomarca da Coca-Cola como cenário para a música Gente. Caetano considerou a idéia agressiva e foi tomar satisfações, recebendo de volta toda a raiva da cantora.
Seu grande sonho era "Ter uma Casa no Campo", realizado em 76 quando se mudou para a Serra da Cantareira ao lado de César Camargo Mariano e três filhos.
Namoradeira de carteirinha, passou pelos braços de Nelson Motta, Pierre Barouth, e Roberto Menescal. Também foi casada com Ronaldo Bôscoli e é dessa época que aprontou barbaridades para cima dele, fatos que ele relatou antes de sua morte no livro "Eles e Eu", aos jornalistas Luiz Carlos Maciel e Ângela Chaves. No livro, Ronaldo conta que dias antes do casamento, Elis fazia o gênero virgem, mas vivia desfilando de camisola na frente do noivo. Como ele não reagia, partiu pra cima e o encostou na parede dizendo: "Você é viado ou me acha uma merda? ". Depois de tal interpelação, os dois ficaram trancafiados no quarto por 48 horas, sem atender ninguém, transando sem parar.
Se no palco Elis era insuperável ,em sua vida amorosa as coisas não iam tão bem assim. Seu casamento com César Camargo Mariano estava desabando quando ela se matou com uma overdose de cocaína e álcool, ironicamente tal qual Billie Holidey, cantora americana com quem Elis sempre foi comparada.
Quem contou sua vida de forma impressionante foi a jornalista Regina Echeverria no livro "Furacão Elis" que despertou o interesse da Globo em lançar uma minessérie, vetada pela família.