VINICIUS – POESIA DE MULHER

Nenhum poeta foi tão feliz e merecedor de nosso respeito, como Vinicius de Moraes. Carioca da Gávea onde nasceu em 19 de outubro de 1913, escreveu seu primeiro poema aos sete anos e não parou mais. Formado em Direito no Rio e em Literatura Inglesa, por Oxford, o "poetinha" enveredou pelo místico, por temas sociais, lirismo que fez dele também um excelente compositor ao lado de grandes nomes da bossa-nova. Faleceu no Rio de Janeiro em 9 de julho de 1980. Separei aqui, alguns poemas direcionados às mulheres daquele que sempre foi e será o papa da poesia feminina do Brasil.

A UMA MULHER

Quando a madrugada entrou,

Eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito

Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias

E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.

Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino

Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne

Quis beijar-te num vago carinho agradecido

Mas quando meus lábios tocaram teus lábios

Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo

E que era preciso fugir para não perder o único instante

Em que foste realmente a ausência de sofrimento

Em que realmente foste a serenidade.

A BRUSCA POESIA DA MULHER AMADA

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede, lentamente...

Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!

A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo

A mulher amada é como o lado dormindo no cerro perdido

Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito

Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálido dos lírios

E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias

Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

 

A MULHER QUE PASSA

Meus Deus, eu quero a mulher que passa

Seu dorso frio é um campo de lírios

Tem sete cores nos seus cabelos

Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas

Que me sacias e suplicias

Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia

Teus sofrimentos, melancolia.

Teus pêlos leves são relva boa

Fresca e macia.

Teus belos braços são cisnes mansos

Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas

Que vens e passas, que me sacias

Dentro das noites, dentro dos dias!

Por que me faltas, se te procuro?

Por que me odeias quanto te juro

Que te perdia se me encontravas

E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?

Por que não enches a minha vida?

Por que não voltas, mulher querida

Sempre perdida, nunca encontrada?

Por que não voltas à minha vida

Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Eu quero-a agora, sem mais demora

A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica

Que é tanto pura como devassa

Que bóia leve como a cortiça

E tem raízes como a fumaça.

 

SONETO A KATHERINE MASFIELD

O teu perfume, amada – em tuas cartas

Renasce, azul.... – são tuas mãos sentidas!

Relembro-as brancas, leves, fenecidas

Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... – nas terras percorridas

Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto

Paro – e tão perto sinto-te, tão perto

Como se numa foram duas vidas

Pranto, tão pouca dor! Tanto quisera

Tanto rever-te, tanto!.... e a primavera

Vem já tão próxima!.... (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos, e das preces!)

E no perfume preso em tuas cartas

À primavera surges e esvaneces.

 

SONETO DE CONTRIÇÃO

Eu te amo, Maria, te amo tanto

Que o meu peito me dói como em doença

E quanto mais me seja a dor intensa

Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto

Ante o mistério da amplidão suspensa

Meu coração é um vago de acalanto

Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma

Nem melhor a presença que a saudade

Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade

Que tão mais te soubesse pertencida

Menos seria eterno em tua vida.

 

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.


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