A COR PÚRPURA
Quando eu estive como enviada especial no III Fórum Nacional de Primeiras Damas e Administradoras Municipais, realizado de 13 a 16 de março de 1995, em Curitiba, conheci mulheres fascinantes e uma delas, foi a senadora Marina Silva. Lá, entre tantas personalidades importantes, ela com sua humildade e carisma, conquistou a todas nós e entre um intervalo e outro, concedeu-me alguns momentos de descontraído bate-papo onde fiquei sabendo que foi um livro, "A Cor Púrpura", de Alice Walker, o responsável por ela ter abraçado definitivamente a luta em prol das minorias.
O Acre, no ano de 1988, vivia em pleno caos com a morte do seringueiro Chico Mendes - assassinado por Darli Alves da Silva e seu filho, Darcy, personagens conhecidos dos umuaramenses e vilaautenses pelo assassinato de Acir Urizzi, cujo julgamento aconteceu aqui mesmo em Umuarama no dia 16 de agosto, sendo naquela oportunidade, condenado a 12 anos de prisão e Marina, havia sido eleita vereadora em Rio Branco, ela relembra "vivíamos com o espírito permanentemente armado para a luta, representávamos a história e o futuro, cultivávamos a linguagem e as atitudes de quem tinha o sonho de revolucionar o mundo".
Naquela época, Marina sofria na pele o que era ser uma mulher de vida pública com todas as responsabilidades pesando contra ela. Mesmo assim, encontrava forças para cuidar do lar, dos filhos e da militancia. "Creio que, em geral, as mulheres sentem mais agudamente que o homens essa tensão entre o individual e o coletivo. Afinal, além subirmos no palanque para falar nas assembléias carregamos a responsabilidade de deixar pronta a mamadeira das crianças, fazer as compras da casa, ouvir as queixas dos parentes e todas essas coisas do "lado emocional" que são tão importantes e tão desprezadas na vida agitada dos militantes de esquerda".
Foi por essa época que Marina, deparou-se durante a leitura do livro "A Cor Purpura", com uma nova e triste realidade, até então não totalmente assimilada por ela. "não me lembro se antes ou depois da eleição, que li "A Cor Púrpura", de Alice Walker. Não posso escolher, entre os livros que li, apenas um que tenha "feito a minha cabeça". Mas numa lista de cinco, esse romance certamente entraria. Porque veio no momento certo, o momento em que acontecia na minha vida um salto semelhante ao que aconteceu com a personagem principal do livro. Minha identificação foi imediata. Eu chorava longamente a cada página, pelos dramas que ali são narrados mas também pela semelhança com os sofrimentos que eu via na vida e nas pessoas que conheci em meu caminho do seringal para a cidade".
No livro, Marina até hoje de passagens que a marcaram para sempre e que segundo ela, refletiam o que ela estava vivendo naquele momento. "O que me tocou mais foi a afirmação lenta, silenciosa, da personagem do romance, depois de uma vida inteira de sofrimento. Era como eu me sentia: aquela coisinha insignificante, pequena, paralisada pelo medo, assombrada por todo tipo de fantasma, inferiorizada ao extremo e que, de repente, explode em mil possibilidades de afirmação, prazer, aceitação, conhecimentos, sabedoria. Uma força latente, quase oculta, que acaba transbordando como um lago depois das chuvas.
No drama daquelas negras norte-americanas eu via o meu próprio, da minha família, dos meus amigos e companheiros. Nas tragédias de outro povo, eu via a história do meu próprio povo. E lia, em palavras simples, o que as teorias não descreviam com tanta ênfase: o quanto a miséria e a opressão podem aviltar o ser humano, mutilá-lo, aniquilar seu brilho. E, no entanto, o quanto pode haver de esperança mesmo em meio à maior desgraça".
Foi um despertar para algo novo, supremo e divino e que moldou para sempre a auto-afirmação da mulher de origem humilde e que tanto ainda iria fazer pelos oprimidos da Amazônia. Ela, relembra e por vezes, parece refletir no passado distante..." O livro me incentivou a perder o medo de demonstrar minhas emoções, de afirmar a importância do amor, de dar à ética mais importância do que à tática. E, como a maioria dos capítulos do livro são cartas escritas para Deus, recebi também uma ajuda para a afirmação da minha religiosidade, coisa que era sempre encarada com preconceito nos círculos da esquerda mais "letrada". Também pude olhar mais diretamente e com mais sinceridade para a sexualidade, especialmente o homossexualismo. Sempre tive amigos e amigas homossexuais mas, reconheçamos, fica sempre no ar um certo tabu. A gente não fala no assunto e "respeita" as opções de cada um de uma maneira puramente racional. Outra coisa é perceber o valor humano, o amor humano, a privação e a liberdade que cada pessoa vive ou, como diz o Caetano, "a dor e a delícia de ser o que é".
O livro a que Marina se refere, se passa entre os negros norte-americanos na primeira metade deste século. E por tratar de comunidades etnicamente diferenciadas, com marcas da escravidão, acaba tocando numa questão universal: a identidade, o senso de pertencimento. Quem o lê, acaba se emocionando ao extremo porque lembra que aquela história tem tudo a ver com o Brasil e seus contrastes gritantes.
"Meus olhos se abriram para essa realidade que vivemos na Amazônia mas que é igualmente forte em todas as regiões. A meu ver, qualquer luta está destinada ao fracasso se suas bandeiras não dizem respeito à cultura, à auto-estima, à valorização do saber dos povos. Nenhuma ideologia pode substituir a identidade. Às vezes nos perguntamos porque nossos movimentos e partidos já não arrebatam e seduzem as multidões como antes. Talvez seja porque temos insistido num racionalismo que vai ficando cada vez mais estéril, incapaz de gerar novas formas de contato com as pessoas e comunidades. Talvez pela estrutura patriarcal de nossas organizações, sua hierarquia vertical que cria inevitavelmente uma disputa interna pelo "poder". Talvez pela idéia de que o poder baseia-se na força e na rigidez, não na sensibilidade e na flexibilidade.
A sabedoria oriental diz que a água é a coisa mais poderosa porque não oferece resistência. Compreendi isso no livro e também na observação da vida. Pude ver a força das pessoas que sofrem, as mais oprimidas, aquelas a quem ninguém dá importância. E fiquei mais atenta para a presença das pessoas "invisíveis". Nós estamos rodeados por elas: o garçom no restaurante, a empregada doméstica, o passageiro no ônibus, o contínuo que traz o cafezinho, o tempo todo os que se sentem "importantes" agem como se essas pessoas não estivessem ali. Elas ocupam apenas espaço físico, não cognitivo.
Lembro de uma ocasião, quanto trabalhava como empregada doméstica e transitava pela casa cuidando de meu trabalho em meio a visitas e familiares dos donos da casa. Eles conversavam algum assunto íntimo e delicado e alguém alertou para a minha presença, dizendo que eu poderia ouvir a conversa. Outra pessoa respondeu: "que nada, é só uma empregada abestada, nem entende o que nós estamos falando". Fiquei calada e vi o tamanho da injustiça que aquela pessoa estava cometendo. Eu era uma pessoa jovem, tinha sonhos, estava estudando num curso supletivo, trabalhando, fazendo meu caminho na vida. Eu não era uma coisa. Ninguém é, acho que nem mesmo as coisas são apenas coisas".
Quando nosso tempo já se encerrava, ela me olhou agradecida e com ar de desabafo, disse: "O que aprendi lendo "A Cor Púrpura" me acompanha sempre. São coisas que identifico no dia-a-dia, no fazer da política, no exercício do poder público, no contato com pessoas as mais variadas, desde o presidente da República até o seringueiro. Recomendo a leitura desse livro a todos, mas especialmente às pessoas excessivamente racionais, porque essas correm o grande risco de esquecer que os livros devem fazer não apenas a nossa cabeça mas também o nosso coração".
Marina Silva, 39, historiadora, é senadora pelo PT do Acre.