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Everaldo d'Alverga

 

Sebastião Salgado:

A  Estética da Luta pela Dignidade

 

Sebastião Salgado, fotógrafo premiado no mundo inteiro, mora em Paris, mas nasceu no Brasil, no ano de 1944, em Aimorés, Minas. Começou sua vida no fotojornalismo em 1973. Em 1968 torna-se mestre em Economia na Universidade de São Paulo e na Vanderbilt, nos Estados Unidos. Começa a colaborar para a agência Sigma em 1974, cobrindo os acontecimentos em Portugal, Angola e Moçambique. No ano seguinte entra para a agência Gamma e em 1979 vai para a agência Magnum. Deixa a  Magnum em 1994 e junto com sua esposa, Lélia Wanick Salgado,  cria a Amazonas Images, iniciando o projeto sobre o movimento de populações no mundo, que durou seis anos e deu origem ao ÊXODOS.

Salgado procedeu palestra na manhã de segunda-feira, 19 de junho de 2000, no auditório da UERJ e apresentou, na Galeria da entidade, o making of de ÊXODOS e RETRATOS DE CRIANÇAS DO ÊXODO, exposições inauguradas respectivamente no Museu do Universo, Planetário, e no Instituto Moreira Salles, RJ, na noite do dia 20 de junho de 2000, que, aliás, seguem até o dia 06 de agosto.

Em um mundo dominado pelas tecnologias da imagem suas fotografias contribuem para o desenvolvimento da criação artística no fotojornalismo e do estudo para um melhor entendimento sobre a cultura do olhar, além de provocar reflexões sobre os temas sociais, as configurações econômicas e políticas que se entrelaçam em um determinado período histórico.Sebastião Salgado é crítico ao fazer uma reflexão de situações capturadas (ou refletidas?) por suas lentes mostrando  o resultado das resoluções que ocorrem nos centros de poder, mostra o lado excludente da globalização. Mostra a exclusão daqueles que não são economicamente úteis, homens, mulheres, velhos e crianças. Ao mesmo tempo exerce uma função social relevante que é a do jornalista agente da História. Função social  que reúne em uma só todas as outras funções que vieram se desenvolvendo através do amadurecimento do jornalismo.

  Sebastião Salgado na Galeria da UERJ O Palestrante no auditório da UERJ 

Nos seus trabalhos documentais da ênfase à fotografia para conscientização por acreditar no potencial da imagem, da linguagem fotográfica, uma linguagem que pode ser entendida em qualquer lugar do Universo, e do seu poder de contribuição para a transformação do homem contemporâneo. Por  sua formação em Economia poderia utilizar somente a escrita para fazer uma comparação entre idéias, princípios e valores desenvolvidos sobre teorias e os discursos sociais verbais e não verbais, mas sabe que dessa maneira atingiria um grupo pequeno e privilegiado de esclarecidos que com suas práticas de exploração causam crises nos modelos éticos e estéticos desenvolvidos pôr eles para a configuração do saber e do poder.

Ao olharmos as sua fotografia retornamos a Agência Magnum e encontramos na mesma escola duas linhas diferentes de pensamento. Enquanto Cartier-Bresson sustentava a “necessidade da câmara transformar-se em uma extensão do olho”, Sebastião Salgado deixa transparecer que a câmara não é apenas isso, é também extensão do coração, emoção enquanto expressão dos sentimentos - o homem formador de opinião, e mente - consciência histórica , função crítica.

Do coração quando acrescenta ao pensamento de Cartier-Bresson que o momento decisivo não é um só e sim vários (quando se evoluí por dentro da parábola Bressoniana). Para Salgado é necessário que o fotógrafo procure conviver com as necessidades e ansiedades das pessoas ou grupos que vão ser fotografados  (formador de opinião). É preciso haver o envolvimento emocional. Todo momento é decisivo.

Nesse envolvimento o trabalho em preto e branco não reduz a realidade exterior da figura fotografada. Realidade que poderia ser amenizada ou até diluída psicologicamente caso as fotografias fossem realizadas em cores. Suas fotografias conseguem dar sentido à vida interior (como pessoa) falsamente interpretada como estética , falsamente interpretada como dignidade de uma pessoa mesmo na miséria, particular (envolvido no meio) e coletiva (enquanto grupo social).

O fotógrafo não deve se colocar como um ser alienado aos motivos fotografados. Não deve ficar do lado de fora da parábola como observador, segundo Bresson, esperando essa mesma parábola evoluir até tangenciar a linha de observação do fotógrafo.

Em um exercício especulativo podemos afirmar que a fotografia de Sebastião Salgado é em primeiro lugar diáfana, no sentido que “sendo compacta, dá passagem à luz” transformando os momentos decisivos em um signo divino, não no sentido religioso e sim sublime, isto é, atingindo hoje o mais alto grau de perfeição Estética na apresentação da fotografia em preto e branco.

Podemos afirmar que “Estética da Dignidade” é pensamento de pessoas ou de grupos de tecnocratas com visão somente em problemas econômicos e  um discurso inconsciente e reprodutor de uma cultura apoiado no tecnicismo desenvolvimentista, sem olhar e analisar  as suas conseqüências sociais, ou de maneira mais simples: discurso de colonizador ocidental cristão.

Podemos afirmar portanto em ÊXODOS, a saída de grandes grupos de pessoas, que a dignidade está na luta e na procura, tanto do repórter fotográfico (o jornalista com a função de agente da História) como do fotografado (vítima da História), por um mundo, por uma condição de vida sem diferenças econômicas que causem miséria. Não existe estética e nem dignidade na miséria, existe sim: ESTÉTICA NA LUTA PELA DIGNIDADE.

 

  • Everaldo d'Alverga é Jornalista, Fotógrafo e Coordenador de cursos regulares de Fotografia.

 

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