Onde tudo Começou...

 

No dia seguinte Porto da Folha acordou com as badaladas dos sinos da igreja, que anunciavam a morte de alguém. Os tios do Davi, que criaram Tadeu, aguardavam-no na sala de visitas da casa da dona Débora. Ele cumprimentou seus tios já desconfiado que algo de trágico havia acontecido.

- O que houve?

A tia dele começou a chorar e abraçando-o, contou:

- Seu irmão está morto. Alguém preparou uma emboscada para ele, próximo da Casa das Heteras. Dona Diva e as heteras levaram-no ao hospital, mas já chegou morto. Foram quatro tiros, dois no peito e dois na cabeça.

Davi não chorou, mais ficou muito triste com a morte do seu irmão. Apesar do Tadeu não ter sido uma pessoa querida naquela cidade, muitas pessoas foram ao seu velório. As únicas pessoas que estavam chorando no velório eram a tia, dona Diva e as heteras; só Marina não tinha ido ao velório. Fábio, o prefeito e o Sr. Paulo chegaram juntos ao velório. Todos estavam com ódio do Sr. Paulo pelo o que ele havia feito à filha e ao neto. Em sinal de respeito à família do falecido toleraram a sua presença. Vários seguranças dele estavam do lado de fora, prontos para agir se fosse preciso. Às onze horas o caixão seguiu para o cemitério. No momento que os coveiros se preparavam para descer o caixão na cova, Bruno chegou sozinho e entregou um bilhete disfarçadamente ao Gilmar e saiu de perto dele. Gilmar leu o bilhete e saiu sorrateiramente do cemitério. Quando Mário, Davi, Iara e Cláudia chegaram na casa da dona Débora viram Gilmar tirar a pistola que pertencia ao seu pai, detrás da escultura.

- Vocês devem está pensando que fui eu que matei Tadeu...

Tocou a campainha, ele ficou assustado.

-...Vocês precisam acreditar em mim, não matei o Tadeu.

- Acredito. - disse Cláudia.

- Agora não dá para explicar nada a vocês, porque preciso esconder essa arma, senão o delegado Barreto a encontrará. Provavelmente foi ele quem tocou a campainha...

Tornou a tocar campainha, duas vezes em seguida.

- É claro que eu acredito em você, vá esconder logo essa arma. – disse Davi.

Gilmar saiu pelos fundos da casa. Iara abriu a porta e mandou o delegado Barreto entrar.

- Davi, apesar de saber que você e o Tadeu não se davam bem, sei que está sofrendo pela maneira brutal que seu irmão morreu, meus pêsames. Posso sentar?

- Fique a vontade delegado Barreto.

- Suponho que Gilmar esteja em casa, à moto dele está parada aí fora.

- Ele está tomando banho, costuma demorar...

-...Espero, preciso lhe fazer algumas perguntas.

- Quais perguntas? – perguntou Iara.

- Aquelas perguntas de costume, que se faz quando se está investigando um assassinato. Onde o suspeito estava na hora do crime e com quem... Estas coisas de praxe.

- Você está dizendo que o Gilmar é suspeito do assassinato do Tadeu, por quê?

- Porque seu primo era inimigo da vítima e estava na Casa das Heteras na noite do crime...

-... Então nós também somos suspeitos! Não éramos inimigos do Tadeu, não nos dávamos bem com ele, e também estávamos na Casa das Heteras na noite do crime, junto com o Gilmar.

- Cláudia, se você não tivesse me interrompido eu já teria lhes explicado porque o Gilmar é suspeito e vocês não, até o presente momento. Sei a hora que o Gilmar, Mário e Davi chegaram à Casa das Heteras, e que você e a Iara chegaram vinte minutos depois, e também a hora que foram embora. Vocês retornaram à Casa das Heteras naquela noite do crime?

- Depois que saímos da Casa das Heteras fomos deixar a Cláudia e a Iara na casa da dona Rebeca. Ficamos conversando lá até meia noite e depois fomos embora dormir. - Respondeu Davi.

- Você e o Mário foram dormir, mas o Gilmar não, ele foi visto por uma das heteras sentado em sua moto, em frente à Casa das Heteras, uma hora antes do crime, ou seja, às três horas da madrugada. Tadeu foi assassinado às quatro horas da manhã, por alguém que é um exímio atirador. Nas forças armadas se formam exímios atiradores, Gilmar era da Marinha. O assassino disparou quatro tiros certeiros em Tadeu, quando ele estava voltando para cidade em sua moto.

Dona Débora e o Dr. Fernando chegaram nesse momento.

- Ainda bem que vocês chegaram, estou com um mandado de busca e apreensão... Vamos mandar a pistola que pertenceu ao falecido capitão Ivo Rosenberg para exame de balística em Aracaju. A balística nos dirá se os projetis retirados do corpo do Tadeu foram disparados por essa pistola. Aqui está o mandado de busca e apreensão, dona Débora.

Ela leu e depois entregou ao Dr. Fernando.

- O delegado Barreto pode chamar os policiais que estão aí fora, para revistar a minha casa.

- Isso não é necessário, basta a senhora me entregar à pistola...

-...Ela lhe entregaria a pistola se essa pistola se encontrasse em seu poder. Essa pistola foi furtada desta casa.

- O Dr. Fernando não espera que eu acredite nessa história, não é mesmo?

- O delegado Barreto terá de acreditar, porque é verdade. Eu e a dona Débora estamos vindo da delegacia. Fomos registrar o furto dessa pistola.

-Fica muito difícil para eu acreditar que essa pistola foi furtada desta casa, sendo Gilmar suspeito do assassinato do Tadeu. Quando foi que a dona Débora notou que a pistola havia sido furtada?

- Algumas horas antes de ir ao velório do Tadeu.

- Infelizmente sou obrigado a mandar os policiais revistar a casa.

Quando os policiais estavam revistando a casa Gilmar chegou, descascando uma manga, bem tranqüilo. O delegado percebeu que Davi havia mentido, e olhou-o zangado.

- Gilmar você me disse que ia tomar banho, foi justamente isso que disse ao delegado Barreto quando chegou aqui para lhe fazer algumas perguntas.

- disse que ia tomar banho depois de tirar algumas mangas. O que estes policiais estão fazendo?

- Estão procurando a pistola que pertencia ao seu pai. A mesma pistola que apreendi da sua mãe, quando ela disparou vários tiros no boneco. A mesma que tornei a apreender naquela confusão que houve no Odeon, lembra?

-... O delegado Barreto não está acreditando que alguém entrou aqui e furtou essa pistola, entretanto, acredita que um ex-tenente da Marinha tenha cometido um assassinato tão estúpido assim? Um débil mental teria planejado algo mais inteligente. Descubra quem entrou aqui e furtou a pistola, assim chegaremos ao verdadeiro assassino do meu irmão.

- Não preciso que me diga o que fazer, sei conduzir uma investigação. Gilmar você foi visto por uma das heteras sentado em sua moto em frente à Casa das Heteras, uma hora antes do assassinato do Tadeu. Quem você estava esperando?

- Ninguém. Parei alguns minutos em frente à Casa das Heteras para dar carona a alguém que viesse para cidade.

- Quer dizer que você retornou a Casa das Heteras depois que Davi e Mário foram dormir só para ver se alguém precisava de carona?

- Não! Depois que Davi e Mário foram dormir fiquei lendo aqui, na sala de visitas. Ouvi um barulho no portão e fui ver quem era... O Beto, veio pedir-me que o levasse até a casa dele, na fazenda Oliveira. Ele tinha vindo à cidade comprar remédio para fazer inalação em seu filho, mas seu jipe quebrou em frente à farmácia. Como ele não conseguiu consertar, veio pedir-me este favor. Na volta parei na Casa das Heteras para dar carona a alguém que quisesse, mas como não apareceu ninguém, vim embora. Cheguei em casa às três e vinte da madrugada...

-...Sou testemunha disso delegado Barreto, eu havia me levantado às três horas da madrugada para tomar meu remédio. Fui eu quem abri o portão da garagem para que ele pudesse guardar a sua moto. Depois ficamos conversando até às cinco horas da manhã. Isso descarta a possibilidade dele ter assassinado Tadeu.

- Exatamente! Se o delegado Barreto quiser confirmar minha história, basta ir a oficina do Sr. Militão, o Beto está lá esperando o conserto do seu jipe.

Nesse momento um dos policiais procurou a pistola detrás da escultura, o delegado ficou olhando e se irritou quando o policial lhe fez um sinal que não havia nada ali.

- Podem parar de revistar a casa. Dona Débora desconfia de alguém, que furtou a pistola?

- Não. A pessoa que furtou a pistola sabia onde eu a guardava, porque nada foi revirado nesta casa nesses últimos dias.

- Vamos tentar descobrir quem furtou essa pistola. Se a senhora desconfiar de alguém me avise imediatamente.

Depois que o delegado foi embora com os policiais, Gilmar abraçou Davi.

- Estou contente desta vez, por você ter confiado em mim, Davi. Estou impressionado, minha mãe, por ter mentido para o delegado Barreto. Ela não abriu o portão da garagem, nem sequer estava acordada quando cheguei. Guardei a moto sem fazer barulho para não os acordar e fui dormir em seguida.

- O que uma mãe não faz para defender seu filho! Principalmente quando sabe que é inocente. Filho, está na hora de você contar a eles o que veio fazer aqui.

- Do que a senhora está falando?

- Quando é que você vai entender que jamais conseguirá esconder algo de mim. Conte a eles o que veio fazer aqui. Você vai precisar da ajuda deles para desbaratar essa quadrilha de traficantes que se instalou em Porto da Folha.

Gilmar olhou para o Dr. Fernando, como se lhe perguntasse se havia dito algo à sua mãe.

- Não contei absolutamente nada à sua mãe, nem sei como ela soube, mas acho que ela tem razão.

- Tudo bem, vou contar para eles. Fui designado para desbaratar essa quadrilha que se instalou nesta região. Fui transferido do setor de narcótico do Rio de Janeiro para o de Aracaju com o encargo de cumprir essa missão, uma vez que não chamaria a atenção dos traficantes por ser filho desta terra. Escolhi esse visual justamente para ninguém desconfiar que sou agente federal. Não contei a vocês antes, por achar que seria mais seguro. Dr. Fernando soube da operação São Francisco através do Dr. Daniel Alencar, que é amigo do Delegado da Polícia Federal, do setor de narcótico, o Delegado Mendes. A operação São Francisco tem como objetivo eliminar todas as plantações de maconha nas cidades que ficam às margens do rio São Francisco. Que se alastraram assustadoramente nos últimos anos. Além de prender os traficantes e as pessoas envolvidas. Naquele dia que dormimos no casarão da fazenda Batavo, saí de madrugada para procurar plantações de maconha em duas fazendas, na do Dr. Jonas e na do Sr. Paulo. Em ambas há um número grande de seguranças, muito bem armados. Para que aquelas fazendas precisam de tantos seguranças? Certamente não é para defender plantação de uva ou cana-de-açúcar, é o que elas cultivam. Não encontrei nenhum pé de maconha, apenas um galpão fechado na fazenda de Dr. Jonas. Ao entrar no galpão fiquei impressionado com a quantidade de botijões de gás que havia... Eram milhares. Dr. Jonas é o dono da maior distribuidora de botijão de gás desse Estado, também é dono daquele galpão que há em Canindé, ao qual eu, Davi e Mário estivemos. Quando fui levar o Beto em sua casa, lhe pedi uma corda emprestado e voltei a este galpão e descobri que ali funciona uma oficina que altera os botijões de gás. Entendi porque aqueles homens foram executados naquele galpão. Não havia perigo de explosão, os botijões não têm gás, são alterados para transportar as drogas dentro deles. É assim que as drogas chegam nas cidades de Sergipe, através da distribuidora de gás do Dr. Jonas, ele é chefão da quadrilha. O delegado Barreto faz parte dessa quadrilha, ele entrou aqui em casa já sabendo que ia encontrar a pistola detrás da escultura. Bruno entregou-me este bilhete lá no cemitério, está escrito: “Gilmar, vá imediatamente à casa da sua mãe e procure a pistola que pertencia ao seu pai e a esconda. O assassino usou essa pistola para matar Tadeu e armou para você levar a culpa. Você nem sequer deve estar sabendo que essa pistola foi retirada da casa de sua mãe. Essa pistola foi escondida em algum lugar durante este velório. Após o enterro o delegado Barreto vai até à casa de sua mãe para pegá-la e incriminá-lo. Sei que você é agente federal e está investigando o tráfico de drogas em Porto da Folha. Estou disposto a revelar tudo que sei, vou estar em minha casa após o enterro”.

Gilmar, Mário, Davi, Iara e Cláudia foram conversar com o Bruno. Ele já estava em casa, com Luciana, aguardando-os.

- Cláudia, você trancou a porta?

- Tranquei. A mamãe está em casa?

- Não, ela saiu. Eu e a Luciana estávamos esperando vocês.

- Obrigado, Bruno, por me avisar da armação que fizeram para me incriminar.

- Fiquei com receio de você pensar que eu estava lhe levando para uma cilada.

- Se fosse o Fábio que tivesse me entregue aquele bilhete, certamente pensaria nesta possibilidade, mas você jamais faria algo assim. Sei que você andou fazendo muitas coisas erradas, mas seria incapaz de fazer algo dessa natureza, sabemos que você não é uma pessoa diabólica.

- Bruno, como você soube que Gilmar era agente federal e que havia um plano para o incriminar? – perguntou Iara.

- Quando o Dr. Daniel esteve aqui em casa ouvi a conversa dele com a minha mãe. Ele contou a ela sobre a operação São Francisco. A Marina me contou que havia um plano para incriminá-lo, Gilmar. Ela era muito amiga do Tadeu, não havia segredos entre eles. Marina era apaixonada pelo Tadeu, e por causa dessa paixão ele arranjou um inimigo perigoso, o delegado Barreto, que tem um amor doentio por ela. Tadeu gostava muito da Marina, mas apenas como amiga. O delegado Barreto vivia enchendo a Marina de presentes e, de tanto se rastejar aos pés dela, conseguiu convencê-la a ir morar com ele. Ela fez questão de deixar bem claro, que jamais terminaria a amizade com Tadeu; ele concordou, mas só no princípio, talvez porque pensasse que ela fosse se apaixonar por ele e se esqueceria do Tadeu, mas isso não aconteceu e as brigas entre eles surgiram. Ele comprou uma linda casa em Aracaju, em frente à praia, mas ela não quis se mudar para lá, e ele ficou furioso. Tadeu decidiu se afastar de Marina, para que eles pudessem se entender. Tadeu achou que ela poderia ser feliz ao lado daquele homem até o dia em que descobriu que ele andava batendo nela. Os dois brigaram feio na fazenda do Dr. Jonas. Só não houve morte porque o Dr. Jonas mandou que seus homens os apartassem. Como Tadeu havia levado a melhor na briga, Dr. Jonas advertiu ao delegado Barreto que se algo acontecesse ao Tadeu ele pagaria com a própria vida. O delegado teve que engoli Tadeu para não contrariar a ordem do chefão do tráfico de drogas.

- Por que o Dr. Jonas defendeu o meu irmão?

- Como todos sabem, Dr. Jonas é homossexual...

- Tadeu tinha um caso com ele?

- Não, Davi, é uma pena que você não tenha conhecido o verdadeiro Tadeu. Poucas pessoas conheceram. Ele se divertia fazendo papel de vilão, mas no fundo era uma pessoa boa. Ele dizia que era difícil as pessoas gostarem dele. Pensava assim porque os pais do Gilmar não quiseram criá-lo depois que seus pais morreram, quiseram apenas o Davi.

- Isso não é verdade, meus pais queriam criar os dois, mas os tios dele, não deixaram, permitiram que criasse apenas o Davi.

- Tadeu só soube disso há pouco tempo atrás. Vocês devem estar lembrados daquela vez que ele foi à escola de música com vários passarinhos mortos dizendo que havia matado com sua baleadeira. Era mentira, ele nunca matou um passarinho. Ele odiava os meninos que caçavam passarinhos. Aqueles passarinhos mortos foram tomados dos meninos que haviam caçado e enterrados no quintal de sua casa. Tadeu tinha ciúme porque Davi não brincava com ele, mas brincava com Gilmar. Por isso cresceu tendo bronca do Gilmar, não tinha ódio, era só bronca. Ele sofreu muito ao perder os pais e por ter se separado do único irmão. Quando Davi foi para a Universidade ele queria ajudá-lo financeiramente, tirou todo dinheiro que havia ajuntado na sua caderneta de poupança e fez com que Davi encontrasse esse dinheiro próximo ao portão da Universidade Tiradentes.

- Quer dizer que o envelope com dinheiro que encontrei próximo ao portão da Universidade foi Tadeu quem deixou para que eu pudesse encontrar?

-... Foi. No envelope haviam mil oitocentos e cinqüenta reais, para ser mais preciso havia trinta e sete notas de cinqüenta reais.

- Mas por que ele fez isso?

- Porque ele lhe amava e sabia que você estava precisando de dinheiro. Ele me contou que ficou várias horas estudando a hora exata de deixar o envelope no chão a fim de que você encontrasse.

- Aquele dinheiro tirou-me do sufoco. Você ainda não respondeu por que Dr. Jonas o defendeu.

- Porque o Dr. Jonas era apaixonado por ele, mas eles não tiveram nenhum caso. Dr. Jonas dava o que ele quisesse para terem um caso. Sabe qual foi a resposta do Tadeu? “Cada pessoa tem seu lado puritano, meu lado puritano é ser heterossexual”. Tadeu foi muito audacioso ao dizer isso ao Dr. Jonas. Ele não é um homossexual qualquer, é o chefão do tráfico de drogas. Dr. Jonas aceitou esse não porque admirava e confiava muito nele. Depois da briga com o delegado, Tadeu levou Marina para ir morar na Casa das Heteras, isso fez com que seu inimigo perigoso tivesse mais ódio dele. O delegado procurou Marina várias vezes, a fim de lhe pedir que voltasse a morar com ele, mas ela não quis saber de mais nada, rompeu definitivamente o relacionamento com ele.

- Como foi que a Marina soube do plano para me incriminar?

- Foi a irmã da Marina quem entrou na casa da sua mãe e furtou a pistola. Depois que o assassino matou Tadeu, ela retornou à casa da dona Débora para deixar a arma do crime.

- A irmã de Marina é a mulher do Gabriel... Ela esteve ontem na casa da dona Débora, nervosa dizendo que o Gabriel havia saído cedo de casa e sumido. Ela foi lá para furtar a pistola. Aproveitou que eu e a Iara fomos nos encontrar com vocês na Casa das Heteras, esperou um momento de distração da dona Débora e furtou a pistola. Nem precisou procurar a pistola, porque é ela quem faz faxina na casa e tem uma cópia da chave daquela casa. Foi o Gabriel quem matou o Tadeu a mando do delegado Barreto?  - perguntou Cláudia.

- Não... Não foi o Gabriel quem assassinou Tadeu. Há uma hetera que trabalha de informante para o delegado Barreto, ela ouviu uma conversa de Marina com sua irmã, a Cida. Nessa conversa, Cida conta porque o Gabriel veio morar em Porto da Folha...

- Isso nós já sabemos, ele matou e esposa e o amante, e depois fugiu. – disse Cláudia.

- Exatamente; foi isso que essa hetera contou ao delegado Barreto, e ele usou disso para chantagear Gabriel e a Cida. Marina estranhou que a Cida estava tentando convencê-la a voltar a morar com o delegado Barreto, uma vez que ela havia sido contra aquele relacionamento. Marina foi à casa da Cida no dia do incêndio do Odeon para saber porque ela estava tão diferente. Cida acabou contando que eles estavam sendo chantageados pelo delegado Barreto. Ele mandou que Gabriel guardasse os fogos no depósito de bebidas do Odeon e depois provocou o incêndio para que todos pensassem que havia sido Tadeu. Marina descobriu, por acaso, a hetera que trabalha para o delegado Barreto. Ela viu a tal hetera saindo da casa do mestre Rezende. A maneira como saiu, apressada, deixou Marina desconfiada. Ela então resolveu segui-la. A hetera entrou na delegacia e contou ao delegado Barreto, em detalhes, a conversa que tinha ouvido, escondida, na casa do Mestre Rezende. Nessa conversa, Mestre Rezende conta a vocês toda a história do passado dele. Da mesma forma como a hetera se infiltrou na casa do Mestre Rezende para ouvir a conversa, Marina se infiltrou na delegacia, e conseguiu ouvir toda conversa entre a hetera e o delegado Barreto.

- Essa hetera é a Neide? – perguntou Gilmar.

- Como você sabe?

- Deduzi. Foi ela quem me viu em frente à Casa das Heteras, na noite do crime. O que a Marina fez depois que descobriu que Neide estava trabalhando para o delegado Barreto?

- Foi procurar Tadeu para lhe contar, mas não o encontrou. O delegado Barreto foi na casa do Mestre Rezende com a Cida e a obrigou a entregar a identidade do Nelson Rezende, para poder prende-lo. Fez isso para que as pessoas pensassem que Tadeu estava por trás daquela prisão e ficassem com mais ódio dele. Deu certo; até eu cheguei a pensar nisso. O delegado Barreto planejou tudo nos mínimos detalhes.

- Foi ele quem matou o meu irmão? – perguntou Davi.

- Não posso afirmar que tenha sido ele, mas posso afirmar que foi ele quem planejou o assassinato do Tadeu. Ele sabia que para matá-lo precisaria de um excelente plano, porque se o Dr. Jonas desconfiasse de algo, mandaria matá-lo. Ele deve está desesperado porque parte do seu plano não deu certo. Ele contava que pudesse incriminar Gilmar pelo assassinato.

- O que aconteceu com Gabriel? - perguntou Gilmar.

- O delegado Barreto foi à casa do Gabriel e viu algumas malas prontas e percebeu que ele ia fugir com sua esposa e filha, imediatamente mandou dois policiais ir à Casa das Heteras, a fim de interceptá-lo. Assim foi feito, levaram-no para algum lugar. O delegado Barreto mandou aprisioná-lo e depois usou disso para obrigar Cida a furtar a pistola. Ela não sabia o que ele ia fazer com aquela pistola. Só soube hoje quando ele foi levar a pistola para ela esconder na casa da dono Débora. Marina estava na casa da Cida, escondida, quando os dois saíram ela veio aqui em casa me contar. Minha mãe concordou que a Marina ficasse aqui, até que as coisas se resolvam.

- Marina está aqui em casa? Onde? – perguntou Cláudia.

- No quarto de hóspede. Ela está arrasada. Lhe aconselhei a não ir ao velório nem ao enterro. Ela só ia sofrer mais, e ainda estaria correndo risco de vida.

- Bruno, será que ela concordaria que eu lhe fizesse algumas perguntas?

- Vou perguntar a ela, Gilmar.

Marina veio até a sala de visitas com Bruno. Nem se parecia com aquela mulher alegre, que eles conheceram na Casa das Heteras. Estava abatida, e com os olhos vermelhos de tanto chorar.

- Marina, sabemos o quanto Tadeu era importante para você, podemos imaginar o quanto está sofrendo, mas precisamos que você nos responda algumas perguntas para que possamos agir. Sei que também é do seu interesse que o delegado Barreto responda pelo seus crimes, principalmente pelo assassinato do Tadeu.

- Claro que é do meu interesse. Faça-me as perguntas Gilmar, dessa vez lhe responderei tudo o que sei. Naquele dia que você foi ao meu quarto me fazer perguntas desconfiei que fosse da polícia. Fiquei com medo que você prendesse o Tadeu, por isso não respondi corretamente, agora não há motivos para esconder o que sei.

- Meu irmão fazia parte do tráfico de drogas? – perguntou Davi.

- Marina, deixe que essa pergunta eu respondo – disse Bruno - Muito antes do Tadeu saber que o Dr. Jonas era o chefão da maior quadrilha de tráfico de drogas desse Estado, ele já usava drogas, comprava na cidade de Petrolina. Um dia eu e o Fábio lhe pedimos que vendesse um pouco de sua maconha. Ele respondeu que não era traficante. Então pedi para dar alguns tragos na maconha que estava fumando. Perguntou-me se já havia fumado maconha. Respondi que era viciado, ele então me deu um pouco e papel para fazer o cigarro. Ficou olhando-me e disse rindo: é a primeira vez que vejo um viciado em maconha não saber fazer o cigarro. Desse dia em diante passamos a fumar maconha juntos. Logo depois da festa de formatura na fazenda Batavo, Fábio convenceu Tadeu a comprar maconha para revender em Porto da Folha. Fiquei fora dessa sociedade e ainda tentei fazê-los desistir dessa idéia. Eles trouxeram dois homens de Petrolina para vender maconha em Porto da Folha e em Gararu, numa lancha que haviam comprado. Esses homens são os que a Luciana me contou que Davi fotografou de cima do moinho. Os dois ganharam muito dinheiro, mas Tadeu não estava contente em ganhar dinheiro daquela maneira. Queria voltar a trabalhar de eletricista com seu tio, como sempre trabalhou, mas Fábio fez com que ele mudasse de idéia. Fábio sabia persuadir e dissuadir o Tadeu. O Dr. Jonas não ficou satisfeito em saber que eles estavam vendendo drogas em Porto da Folha e em Gararu, porque isso podia chamar a atenção dos federais e destruir todo esquema que ele havia montado para distribuir as drogas nas principais cidades de Sergipe. Tadeu convenceu o Dr. Jonas a permitir que eles continuassem a vender drogas nessas duas cidades.

- Eu pensava que era Tadeu quem persuadia e dissuadia o Fábio...

-... Mas não era, Iara. Fábio é tão ardiloso que se faz de imbecil só para enganar as pessoas. Fábio é maquiavélico, foi ele quem mandou matar Elias e espancar a Luciana, assim como planejou o assalto do jipe para encobrir a verdade. Quando eu e a Luciana terminamos o namoro, Fábio sugeriu que eu desse uma lição nela. Perguntei-lhe que tipo de lição. Uma boa surra de ficar as marcas no corpo, por um bom tempo; respondeu ele, com um sorriso maligno. Achei aquilo tão absurdo, que o deixei falando sozinho. Quando eu soube que o Elias tinha sido baleado e a Luciana espancada no assalto do jipe, desconfiei na hora de que era obra do Fábio. Fui atrás dele na Casa das Heteras, e lá dona Diva contou-me que ouviu Fábio dizer ao Tadeu que ia mandar matar o Elias, para se vingar da ocasião que houve a briga no pequeno cemitério da fazenda Batavo, quando Elias havia dado um corretivo nos dois, por terem batido no Mário, covardemente. A partir desse momento não era mais uma desconfiança, eu tinha quase certeza que Fábio havia mandado fazer aquilo. Quando os dois chegaram comecei a brigar com Fábio. Ele jurou que não tinha mandado e o Tadeu disse que estava com raiva do Elias, porém não teria coragem de fazer tal covardia e não deixaria que o Fábio a fizesse. Desse dia em diante parei de conversar com eles. Quando vi os corpos dos tais assaltantes do jipe no rabecão, tive a certeza que Fábio havia mandado matar Elias e espancar a Luciana. Aqueles dois homens que estavam no rabecão também trabalhavam para ele e para o Tadeu, vendendo drogas.

- Esses dois homens foram contratados pelo Fábio. Eram pistoleiros procurados em vários estados do nordeste. - acrescentou Marina.

- Quantas pessoas trabalhavam para o Tadeu e o Fábio, vendendo drogas? – perguntou Gilmar.

- No começo eram dois, ambos lavradores desempregados e com família para sustentar. Depois Fábio contratou esses dois pistoleiros, contra a vontade do Tadeu. Bruno disse certo, Fábio sabia persuadir e dissuadi-lo. No começo eles só vendiam maconha, mas Fábio passou a vender drogas pesadas, cocaína, heroína, crack. Ele queria contratar vários homens para vender drogas em outras cidades, mas o Dr. Jonas mandou chamar os dois e lhes disse que não era mais para contratar nenhuma pessoa. Fábio queria se tornar um chefão como o Dr. Jonas, e Tadeu queria apenas voltar a ser eletricista, mas Fábio sempre o convencia a desistir disso. Alguns meses atrás Tadeu me confessou que estava com a consciência pesada por ganhar dinheiro a custa da miséria de pessoas inocentes. Ele conhecia bem os efeitos destrutivos que causavam as drogas... Era viciado. Quando ele descobriu que Fábio havia mandado matar Elias e espancar Luciana ficou tão revoltado que dessa vez Fábio não conseguiu dissuadi-lo e ele deu-lhe uma surra. Disse que não ia mais vender drogas e nem deixaria que ele vendesse. Desse dia em diante não quis mais saber em manter a amizade com um covarde, essa amizade só durou tanto tempo porque Tadeu não sabia o tipo de pessoa que é o Fábio. Ele nem sequer admitia a possibilidade de conversar com uma pessoa que cometeu um estupro, quanto mais ter amizade com essa pessoa.

- Como assim? O que você está querendo dizer com isso? – perguntou Davi.

- Marina, se me permite, eu gostaria de explicar o que você quis dizer - disse Luciana - Antes de vocês chegarem, Bruno e eu estávamos lendo o diário de Tadeu que Marina trouxe. Neste diário Tadeu menciona que Fábio saiu da festa de formatura na fazenda Batavo para ir à cidade buscar maconha para eles fumarem. Bruno confirmou isso e ainda acrescentou que Fábio foi a cavalo. Tanto o Bruno como o Tadeu acreditaram que ele tinha ido apenas buscar maconha, por isso esconderam esse fato. A Fátima não quis contar quem foi que ela viu saindo a cavalo porque era a mesma pessoa que a estuprou. Agora sabemos quem foi que ela viu saindo a cavalo...

-... Não resta dúvida alguma. Fábio foi à cidade buscar maconha, mas também foi à fazenda do Sr. Paulo contar-lhe que a Cláudia e o Davi estavam juntos num dos quartos do casarão... Foi ele quem estuprou a Fátima. Era ele quem colocava os bonecos pendurados na árvore em frente da casa da dona Débora e foi ele quem riscou o carro do Mário. Pelo menos agora as pessoas irão saber que todas as coisas ruins que aconteciam nesta cidade, não era Tadeu o responsável. Ele respeitava muito o Sr. Paulo, mas quando ouviu Davi contar pela Rádio Ativa o que tinha feito a Cláudia e ao neto, ficou indignado. Tadeu foi à fazenda do Sr. Paulo e lhe disse que não acreditava mais que o Sr. Francisco Rosenberg fosse um mau caráter, porque agora ele sabia quem era o verdadeiro mau caráter. Disse ainda que se ele tivesse vergonha e decência, sairia de Porto da Folha e não voltaria mais. Eu tenho certeza que foi Fábio quem contou ao Sr. Paulo sobre a gravidez de Cláudia. Ele tem um amor doentio pela Cláudia, assim como o delegado tem por mim.

- Na época que estudávamos, eu e o Fábio vivíamos juntos. Ele me tratava com carinho, mas nunca insinuou que tivesse interesse em namorar comigo...

-... Você não notou, mas eu notei e lhe disse. Assim que você começou a namorar com o Gilmar ele se afastou de você e começou a espalhar boatos de que você era vadia. Quando você foi morar com o tio Fernando na fazenda Batavo, ele procurou-me dizendo que jamais espalharia boatos ao seu respeito, porque lhe amava. Eu também acredito que tenha sido ele quem entrou no casarão e viu que você estava grávida e foi contar ao nosso pai. Várias vezes ele me chamou para irmos à fazenda Batavo, dizendo que queria falar com você. Ele tinha medo de ir sozinho porque o tio Fernando havia proibido que ele e Tadeu entrassem na fazenda. Eu achava Fábio tão patético que não conseguia ter raiva dele; hoje se me encontrar com ele sou capaz de o estrangular com minhas próprias mãos.

- Se o Elias souber que foi o Fábio quem estuprou Fátima, ele fará questão de estrangulá-lo.

- disse Iara...

- Marina, por que os dois homens da lancha a procurou? – perguntou Gilmar.

- Os dois estavam desesperados porque achavam que também seriam executados. Eles vendiam drogas somente porque precisavam de dinheiro para sustentar suas famílias, não são bandidos como os dois que foram executados pelo delegado Barreto, a mando do Dr. Jonas. Eles foram pedir algum dinheiro ao Tadeu para voltar às suas casas em Petrolina. O Tadeu tinha ido justamente na fazenda do Dr. Jonas lhe garantir que ele e o Fábio haviam abandonado a venda de drogas. O delegado Barreto gostou de ter executado aqueles dois homens, porque o Dr. Jonas tinha ficado bravo pela primeira vez com o Tadeu. Seu plano estava dando certo. Ele chegou a tentar convencer o Dr. Jonas a manda executar também Tadeu e Fábio, mas não da mesma maneira como foram executados aqueles dois homens. Eles morreriam num falso acidente de carro. Foi ele quem inventou essa história que os dois assaltantes roubaram o jipe para usar num assalto que fariam numa agência do Banco do Brasil na cidade de Canindé.

- Depois que os dois homens da lancha saíram da Casa das Heteras eu os segui para descobrir o esconderijo deles, mas o pneu dianteiro da moto furou na estrada...       – contou Gilmar.

- O esconderijo deles era a antiga casa que os pais do Tadeu tinham à margem do rio, em Gararu.

- Essa casa foi vendida alguns meses antes dos meus pais morrerem...

-... Foi, mas Tadeu tornou a comprar esta casa, com o dinheiro que juntou trabalhando de eletricista. Ele a registrou em seu nome, porque sonhou que havia morrido eletrocutado. A namorada dele terminou o namoro porque achava que ele estava apaixonado pela Cláudia. Ele só se apaixonou por uma garota, que morreu afogada. Ele sempre falava nela. Tadeu ficou muito contente quando viu a Cláudia dançando com Davi na Casa das Heteras; ele tinha muitos defeitos, mas amava o irmão verdadeiramente.

- Essa Neide teve o cinismo de ir ao velório e ao enterro do meu irmão, e o delegado Barreto chegou a me dar os pêsames. Esses miseráveis vão me pagar. Realmente foi uma pena em não termos conhecido o verdadeiro Tadeu; eu também o amava, mas não demonstrava somente porque ele se comportava daquela maneira. Se eu tivesse conhecido melhor, teríamos sido bons amigos; nunca nos abraçamos. Estou com remorso de sempre tê-lo julgado, sem ao menos ter lhe dado à chance de se defender. Antes de julgá-lo tinha que me aproximar dele para tentar compreendê-lo.

- Não é só você que está com remorso, Davi, todos nós estamos com remorso, principalmente eu, que vivia ofendendo-o, por achar que tudo de ruim que acontecia era obra dele. Bruno sempre me dizia: quando você parar de julgar Tadeu e lhe der chance para se abrir, descobrirá uma outra pessoa. Fiquei com muito ódio naquele dia em que ele chamou Mestre Rezende de negro nojento. Não aturo racismo.

- Mas Tadeu não era racista Luciana, disso eu tenho certeza. A garota que a Marina disse que ele era apaixonado e que morreu afogada, era negra. Lembro que meu irmão ficou arrasado quando ela morreu...

-... Tão arrasado que se trancou em seu quarto por vários meses e depois passou a usar drogas. Às vezes que chamou o Mestre Rezende de negro nojento tinha cheirado muita cocaína, cheguei a pensar que fosse morrer de overdose. Tadeu não era racista, era um viciado que não tinha mais o autocontrole. Ele escreveu o seguinte em seu diário: “descobri que sou um covarde, porque uso esse diário somente por não ter a coragem de pedir desculpas às pessoas que ofendi gratuitamente”. Esse diário, ele guardava na Casa das Heteras, trouxe para lhe entregar, Davi.

Ele abriu o diário e leu em voz alta: “Acordei com um estranho pressentimento que morrerei hoje, se isso acontecer peço à pessoa que tomou posse deste diário que me faça o favor póstumo de dizer ao Mestre Rezende que eu o admirava como músico, cantor e principalmente como pessoa, e que não tive culpa nenhuma com o incêndio criminoso do Odeon, pois ali era minha segunda casa. Gostaria de ter sido o autor da idéia de formar uma banda para arrecadar dinheiro para a reconstrução do Odeon. Mestre Rezende, agradeço por tudo que você tentou fazer por mim e perdoe-me pelas ofensas que lhe fiz...

Davi fechou o diário, como se estivesse fechado a cova da sepultura do seu irmão. Sussurrou como se estivesse falando com o falecido:

- Direi ao Mestre Rezende...

- Marina, você contou ao Tadeu que a Neide estava mancomunada com o delegado Barreto? – perguntou Gilmar.

- No dia que descobri que eles estavam mancomunados não encontrei com Tadeu, porque ele tinha ido à fazenda do Dr. Jonas. Ficou sabendo algumas horas antes de sua morte. Contei a dona Diva e ela contou ao Tadeu. Ele foi ao meu quarto e conversamos a respeito disso. Disse que não me preocupasse, pois iria resolver tudo no dia seguinte, infelizmente não houve dia seguinte para ele.  Há algum tempo atrás, comecei a desconfiar que havia algo sinistro na relação entre a Neide e o delegado Barreto, e cheguei a comentar com Tadeu, ele achou que eu estava com ciúmes. Ontem eu cheguei a dizer à dona Diva que só voltaria a fazer o show de mágica depois que a Neide saísse da Casa das Heteras. Ela me pediu um tempo para contar ao Tadeu e juntos decidirem o que fariam com a Neide. Antes da dona Diva ir com as heteras ao velório, ela foi ao meu quarto e disse que tinha uma surpresa preparada para Neide, mas não me contou, pois era surpresa.

- Marina, além do delegado Barreto, quem mais está envolvido no tráfico de drogas? – perguntou Davi.

- Os policiais que trabalham nesta cidade e o juiz Diogo Freire.

- O Sr. Paulo Lima não tem nenhuma participação no tráfico de drogas?

- Nenhuma Mário. Ele e o prefeito estão tão preocupados em fazer com que as verbas do município venham parar em suas contas bancárias particular que nem têm tempo para desconfiar que há uma quadrilha de tráfico de drogas instalado nesta cidade. Os dois acreditam que o Dr. Jonas fez toda sua fortuna através do vinhedo. O Dr. Jonas contou a Tadeu que só entrou no mundo ilegal das drogas por causa dos seus irmãos, que contaram aos seus pais que ele era homossexual. Por isso foi expulso de casa e recebeu uma herança inferior ao dos seus irmãos. Um amigo dele, de Caxias do Sul, o convidou para entrar como sócio no tráfico de drogas. Esse seu amigo tem uma vasta plantação de maconha no estado de Pernambuco. Todas as drogas que a quadrilha do Dr. Jonas vende em Sergipe é esse seu amigo quem lhe fornece. Também tem um vinhedo em Petrolina para justificar sua imensa fortuna. As drogas chegam na fazenda do Dr. Jonas de barco, sempre de madrugada, para não chamar atenção.

- Já tenho informações suficiente para desbaratar essa quadrilha. Vou telefonar para o setor de narcóticos de Aracaju e dá o sinal verde para agirmos o mais rápido possível.

- Que provas você tem para incriminar o Juiz Diogo Freire no seu envolvimento com o tráfico de drogas? – perguntou Mário.

- Assim que cheguei aqui em Porto da Folha grampeei vários telefones e consegui gravar várias conversas do juiz Diogo Freire com o Dr. Jonas. Nessas conversas fica bem claro seu envolvimento no tráfico de drogas, bem como o envolvimento do delegado Barreto.

- Você também irá prender o Gabriel e a minha irmã?

- Se eles tivessem envolvidos no tráfico de drogas, eu seria obrigado a prendê-los. Eu poderia prender o Gabriel porque ele é procurado por assassinato, mas não vou, só me interessa desbaratar essa quadrilha. Minha preocupação agora é descobrir onde Gabriel está aprisionado e o libertar, porque o delegado Barreto pode executá-lo a qualquer momento, assim como também à sua irmã. Ambos representam perigo para ele.

O telefone tocou e Bruno atendeu.

- Gilmar, o tio Fernando que falar com você.

Após ter falado com o Dr. Fernando:

- Acabou de aterrissar um helicóptero na fazenda do Dr. Jonas e há muito movimento por lá. Está acontecendo alguma coisa... Preciso descobrir o que é.

Os três foram à fazenda do Dr. Jonas. O helicóptero havia aterrissado a vinte metros do casarão da fazenda do Dr. Jonas.

Ele se dirigiu ao helicóptero com uma pasta de executivo, acompanhado de quatro homens armados com fuzis. Um deles abriu a porta do helicóptero e Dr. Jonas entrou e disse:

- Quero que removam toda mercadoria, ainda hoje, antes que sejamos surpreendidos pelos federais.

- Removeremos Dr. Jonas; faça uma boa viagem.

- Já podemos decolar, piloto, quero chegar a Petrolina antes de anoitecer.

O helicóptero decolou levando apenas um passageiro, o chefão do tráfico de drogas. Tanto o piloto como o co-piloto usavam bonés e óculos de sol.

- Piloto, por que estamos aterrissando?

- Vamos apanhar mais um passageiro, Dr. Jonas.

- Apanhar mais um passageiro? Não mandei apanhar nenhum passageiro...

Ele ficou assustado, principalmente quando viu que o passageiro era o Mário e estava com um pistola na mão; entrou e se sentou ao lado do Dr. Jonas. O piloto e co-piloto tiram os bonés e os óculos de sol. O piloto era Gilmar e o co-piloto o Davi, que também estava com uma pistola na mão, escondida entre as pernas. Gilmar apresentou-lhe sua insígnia, dando voz de prisão:

- Sou o agente federal, Gilmar Rosenberg e estou lhe prendendo por formação de quadrilha e tráfico de drogas, Dr. Jonas Schlegel. Mário pode algemá-lo, depois o reviste, ele pode está armado.

- Pronto, já está algemado e foi revistado. Quanto ao piloto e o co-piloto, os amarrei numa árvore e os deixei amordaçados.

- Gilmar, é melhor nós tornarmos a decolar, antes que os homens do Dr. Jonas desconfiem de algo.

- Aqueles incompetentes nem sequer desconfiaram que foram enganados. Vocês pretendem me levar a polícia federal em Aracaju?

- Não. Vamos dar um passeio de helicóptero pela região, até os agentes federais chegarem à sua fazenda e prenderem toda a sua quadrilha. Em seguida tornaremos a aterrissar lá para eu entregá-lo ao delegado da polícia federal. Eles devem está chegando a qualquer momento.

- Gilmar, você não vai ganhar nada me entregando ao delegado da polícia federal, porém, se não me entregar, os três ganharão três milhões de dólares. É muito dinheiro mesmo dividido por três pessoas. O dinheiro está nessa minha pasta, só quero apenas que me deixem fugir. Ninguém precisa saber da existência desse dinheiro, nem que vocês me deixaram fugir. É um excelente negócio, tanto para mim quanto para vocês... Então o que me dizem?

- Que esta tentativa de suborno constará no seu processo. Você escolheu as pessoas erradas para subornar. Poupe tua voz para falar no Tribunal de Justiça.

- Tal pai tal filho...

- O que está querendo dizer exatamente com isso?

- Nada. Como você mesmo disse, devo poupar a minha voz, e esbanjar o meu dinheiro para comprar a minha liberdade. Vocês são muitos tolos se pensam que vou mofar na penitenciária com todo o dinheiro que possuo, espalhado por vários bancos, dentro e fora do país. Algo me dizia que eu ia ter problemas com os Rosenbergs. Se eu tivesse tido a preocupação de mandar investigar a sua vida isso não estaria acontecendo... Não estaria sendo preso justamente pelo filho do capitão Ivo Rosenberg, isto é irônico e de mal gosto. A culpa é minha, por ter me deixado enganar por esta tua aparência de músico de Raggae.         

- Você está querendo dizer que não descobriu que eu sou agente federal? Por que então estava fugindo?

- Isto você terá de descobrir porque só falarei agora diante dos meus advogados.

Os federais chegaram em cinco helicópteros do Exército. Depois de muito tiroteio, conseguiram prender todos os traficantes. Alguns morreram no confronto. Gilmar tornou a aterrissar o helicóptero na fazenda do Dr. Jonas.

- Delegado Mendes, estes são os meus amigos, Mário Rosenberg e Davi Ribeiro. Se não tivessem me ajudado o chefão do tráfico de drogas teria conseguido fugir.

O delegado Mendes os cumprimentou e os elogiou pela boa atuação que tiveram. Um agente federal interrompeu a conversa, dizendo:

- Delegado Mendes, encontramos o delegado Barreto, ou melhor, o corpo dele, junto com mais dois corpos. Provavelmente foram executados algumas horas atrás, naquele galpão.

Eles foram até o galpão, os corpos estavam crivados de balas e com as mãos amarradas. Os outros dois corpos eram da hetera Neide e do Fábio. Várias pescadores estavam olhando os corpos dos traficantes que morreram no tiroteio. Quando Gilmar saiu do galpão um pescador, já de certa idade, que mancava de uma das pernas o chamou.

- Como está seu Antônio?

- Pretendendo me sentir melhor, Gilmar, depois que lhe contar um segredo que fui obrigado a guardar para evitar que eles matassem a minha família.

- Que segredo é este?

- Este segredo é sobre o assassinato do seu pai. Ivo e eu fomos pescar, ele se esquecia de levar a isca, porém jamais se esquecia de levar um litro de cachaça para bebermos enquanto pescávamos. Ivo comentou que estava desconfiado dos barcos que sempre chegavam à fazenda do Dr. Jonas, trazendo caixotes e mais caixotes. Comentei que também estava desconfiado. Quando a cachaça acabou ele pediu que eu fosse a cidade comprar outro litro. Voltei da cidade e não o encontrei no lugar em que estávamos pescando, porém avistei o barco dele às margens da fazenda do Dr. Jonas. Fui até lá e vi quatro homens afogando o Ivo, próximo à beira do rio. Não pensei duas vezes, tirei a minha faca da bainha indo para cima deles, só que um deles me viu, puxou o revólver e me acertou um tiro nesta minha perna, caí e não pude fazer absolutamente nada, pois sequer conseguia me mexer. Chorei, não pela dor da bala cravada em minha perna, mas por ver meu amigo Ivo sendo afogado por aqueles bárbaros sanguinários. Pedi-lhes pelo amor de Deus que não o matassem, mas seus ouvidos só ouviam a voz do satanás. Depois que afogaram ele, jogaram o corpo no rio e viraram o seu barco, para parecer que ele havia se afogado por conseqüência de ter ficado bêbado. Pensei que eu fosse o próximo a ser morto, mas eles não me fizeram nada, levaram-me ao casarão da fazenda do Dr. Jonas e lhe contaram que havia feito o que ele mandou fazer, porém eu havia testemunhado. Dr. Jonas os xingou de incompetentes, depois olhou para mim e perguntou se eu queria permanecer vivo ou ter o mesmo fim do Ivo. Respondi que se eu quisesse permanecer vivo, teria de omitir o assassinato do Ivo. Ele bateu no meu ombro e disse com um sarcasmo demoníaco: Seu Antonio, Ivo morreu afogado; todo mundo na cidade sabe que ele só pescava bebendo, só que desta vez ele bebeu tanto que virou o barco e não conseguia nadar até a margem do rio.

Contou-me que pretendia se livrar do Ivo, pois ele representava perigo aos seus negócios, porque jamais deixaria ser subornado. Já estava planejando um crime perfeito, para o assassinar, mas Ivo o surpreendeu naquele dia, descobrindo o tipo de mercadoria que estava negociando, porém um dos seus homens lhe viu espionando no momento em que eles abriam os caixotes que vinha nos barcos, num dos galpões da fazenda. Este homem rendeu o Ivo com uma arma e o levou ao Dr. Jonas, que imediatamente ordenou que o afogassem, jogasse o corpo no rio e virasse o seu barco. O atestado de óbito do Ivo foi comprado por Dr. Jonas. Lembro que na época apenas você desconfiou que havia sido um assassinato. Dr. Jonas só não mandou me matar porque iria parecer estranho as mortes de duas pessoas no mesmo período, isso despertaria a desconfiança de toda a cidade. Ele retirou a bala de minha perna, lá mesmo no seu casarão e disse que se eu o delatasse mandaria matar toda a minha família. Depois me mataria de uma maneira bem lenta e dolorosa. Mandou que eu dissesse para todo mundo que eu havia tomado aquele tiro de um caçador, acidentalmente. Alguns de seus homens foram me levar em minha casa e ficaram vigiando a mim e a minha família por muito tempo. Minha mulher e meus filhos viviam aterrorizados, com medo de sermos vítimas de uma chacina. Assim que melhorei um pouco da perna, o suficiente para poder andar, voltei à fazenda do Dr. Jonas e lhe disse que jamais poderia voltar a andar normalmente devido ao tiro que um dos seus homens me acertou, por causa desse tiro também não estava podendo trabalhar para sustentar a minha família. Ele me interrompeu dizendo: “Compreendo a tua situação seu Antônio... lamento muito pelo o que aconteceu à sua perna... daqui por diante lhe pagarei todo mês um salário para poder sustentar a sua família. Ele tirou um pacote de dinheiro do bolso, estendeu para me dar e disse:” Este dinheiro deve ser suficiente para você fazer uma boa compra de alimentos para este mês. Tive vontade de poder enfiar a minha faca no bucho daquele pederasta, mas pensei na minha família e desisti, porém não temi em lhe dizer que na minha casa só entrava dinheiro do meu suor e que não queria nada dele, apenas que deixasse a mim e a minha família em paz. A partir desse dia eles pararam de nos vigiar. Gilmar, só guardei este segredo por causa da minha família, não foi porque tivesse medo dele mandar me matar. Pensei em mandar minha família para um lugar distante daqui e depois denunciá-lo por assassinato e por tráfico de drogas, mas minha mulher percebeu o que eu queria fazer e me implorou que desistisse dessa idéia. Eu gostava muito do teu pai, por isso sofri bastante por ter que guardar este segredo. Você gostaria de ver os quatro homens que afogaram o seu pai a mando do Dr. Jonas?”

Gilmar fez um gesto afirmativo, balançando a cabeça. Seu Antônio o levou onde estavam os corpos dos traficantes mortos no tiroteio.

- Estes são os quatro corpos dos homens que afogaram seu pai; só faltou o mandante, mas tenho certeza que ele vai pagar pelo que fez.

- Agora entendo porque aquele bandido me disse: “Tal pai tal filho” é que era irônico ter sido preso justamente por mim. Se eu soubesse disto antes teria lhe matado...

- Não teria, Gilmar, porque a justiça lhe é intrínseca. Posso lhe garantir que o Dr. Jonas Schlegel pagará por todos os crimes que cometeu – disse o delegado Mendes.

Gilmar, Davi e o Mário foram à Casa das Heteras. Dona Diva estava sentada sozinha numa mesa, bebendo uma dose de uísque.

- Sentem-se, eu já sabia que vocês três iriam me procurar para fazer algumas perguntas.

- Você esteve com o Dr. Jonas?

- Estive, Davi! Após o enterro do teu irmão... Fui à fazenda dele lhe contar que o Tadeu, antes de ser assassinado, me contou que viu o Fábio entrar na delegacia, saindo em seguida, junto com o delegado Barreto e foram à fazenda do prefeito Ricardo Gomes. Contei também que a Neide era informante do delegado Barreto. O Dr. Jonas não quis ouvir mais nada, no mesmo instante mandou buscá-la aqui na Casa das Heteras. Ela chegou amarrada, ele enfiou o cano de sua arma na boca dela e lhe disse que iria fazer algumas perguntas; se mentisse a matava. Neide nunca foi tão sincera em toda a sua vida, como foi naquela hora, confessou tudo... Aquela vagabunda além de não prestar era idiota... Não analisou que sua confissão era a sua sentença de morte. Ela contou que Fábio e o delegado Barreto se uniram e planejaram o assassinato do Tadeu. Os dois pretendiam também executar o Dr. Jonas e assumirem o comando de sua quadrilha. Foi ela quem telefonou para o delegado Barreto, avisando que vocês tinham vindo aqui e que depois Gilmar voltou e ficou parado ai fora com sua moto. Eles então prepararam a emboscada para assassinar o Tadeu. Quando o Tadeu estava voltando para cidade, Fábio, fez sinal para ele parar. Assim que parou a sua moto, o delegado Barreto que estava escondido no mato, saiu atirando. Com a pistola que mandou a Cida furtar da casa da dona Débora. Tadeu não teve sequer chance de tentar fugir daquela emboscada, porque os quatro tiros foram certeiros, atingindo nas partes vitais, dois tiros no peito e dois na cabeça. Dr. Jonas simplesmente telefonou para o delegado Barreto e lhe pediu que viesse a sua fazenda para juntos traçarem um plano. Ele pensou que era para planejar o assassinato do Gilmar, não desconfiou de nada, tanto é que chegou em poucos minutos, sozinho. Assim que chegou os homens do Dr. Jonas o desarmou e o amarraram; com o Fábio foi à mesma coisa, só que o Dr. Jonas telefonou para ele depois que o delegado Barreto havia chegado. Dr. Jonas botou os três frente a frente e mandou que a Neide repetisse tudo que tinha contado, sem mudar uma palavra. Fábio não deixou nem ela começar a falar, de tão desesperado que estava, já foi dizendo que era mentira, que era inocente, depois se ajoelhou chorando, implorando que não o matasse. O delegado Barreto, disse que havia feito um dossiê, revelando todo o esquema do tráfico de drogas e entregou a uma pessoa de sua confiança para ser entregue a Polícia Federal, se acaso fosse encontrado morto, fosse por causa natural, acidental, intencional ou se tivesse sumido.  Dr. Jonas disse: “Não preciso ouvir mais nada. Levem estes três para o galpão”. Foi o próprio Dr. Jonas quem os executou. Fiz questão de assistir aquela execução, sentir-me vingada.

Depois de terem conversado com a dona Diva, foram à fazenda do pai do Fábio e encontraram o Gabriel, amarrado dentro de um celeiro, o levaram para sua casa. Os corpos foram levados para o IML em Aracaju, apenas o corpo do Fábio retornou a Porto da Folha para ser enterrado no cemitério da cidade. No seu velório haviam muitas pessoas. Fátima foi ao enterro dele, acompanhada do Elias. Assim que o caixão foi colocado na cova, os familiares jogaram pétalas de rosas. Fátima tirou uma nota de dez reais da bolsa, amassou e jogou dentro da cova. Todo mundo ficou olhando para ela, sem entender aquele gesto.

- Aí está a mesma nota de dez reais que você deixou na minha cama, após ter me estuprada, leve-a contigo para o inferno, seu amaldiçoado.

As pessoas ficaram espantadas com mais aquela revelação. Agora era do conhecimento de todos na cidade, o tipo de pessoa que havia sido Fábio.

Após o enterro os integrantes que formavam a banda Odeon se reuniram no salão paroquial para ensaiar.

Depois de uma semana de ensaio realizou-se a Panatenéias com a presença de milhares de pessoas do Estado de Sergipe e de outros Estados vizinhos. A banda Odeon fez sua primeira apresentação na Panatenéias com bastante sucesso, em seguida fez show em diversos lugares.

Mestre Rezende voltou do Rio de Janeiro casado com uma Angolana, que havia tido um caso quando estava morando em Angola. Essa mulher teve um casal de gêmeos depois que ele voltou ao Brasil. Ela estava morando no Rio de Janeiro com seus dois filhos na casa da irmã do Mestre Rezende ele foi visitá-la e descobriu que era pai de gêmeos, que por sinal eram excelentes músicos. Ele estava livre do assassinato do Capitão Lisboa porque o verdadeiro assassino se entregara, confessando a autoria do crime, logo após o Mestre Rezende ter fugido para Angola. O assassino era o filho do Almirante Dantas, que era tenente da Marinha. Ele havia flagrado sua mãe e o Capitão Lisboa transando na garagem de sua casa no dia da festa. Ele já desconfiava que eles fossem amantes, por isso quando viu entrarem na garagem, foi até lá, já com uma faca para matá-lo. A princípio sua mãe o convenceu a não se entregar à polícia e a esconder aquilo, do pai dele. Na época ela procurou o advogado do Mestre Rezende e lhe pagou o triplo para que ele fosse condenado pelo crime do Capitão Lisboa. O almirante Dantas acabou descobrindo a verdade e fez com que seu filho confessasse a autoria do crime.

Mestre Rezende recebeu o dinheiro que a banda Odeon havia ganho fazendo shows e o dinheiro que foi arrecadado na Panatenéias. Era dinheiro suficiente para reconstruir o Odeon, só que ele voltou do Rio de Janeiro com outros planos, um dos seus planos era construir o centro de reabilitação de drogados de Porto da Folha, por isso destinou todo dinheiro que recebeu para este fim. Estava em seus planos, também, manter a Banda Odeon e gravar um disco. Ele perguntou quem desejava continuar na banda, apenas três pessoas quiseram sair: Davi, Iara e a Cláudia.

Davi e Iara para continuar em seus empregos e a Cláudia para voltar a esculpir suas esculturas. Mário e o Gilmar fizeram exatamente o contrário deles, deixaram seus empregos para continuar na banda. Os filhos do Mestre Rezende entraram para a banda.

Cláudia fez uma exposição com todas as suas esculturas em Aracaju e foi bastante elogiada pelas centenas de pessoas que compareceram. A imprensa deu destaque a sua exposição e a chamaram pelo seu apelido, “Mirontina”, para enaltecer o seu talento. Pessoas de outros Estados vieram conhecer suas esculturas de perto, e lhe fizeram convites para expô-las em diversas cidades do Brasil e no estrangeiro.

Os pais do Mário tornaram a comprar a fazenda Batavo do Dr. Fernando e voltaram a morar lá. A mãe dele passou a ensinar aos filhos dos pescadores e a tocar piano no antigo ateliê da Cláudia, gratuitamente.

O pai dele tornou a disputar a eleição a prefeito com o Sr. Paulo Lima e novamente o derrotou, com mais de noventa por centos dos votos. O Sr. Paulo Lima foi tão hostilizado pelas pessoas da cidade que teve de se isolar em sua fazenda, acabou cometendo suicídio com um revólver, disparando um tiro em sua cabeça.

Mário e Iara decidiram passar uma noite no hotel Ondas de Atalaia, no mesmo apartamento que ele ficou hospedado. Ao se aproximar do hotel viram um pequena multidão protestando ao lado de fora. Desta vez o protesto não era ecológico, lhes explicou o mesmo recepcionista que os levou ao escritório do dono do hotel e governador de Sergipe. Todos que estavam protestando eram ex-funcionários do hotel, que foram mandado embora, sem terem recebido seus direitos trabalhistas, após o hotel ter fechado, por falta de hóspedes. Ninguém mais queria se hospedar naquele hotel depois que houve o protesto dos botos. Ele pediu ao Mário que fizesse um discurso em favor dos direitos dos ex-funcionários do hotel, isso serviria para pressionar o dono do hotel. Mário respondeu que gostaria muito de fazer aquilo que lhe pediu, porém não ia fazer porque alguém poderia telefonar para polícia, exigindo que acabasse com aquele protesto. Mário lhe aconselhou a procurar o grande advogado trabalhista, Dr. Fernando Lima, que já era acostumado a defender os direitos dos ex-funcionários do donatário de Sergipe. Mário e Iara saíram rindo.


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